Beagá, Quarta, 18 de abril de 2001 d.C.

"Primeiros Erros (Chove)"
Kiko Zambianchi

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

"Meu caminho é cada manhã / Não procure saber onde vou / Meu destino não é de ninguém / Eu não deixo meus passos no chão / Se você não entende, não vê / Se não me vê, não entende / Não procure saber onde estou / Se o meu jeito te surpreende / Se meu corpo virasse sol / Minha mente virasse sol / Mas só chove, chove, chove, chove / Se um dia eu pudesse ver / Meu passado inteiro / E fizesse parar de chover / Nos primeiros erros oh / O meu corpo viraria sol / Minha mente viraria / Mas só chove, chove, chove, chove."

Vou ser sincero: quando esta música rolava nos anos 80 e eu tinha minhas primeiras decepções amorosas, eu chorava quando a escutava, de pura e ingênua emoção. Hoje, a situação é parecida: eu choro quando escuto esta música mas, na verdade, é uma mistura de dó e raiva que vem de dentro de minha alma que não consigo controlar. Ultimamente, vez ou outra eu ouvia "Primeiros Erros" em programas de flashbacks das rádios belorizontinas, só que ela foi regravada no Acústico do Capital Inicial e, se já era dura de agüentar, agora ficou simplesmente intolerável.

O mais engraçado desta letra é que ela tem um quê poético que fica mais evidente na interpretação séria e profunda de Kiko Zumbianchi. Já com o Dinho a história é outra, é palhaçada mesmo e pronto. Kiko fala que sua vida é assim mesmo, meio imprevisível, aquela conversa "sai de casa de manhã sem ter hora para chegar e sem dar satisfação pra ninguém", típica de filhinho de papai rebelde dos anos 70 e 80, não sei se era esse o caso do rapaz. Agora, o auge da criatividade e do vanguardismo de Zumbianchi está nos versos: "Se você não entende, não vê / Se não me vê, não entende". Reparem no uso de palavras em posições trocadas e fazendo sentido de acordo com o grau de abstração de quem ouve. Notem que esta música não é pra qualquer um, exige-se do ouvinte uma certa inteligência emocional.

A influência de poetas deprimidos se percebe quando ele diz que gostaria de se transformar em sol, mas na verdade só chovia e chovia e chovia sem parar, que lindo! A ligação entre chuva e erros é uma sacada do compositor de fazer fechar o comércio: a chuva e as nuvens significam momentos difíceis que não passam nunca; o sol é a luz que faz brilhar o caminho do cidadão rumo à felicidade... é tudo maravilhoso e ridículo ao mesmo tempo, se é que vocês me entendem. No final, só chegamos a uma conclusão: grandes anos 80 e seus músicos superdotados!

"De Repente (Fazer Neném)" - Guilherme Arantes

 

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