Beagá, Quarta, 28 de fevereiro de 2001 d.C.

"Linda Juventude"
Flávio Venturini e Márcio Borges

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

"Zabelê Zumbi, Besouro / Vespa fabricando mel / Guardo teu tesouro / Jóia marrom / Raça como nossa cor / Nossa linda juventude / Página de um livro bom / Canta que te quero / Cais e calor / Claro como o sol raiou / Claro como o sol raiou / Maravilha juventude / Pobre de mim, pobres de nós / Via Láctea / Brilha por nós / Vidas pequenas da esquina / Fado, sina, lei, tesouro / Canta que te quero bem / Brilha que te quero / Luz andaluz / Massa como o nosso amor / Maravilha juventude / Tudo de mim, tudo de nós / Via Láctea / Brilha por nós / Vidas bonitas da esquina."

Não sei se é da época dos abacaxinautas, mas tempos atrás vinha escrito em destaque no canto da contracapa de todos os discos brasileiros a célebre frase: "Disco é cultura". Esta música é deste tempo e vem provar que a frase estava corretíssima. Quem não se lembra de "Linda Juventude", interpretada pela competentíssima banda mineira 14-Bis? Aqueles teclados fantásticos, linhas de baixo perfeitas, solos de guitarra de técnica apurada e uma voz bela e empostada como a de Flávio Venturini... Mas não estou aqui para falar sobre a música, e sim sobre a letra que, afinal de contas, é de uma riqueza cultural estrondosa.

A primeira palavra dita pela dupla Flávio Venturini e Márcio (um dos irmãos) Borges já causa inquietação: o que seria Zabelê? Só pessoas eruditas e de vanguarda sabem responder, por isso tive que recorrer ao Aurélio para decifrá-la. Olha só, já adquiri conhecimento tomando contato com a música - viram como "Disco é cultura" mesmo? Zabelê é uma "variação da palavra zambelê, que signifa jaó"... ah! Jaó quer dizer "designação comum a várias espécies de tinamídeos do gênero Crypturellus". Agora sim posso recomeçar a análise. Fica tudo tão claro! "Zabelê, Zumbi, besouro": as três palavras se encaixam perfeitamente tanto fonética como musicalmente, é incrível a capacidade desta dupla!!! Logo depois, eles fazem uma bela analogia com o trabalho das vespas (não seriam abelhas? Isso mão importa) que fabricam o mel, tudo isso ligado umbilicalmente com uma jóia marrom que combina exatamente com o contexto a que eles estavam se referindo.

Como é bom recordar, falar e abrir o coração no que diz respeito à juventude, época marcante na vida de todos nós, quando descobrimos o mundo, mundo esse não tão bonito como desejávamos na infância, mas que nem por isso poderia nos impedir de sonhar, de sermos utópicos. "Pobre de nós" que não temos inteligência suficiente para entender completamente as metáforas extraordinárias da dupla mineira. Cabe a nós, reles mortais, cantar a música sem compreender direito sua mensagem, que está acima da capacidade humana de entendimento. Sim, não é exagero: estamos diante de dois gênios incompreendidos de nossa música popular brasileira.

Quando os dois mestres falam da Via Láctea, na verdade eles estão propondo uma visão holística musical: a capacidade da música de romper barreiras, ultrapassar fronteiras e brilhar em outras constelações. "Fado, sina, lei, tesouro": aí está de novo a genialidade a serviço do Clube da Esquina, a incrível competência em unir palavras que, para leigos, não têm nada a ver umas com as outras, algo que, para pessoas que enxergam além de nossa estreita visão, não passa de uma simples operação matemática. Não há palavras para expressar o que esta música significa para a humanidade em geral: rezemos, para que esta letra seja tombada pelo Patrimônio Histórico, devido a sua importância dentro do contexto holístico - por um mundo onde a paz e o amor façam com que homens, mulheres, bichinhos, plantas, pedras e tudo mais vivam em profunda, intrínseca e eterna harmonia.

"Vamos comer Caetano" - Adriana Calcanhoto

 

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