Beagá, Quarta, 14 de fevereiro de 2001 d.C.

"Vamos comer Caetano"
Adriana Calcanhoto

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

"Vamos comer Caetano / Vamos desfrutá-lo / Vamos comer Caetano / Vamos começá-lo / Vamos comer Caetano / Vamos devorá-lo degluti-lo, mastigá-lo / Vamos lamber a língua / Nós queremos bacalhau / A gente quer sardinha / O homem do pau-brasil / O homem da Paulinha / pelado por bacantes / num espetáculo / Banquete-ê-mo-nos / Ordem e orgia na superbacanal / Carne e carnaval / Pelo óbvio / Pelo incesto / Vamos comer Caetano / Pela frente pelo verso / Vamos comê-lo cru / Vamos comer Caetano / Vamos começá-lo / Vamos comer Caetano / Vamos revelar-mo-nus."

Esta música de Adriana Calcanhoto é do tipo que nem precisa e merece comentários, ela fala por si só, mas como nós do ABACAXI ATÔMICO somos masoquistas e encrenquinhas, resolvemos encará-la de frente, de peito aberto. Primeiramente é bom dizer que, por pior que a gaúcha Adriana Calcanhoto seja, ela tem uma virtude: é muito engraçada querendo parecer cabeça e intelectual blasé - aliás, ela tem mais uma virtude: quer comer o Caetano Veloso (Ha! Ha! Ha! Ha!).

Por mais que gosto não se discuta, comer Caetano deve ser um exercício um tanto quanto complicado, nos dois sentidos: o cara é muito magro, não tem carne, dai a prática de antropofagia ser inviável, talvez desse para fazer uma sopinha de ossos... Agora no outro sentido, NAQUELE sentido, realmente não dá nem pra pensar, tô fora, se não dá para encarar a Maria Bethânia, o que dizer do seu brother? Mas Calcanhoto insiste em comê-lo, de todas as formas, fazer o quê?

Algumas frases da cantora são utópicas demais! Como "desfrutar" o Caetano? O cara sempre foi a maior fruta desde sempre, agora depois de velho vai mudar? Acho pouco provável. Depois vêm as frases nojentas: lamber a língua do Caê? Pelo o amor de Deus minha filha!! Qual é a sua? Que história é essa de mastigar, deglutir, chupar este baiano que, de apetitoso, não tem nada? Tô fora!! A parte pornográfica da música está guardada para o final, num superbacanal onde ninguém é de ninguém. Além do mais, a poetisa propõe comer Caetano, bacalhau e sardinha, tudo misturado, e depois vem com o pau-brasil e a Paulinha (a loura ou a morena?), e vira uma festa, aquele carnaval, aquela coisa de hippie, viva o amor livre!! Mas me deixe fora disso!!

Ah! Não podemos nos esquecer que Adriana Calcanhoto também é professora de português e nos ensina macetes que nem o professor Pascuale sabe, como a moderna-contemporânea divisão silábica pós-próclisiana. "Banquete-ê-mo-nos", preste atenção no "ê": se você não percebeu, ignorante, este é um recurso usado quando o escritor não tem o que fazer ou bebeu vodka em excesso, faz parte de um novo estilo literário, o "Caoslirismo", que, de tão hermético, é impossível de decifrar, coisas do novo milênio. Já a frase "vamos revelar-mo-nus" é de uma concepção teórica completamente distinta, é uma daquelas frases de duplo sentido (ah, você já sabia?!), mais uma bichogrilisse de Calcanhoto, que quer todo mundo pelado com o Caetano no meio, ê maravilha!!

Para terminar, a parte mais genial desta pérola maravilhosa: "comer Caetano, pela frente, pelo verso, vamos comê-lo cru". Vejam bem, eu não sou o responsável por isso, que fique bem claro! Aqui, a compositora chegou ao seu limite: na verdade, ela não quer comer mais o Caê, mas sim estuprá-lo e violentá-lo, prende a moça! E que papo é esse de começar o Caetano? O cara já está acabado e ela quer começar tudo de novo?!, não, mil vezes não! Quem diria que um rapaz que um dia saiu do interior da Bahia para o mundo fosse alvo de uma louca como essa... Pobre Caetano, pobre Adriana Calcanhoto, pobre música popular brasileira.

"Tele-fome" - Paulinho Pedra Azul e Rogério Flausino

 

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