Beagá, Quarta, 24 de janeiro de 2001 d.C.

"Tele-fome"
Paulinho Pedra Azul e Rogério Flausino

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

"Não alimento amor por telefone / Isso é ilusão / Não adianta falar de amor ao telefone / Isso é ilusão / Pra que tanto telefonema / Se o homem inventou o avião / Pra você chegar mais rápido / Ao meu coração / Não alimento amor por telefone / Isso é ilusão / Não adianta falar de amor ao telefone / Isso é ilusão / A fome de amar é real / Não se traduz em fios / Meu ouvido não ama / Apenas ouve os seus reclames / Vou desligar / Não me ligue mais / A obrigação da tua voz / É estar aqui / No ouvido do meu coração."

Em uma ocasião, comentamos aqui no "Pérolas da MPB" uma música de autoria de Paulinho Pedra Azul, "Jardim da Fantasia". Lembro-me que recebemos um e-mail de uma abacaxinauta revoltada, a Betzaida, dizendo que não deveríamos pegar no pé do cara, pois ele era um sujeito simples e todos nós já tínhamos cantado músicas suas em churrascos e encontros de jovens (como eu, particularmente, odeio tanto churrascos como encontros de jovens, saio fora dessa turma). Pois bem, Betzaida, aí está: "Tele-fome" foi escrita por Paulinho Pedra Azul especialmente para a banda Jota Quest e está no mais recente disco dos caras - parece que o moço do interior de Minas anda "evoluindo" e produzindo músicas para rádios FMs com letras super-significativas, que tocam fundo em nossos corações apaixonados.

Para começar, esta letra deve estar deixando as companhias telefônicas putas da vida, é uma propaganda anti-telefone. Quantos casais de namorados não trocam juras de amor ao telefone? Pedra Azul joga esta tradição no lixo, dizendo que "falar de amor ao telefone" é pura ilusão. Na realidade, essa música foi feita para pais de adolescentes, para que eles incentivem seus filhos a não ficarem horas e horas pendurados no aparelho todos os dias, conversando com seus (suas) namorados(as). Afinal, as tarifas estão caríssimas.

Incrível mesmo é a idéia do autor a respeito do avião. Quer dizer que, ao invés de telefonar para a pessoa amada, é mais prático pegar um avião? Que história é essa? Para chegar mais rápido ao coração do "meu amor" eu vou ali ao aeroporto, faço uma viagenzinha de avião e pronto, cheguei! Mas e se minha namorada morar na Indonésia? Como é que eu faço, é muito longe, Paulinho!... Olha, eu sinto muito mas, para mim, o telefone é o melhor negócio. A passagem de avião está muito cara e eu ainda corro o risco de sofrer um acidente. O Grambel é muito mais tranqüilo.

Depois do avião, vem a fome, a "fome de amar", que não pode ser traduzida em fios. Realmente, esse trecho da música extrapola nossa capacidade de abstração. Ah!!! Agora eu entendi!!! Eureka!!! É que, por telefone, não dá para sentir, tocar a pessoa amada. É muito melhor ao vivo, pessoalmente. É por isso que ele prefere o avião, como fui burro! Mas tenho que discordar novamente de nosso simpático amigo: essa história de ouvido não poder amar é puro preconceito. Dar a simples função de ouvir para esse órgão é desprezo. Explicando melhor: o ouvido ama a boa música, assim como também odeia o lixo (músicas do Jota Quest, por exemplo). Lembram-se daquele velho ditado, "meu ouvido não é penico"? Parece que Pedra Azul não prestou atenção nisso ao escrever esta aberração da natureza.

O final da canção é apoteótico. Como uma pessoa que já está com sua paciência no limite (eu também), o autor apela: "Vou desligar". Daí, enterra de vez um dos meios de comunicação mais úteis da história: "Não me ligue mais". Será que eles brigaram? "A obrigação da tua voz / É estar aqui / No ouvido do meu coração". Vejam bem: ao invés de usar "sua voz", Paulinho usa "tua voz", pronome pessoal do caso oblíquo na segunda pessoa do singular, fabuloso! Para quem não entendeu, este recurso foi usado para dar um tom mais poético a esta pérola. E o ouvido do coração? Está certo que há muito tempo não tenho aulas de biologia, mas não me lembro que o coração tivesse ouvido. Ah, de novo fui injusto com o Paulinho!!! É só uma figura de linguagem, uma metáfora. Como é difícil entender esses poetas e suas obras tão belas, cheias de códigos... Um dia eu chego lá.

"A cera" - O Surto

 

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