Beagá, Quarta, 24 de julho de 2002 d.C.

Soulfly
3

Por Indiegesto
E-mail: indiegesto@abacaxiatomico.com.br

Aqui estou, estreando na Lixeira. Sempre acreditei que ninguém faz música ruim de propósito, por isso procuro sempre focar as críticas em atitudes ridículas ou deixar bem claro, nos casos em que fuzilo a música de alguém, que são minhas opiniões pessoais, questão de gosto mesmo.

Esse disco aqui é uma prova de que atitudes ridículas e música ruim caminharam de mãos dadas. Max Cavalera fez um tremendo papelão no terceiro disco de sua banda, forçando a barra de maneira inimaginável.

É com uma tremenda tristeza que eu tenho que malhar o Max, já que sempre fui um fã de Sepultura, e mesmo quando ele saiu da banda procurei não tomar as dores de nenhum lado, apesar de sempre ter achado o Soulfly uma banda muito irregular com lampejos memoráveis. Então vamos começar a malhação.

Parece-me que Max Cavalera parou no tempo, mais precisamente entre 96 e 98, onde Roots era um disco que havia injetado sangue novo na música pesada, servindo de referência para milhares de bandas mundo afora. Por isso, Max deve acreditar piamente que ainda está no primeiro escalão da música pesada (o que não é verdade) e que o conjunto da obra do Soulfly deve servir de referência para milhares de seguidores ávidos pela mistura de brasilidade com metal. Pode ser que isso funcione lá fora (pela vendagem desse disco até agora acho que não), mas não justifica tanta repetição e auto-citação em um só disco.

Eu entendo que existem pessoas que se dão melhor escrevendo sobre determinado tema e, mesmo se repetindo, conseguem tirar leite de pedra do mesmo assunto. Como Zack De la Rocha (Rage Against The Machine) e a política, Kurt Cobain e Jonathan Davis (Korn) com suas vidas "miseráveis", e a lista segue. O que acontece com Max é que ele fala, fala, e acaba não dizendo nada. E como se não bastasse, acaba dizendo as mesmas coisas (nada) usando as mesmas frases de letras antigas, e isso já vem desde o primeiro disco do Soulfly. Autofagia? Falta de imaginação? Picaretagem?

"Downstroy", primeira música do disco, apresenta a mesma estrutura músical e a mesma métrica nas letras de "Eye For An Eye", primeira música do primeiro disco do Soulfly. O Max pode se processar por plágio e ainda ganhar; o final tem um riff de guitarra chupadasso do final da música "Davidian", do Machine Head, com uma bateria chupadassa do final da "Territory", do Sepultura, e lógico, termina com uma batucada. Vale destacar que a banda ganhou muito com a volta do baterista Roy Mayorga, que havia deixado o Soulfly após o primeiro disco. O cara é muito bom, mas as músicas...

A segunda música, "Seek 'n' Strike" segue a regra de dar nomes parecidos de clássicos do rock para músicas do Soulfly, como "Roots Bloody Roots" ("Sabbath Boody Sabbath" - Black Sabbath), "The Song Remains Insane", do primeiro disco ("The song remains the same" - Led Zepellin); seria essa uma homenagem à "Seek and destroy" (Metallica)? Riff parecido com "Mulambo", do segundo disco, citação de Zapata ("I´d rather die on my feet than keep living on my knees"), enxertos de letras de "Attitude" (Sepultura) e "Jumpdafuckup". O final dá uma empolgada, quase salva a música.

"Enterfaith" não fede nem cheira. Pesadona, fala sobre fé com mais um auto-plágio, desta vez de "Slave New World", do Sepultura (um riff parecido e métrica da letra idêntico), mas tem um final legal, com Max gritando "Faith is a Weapon" ("Fé é uma arma") e vários efeitos.

"One" é a única música que conta com participação especial de um vocalista de outra banda, outra "tradição" do Soulfly. O convidado é Christian Machado, da banda Ill Nino (ironicamente chamada de "o novo Soulfly" pela mídia especializada). A música soa como um Linkin Park anabolizado graças aos vocais de Christian. O destaque fica com o guitarrista Mikey Doling, com belos climas de guitarra que lembram muito o que ele fazia em sua banda anterior, Snot. Como vocês já devem ter percebido, a originalidade não apareceu até agora.

Chegamos a uma parte curiosa do disco: se musicalmente é um bom momento (a música "L.O.T.M." é uma paulada), a letra estraga tudo por ser contraditória e equivocada. Vamo lá: "Sem seguir nenhuma moda" (conta outra, Max) / "Nós sabemos que vocês são muito falsos" (tá bom...) / "A música continua insana" ("The Song remains insane" - citando-se novamente...) / "Vendido eu digo foda-se / é melhor você demonstrar respeito / pois não somos como os outros". Resumindo, Max parece querer se auto-afirmar, repetindo ou sugerindo que ele é o responsável por muita coisa que está aí, quer ser respeitado, coisa e tal. Mas com o que vem em seguida vai ser difícil...

"Brasil" é mais uma tentativa de fazer a nova "Ratamahatta" (que inclusive tem pedaço de sua letra contida aqui), cantada em português "Carlinhos Browniano": "Vâmu detoná essa porra / Vâmu levantá poeira / Vâmu arrasá, Vâmu arregaçá, Vâmu detoná essa porra / Vâmu rasgá o chão / levanta mano, então / Vâmu detoná essa porra, Vâmu detoná essa porra / As casas, a cidade / as calçadas, a molecada / as esquinas, os buracos / balas perdidas, os telhados / o minhocão, a multidão / favela, galera / a madrugada, a gingada / é o Brasil, País porrada". "Os botecos, o concreto / as raízes (roots, sacou, sacou?), as cicatrizes / o cristo redentor, sol nascente, Salvador / Nas gerais as catedrais, pelourinho, aleijadinho / Nas baixadas, as peladas / é o Brasil País Porrada". "As torcidas, as torturas / de onde vem a forte chuva / é meia-noite, quebrando tudo (Meia-noite é o percussionista que toca neste disco), o berimbau conquista o mundo / da lama ao caos (sacou?), do mangue / manaus, UAI, Minas Gerais / o Brasil é muito mais". Sem comentários.

Lá vem mais uma homenagem à Dana, filho da mulher do Max, assassinado em 96 e que vem sendo homenageado em todos os discos do Soulfly. "Tree of Pain" começa como uma balada cantada pela Asha Rabouin (que também cantou no segundo disco da banda) e vira um hardcore em que Max fala sobre como ele sente sua falta, chora, dor da perda, etc. Quem também participa nessa música é o irmão de Dana, que fala basicamente o mesmo que Max e canta mal pra cacete, o moleque é muito ruim. Eu sei que não é da minha conta, o Max tem todo o direito de homenagear o cara da maneira que lhe convir e quantas vezes quiser. É que ele diz ser espírita e meus parcos conhecimentos de espiritismo dizem que enquanto o sofrimento pela morte de um ente querido durar e quanto mais você chorar por ele, menos o espírito do sujeito vai descansar. Pelo conteúdo das músicas para o Dana, parece que o espírito do rapaz não está descansando. Minha dica para o Max: deixe ele em paz.

Até que enfim um bom momento do disco. Mas espere aí, é uma cover de "One Nation", do Sacred Reich, seguida por uma homenagem aos mortos dos atentados de 11 de Setembro: é um minuto de silêncio e, cá entre nós, foi a melhor homenagem que já fizeram para o ocorrido.

"Call to Arms" é a melhor música que Max Cavalera escreveu desde que saiu do Sepultura. Ponto.

"Four Elements" é praticamente emendada com a canção anterior, e novamente Max sai falando sobre como ele é fodão, que quer encarar o pessoal que fala mal dele e fica fingindo ser famoso, diz que não se deve morder a mão que alimenta, etc e tal. Parece estar cutucando os ex-companheiros. Mas a música é bem legal.

"Soulfly III" é outra faixa instrumental e, como as instrumentais nos outros dois discos, é uma merda. "Sangue de Bairro" é uma cover do Chico Science bem inferior à original - por incrível que pareça, não conseguiu ficar mais pesada. O disco fecha com "Zumbi", um maracatu bem tosco.

O álbum foi produzido pelo Max Cavalera, o que explica muita coisa, já que (os bons) produtores têm que ter a sensibilidade de limar o que consideram inoportuno ou ruim das músicas sem estragar o resultado final. Como aparentemente ninguém na banda deve ter o dom de falar para o Max que determinada música é uma merda, o cara deitou e rolou no disco.

Queria muito colocar esse disco no Corra Atrás mas não deu. Quando o Max tomar um chá de semancol, quem sabe.

 

© Todos os direitos reservados
Melhor visualizado em 800x600
Recomendamos Internet Explorer 4.0 ou superior