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Arnaldo
Antunes
Paradeiro
Por
El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br
O
novo petardo sonoro de Arnaldo Antunes é mais uma prova da genialidade
pseudo-asbstrata de um dos ícones da nossa MPB. Em seu mais recente álbum,
o ex-titã deixa claro que sua intenção é realmente fazer "arte". Devido
à complexidade deste seu trabalho, este texto foi dividido em quatro partes
- mas desde já podemos chegar a uma conclusão clara: Paradeiro
se tornará, com certeza, um marco da nossa riquíssima música tupiniquim!
1. O poeta:
Desde a época dos finados Titãs, Arnaldo Antunes já se mostrava um jovem
ex-estudante de Letras à frente do seu tempo. Suas rimas originais, seus
textos concretos, o hermetismo com que tratava temas cotidianos, enfim
toda sua incrível capacidade única de se expressar nos enchia (e ainda
enche) de orgulho de sermos brasileiros.
Em Paradeiro
ele chega ao ápice do auge. Nunca Arnaldo foi tão brilhantemente feliz
ao compor tão belas obras da poesia neoconcreta brazuca. Conseguir destacar
as faixas com as mais belas mal traçadas linhas é uma tarefa árdua neste
disco: observe o que ele manda logo na faixa de abertura "Atenção": "Atenção
/ Essa vida contém / anos explícitos de tédio / Nos intervalos da emoção".
É realmente impressionante como em poucas palavras nosso gênio consegue
sintetizar o que todos nós sentimos nessa vida que este mundo contemporâneo
nos impõe. Quem nunca parou para pensar que o cotidiano nosso não é um
verdadeiro tédio intercalado por raros momentos de "vida real"? Como na
"Casa dos Artistas", todos nós pudemos comprovar: a vida realmente não
é nada demais, sejamos nós artistas, garis ou trapezistas de circo!
Em "Essa Mulher" Arnaldo
arrebenta de novo: "Ela goza com o sabonete / não precisa de você / ela
goza com a mão / não precisa de seu pau". São poucos artistas que conseguem
utilizar expressões tão chulas de forma tão bonita e sensível. A letra
dessa música mostra o quanto nós, homens do sexo masculino, estamos perdendo
nossa relevância: até um sabonete Lux Luxo é mais importante do que nós!
Triste, mas é a realidade. E são infinitos os exemplos da genialidade
de Arnaldo, como em "O mosquito": "o mosquito me beijou / o verme me comeu
/ a terra me sugou / a larva cresceu" - o que é essa letra senão a metáfora
do fim de todos nós, reles mortais, são frases como essa que mostram como
somos pequenos diante de todo o cosmos!
2. O músico:
Todos sabemos
que Arnaldo Antunes nunca teve coragem de aparecer com um violão debaixo
do braço. Mas isso não quer dizer que ele não saiba tocar nada: um homem
com uma mente como a dele é um instrumento em forma humana! O som limpo
e pop que aparece às vezes no disco é só um disfarce para toda originalidade
do mestre: enquanto alguns acham que ele se vendeu para as grandes corporações,
poucos têm a sensibilidade de perceber que tudo isso não passa de um golpe
da intelectualidade no senso comum. O Arnaldo romântico aparece em "Tudo
pode acontecer", já em "Cidade" está ali o Arnaldo carnavalesco e com
influências do candomblé, "Lembrança vó" mostra o ex-titã antenado com
as novidades eletrônicas sonoras: é fantástico, com direito a Glória Maria,
Pedro Bial e tudo que se tem direito.
3. As parcerias:
Existem músicos
que convidam tantos amigos para fazer um disco que o resultado final acaba
se tornando uma colcha de retalhos sem face. Com Arnaldo é diferente,
basta a presença do timbaleiro Carlinhos Brown e da musa da MPB Marisa
Monte para encorpar seu mais recente álbum. Em Paradeiro Marisa
Monte dá um show de afinação e quando Arnaldo se junta a ela as duas vozes
soam como uma só, uma combinação perfeita como Elis e Tom Jobim em "Águas
de Março". Os dois juntos apontam para o futuro da nossa MPB - e por falar
em futuro ninguém melhor que Mr. Brown para completar o time de estrelas
de Paradeiro. O bom baiano toca de tudo, desde latas de leite em
"Escuríssimo" até uma guitarra tricô em "Atenção", e se você acha pouco
ele ainda manda ver cantando, tocando baixo, clavinete e é, de quebra,
o responsável por todos barulhinhos que percorrem o disco. Sensacional!
4. A conclusão:
Depois de uma
análise tão difícil e intrincada de uma obra tão espirituosa e cheia de
nuances, chega-se a seguinte dedução: os gênios sempre serão incompreendidos
e nunca venderão 1 milhão de cópias. Mas como os cabeças da nossas intelectualidade
estão pouco se lixando se são populares ou não, isso nada importa. Na
verdade, Paradeiro também é uma obra de ínfima importância num
país que vive momentos de calamidade social: quem se importa se Arnaldo
Antunes regravou "Exagerado" do burguês revoltado Cazuza? Qual a importância
disso em um país em que morrem a cada dia zilhões pessoas que simplesmente
estavam indo trabalhar? Arnaldo Antunes e toda a MPB continuam fechados
no seu mundinho, na sua bolha, e pouco se importam para o resto - assim
como o ambiente universitário, o ambiente da nossa inteligentsia musical
continua aristocrático, com muita pretensão e pouca ação.
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