Beagá, Quarta, 30 de janeiro de 2002 d.C.

Arnaldo Antunes
Paradeiro

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

O novo petardo sonoro de Arnaldo Antunes é mais uma prova da genialidade pseudo-asbstrata de um dos ícones da nossa MPB. Em seu mais recente álbum, o ex-titã deixa claro que sua intenção é realmente fazer "arte". Devido à complexidade deste seu trabalho, este texto foi dividido em quatro partes - mas desde já podemos chegar a uma conclusão clara: Paradeiro se tornará, com certeza, um marco da nossa riquíssima música tupiniquim!

1. O poeta:
Desde a época dos finados Titãs, Arnaldo Antunes já se mostrava um jovem ex-estudante de Letras à frente do seu tempo. Suas rimas originais, seus textos concretos, o hermetismo com que tratava temas cotidianos, enfim toda sua incrível capacidade única de se expressar nos enchia (e ainda enche) de orgulho de sermos brasileiros.

Em Paradeiro ele chega ao ápice do auge. Nunca Arnaldo foi tão brilhantemente feliz ao compor tão belas obras da poesia neoconcreta brazuca. Conseguir destacar as faixas com as mais belas mal traçadas linhas é uma tarefa árdua neste disco: observe o que ele manda logo na faixa de abertura "Atenção": "Atenção / Essa vida contém / anos explícitos de tédio / Nos intervalos da emoção". É realmente impressionante como em poucas palavras nosso gênio consegue sintetizar o que todos nós sentimos nessa vida que este mundo contemporâneo nos impõe. Quem nunca parou para pensar que o cotidiano nosso não é um verdadeiro tédio intercalado por raros momentos de "vida real"? Como na "Casa dos Artistas", todos nós pudemos comprovar: a vida realmente não é nada demais, sejamos nós artistas, garis ou trapezistas de circo!

Em "Essa Mulher" Arnaldo arrebenta de novo: "Ela goza com o sabonete / não precisa de você / ela goza com a mão / não precisa de seu pau". São poucos artistas que conseguem utilizar expressões tão chulas de forma tão bonita e sensível. A letra dessa música mostra o quanto nós, homens do sexo masculino, estamos perdendo nossa relevância: até um sabonete Lux Luxo é mais importante do que nós! Triste, mas é a realidade. E são infinitos os exemplos da genialidade de Arnaldo, como em "O mosquito": "o mosquito me beijou / o verme me comeu / a terra me sugou / a larva cresceu" - o que é essa letra senão a metáfora do fim de todos nós, reles mortais, são frases como essa que mostram como somos pequenos diante de todo o cosmos!

2. O músico:
Todos sabemos que Arnaldo Antunes nunca teve coragem de aparecer com um violão debaixo do braço. Mas isso não quer dizer que ele não saiba tocar nada: um homem com uma mente como a dele é um instrumento em forma humana! O som limpo e pop que aparece às vezes no disco é só um disfarce para toda originalidade do mestre: enquanto alguns acham que ele se vendeu para as grandes corporações, poucos têm a sensibilidade de perceber que tudo isso não passa de um golpe da intelectualidade no senso comum. O Arnaldo romântico aparece em "Tudo pode acontecer", já em "Cidade" está ali o Arnaldo carnavalesco e com influências do candomblé, "Lembrança vó" mostra o ex-titã antenado com as novidades eletrônicas sonoras: é fantástico, com direito a Glória Maria, Pedro Bial e tudo que se tem direito.

3. As parcerias:
Existem músicos que convidam tantos amigos para fazer um disco que o resultado final acaba se tornando uma colcha de retalhos sem face. Com Arnaldo é diferente, basta a presença do timbaleiro Carlinhos Brown e da musa da MPB Marisa Monte para encorpar seu mais recente álbum. Em Paradeiro Marisa Monte dá um show de afinação e quando Arnaldo se junta a ela as duas vozes soam como uma só, uma combinação perfeita como Elis e Tom Jobim em "Águas de Março". Os dois juntos apontam para o futuro da nossa MPB - e por falar em futuro ninguém melhor que Mr. Brown para completar o time de estrelas de Paradeiro. O bom baiano toca de tudo, desde latas de leite em "Escuríssimo" até uma guitarra tricô em "Atenção", e se você acha pouco ele ainda manda ver cantando, tocando baixo, clavinete e é, de quebra, o responsável por todos barulhinhos que percorrem o disco. Sensacional!

4. A conclusão:
Depois de uma análise tão difícil e intrincada de uma obra tão espirituosa e cheia de nuances, chega-se a seguinte dedução: os gênios sempre serão incompreendidos e nunca venderão 1 milhão de cópias. Mas como os cabeças da nossas intelectualidade estão pouco se lixando se são populares ou não, isso nada importa. Na verdade, Paradeiro também é uma obra de ínfima importância num país que vive momentos de calamidade social: quem se importa se Arnaldo Antunes regravou "Exagerado" do burguês revoltado Cazuza? Qual a importância disso em um país em que morrem a cada dia zilhões pessoas que simplesmente estavam indo trabalhar? Arnaldo Antunes e toda a MPB continuam fechados no seu mundinho, na sua bolha, e pouco se importam para o resto - assim como o ambiente universitário, o ambiente da nossa inteligentsia musical continua aristocrático, com muita pretensão e pouca ação.

 

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