Beagá, Quarta, 19 de dezembro de 2001 d.C.

Moska
Eu falso da minha vida o que eu quiser

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

Nossa, como o Paulin... ops, desculpa, o Moska está bravo: "eu falso da minha vida o que eu quiser e ninguém tem nada como isso!!!", uau!! Mas peraí, agora eu entendi: "eu falso", eu, falso, então na verdade o Moska não é verdadeiro, é uma irrealidade virtual, ele é uma falsificação da sua própria personalidade intrinsecamente ligada à metáfora do eu enquanto condição humana de ser o que é e pronto!!! Em princípio, é complicado entender um disco tão hermeticamente fechado e cheio de novos conceitos, mas ouvindo uma, duas, três vezes a "obra-prima", você consegue estourar os limites da paciência e acabar não entendo mais nada de vez.

O álbum abre com "Corpo histérico", uma chatice da MPB "muderna" que mostra que não adianta o artista mudar de nome, não é isso que vai fazer dele melhor ou pior. Na verdade é uma jogada de marketing - não sei pra quê, não vai vender mesmo! Sem demonstrar preocupação se alguém vai querer entender o que ele está falando, Moska dá uma de Arnaldo Antunes em "Um e outro" e mostra sua veia pseudo-concretista: "Um fala o outro escuta / Um cala o outro muta / Um grita o outro olha / Um habita o outro desfolha". Gênio? Não, chato mesmo!

No seu mais recente trabalho, Moska mostra que musicalmente está com preguiça. Pelo menos é o que parece (se é que eu não entendi), pois é uma lenga-lenga danada, você sai de uma música para outra e é aquele tédio, aquela música de fossa, de ressaca de Roskoff com leite condensado. Para resumir: seu disco é sonolento, com muita conversa e pouca música, arte para poucos e extrema e exagerada intelectualidade que nunca deveria ter saído do mundinho universitário que tanto defende o músico fluminense. Em "Meu pensamento não quer pensar" Moska mostra claramente o que tem em mente: "Meu pensamento não quer pensar / ele está com preguiça de se levantar / depois de um sono tão profundo / é duro acordar e ver o mundo". É difícil compreender a mente de um ser tão incrivelmente fora de si.

A artilharia de Moska não é nada leve, e ele continua mandando bala em "Pra sempre nunca mais": "Sabe o que o relógio espatifado sobre a mesa me diz?" (não sei Moska, diga aí geniozinho) "Que o tempo foi embora procurar um jeito de ser feliz". Lindo, maravilhoso, quanta sensibilidade brota dos poros de um inseto, ou melhor, de um músico como o Moska. A capacidade de trabalhar com as palavras de um modo tranqüilo e ao mesmo tempo complicado é algo de ... ah, o cara me deixou sem palavras. Em "Vênus" ele se define e se autoproclama um verdadeiro poeta: "Perceber que o que me configura é sempre essa beleza, que jorra do seu jeito de olhar, seu jeito de dar amor, me dar amor", que maravilha!!!

São discos como estes que demonstram o estado atual de nossa música. Na verdade, o termo "nossa música" nem cabe mais, vou dizer a partir de agora da música deles. Não faço parte disso, não vou compactuar com tanta falta de senso do ridículo. Tudo bem, o sujeito ter auto-estima é importante, mas se achar mais do que é, é algo inaceitável. Enquanto houver meia dúzia de gênios como este, está razoável; o problema é que o filão é convidativo, e percebe-se que assim como um vírus se espalha, estes artistas também estão se multiplicando pelas gravadoras, FMs e MTVs da vida. Se você resolver comprar este disco, pelo menos peça desculpas a seu cd player antes de colocá-lo para tocar.

 

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