Beagá, Quarta, 05 de dezembro de 2001 d.C.

Otto
Condom Black

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

Antes de falar sobre o novo álbum do "grandioso" Otto, vamos relembrar um pouco da história deste músico que hoje se sente à frente do seu tempo. Otto era simplesmente um percusionista discreto, cabeludo e maluco de uma banda que apenas começava seu caminho na lama recifense, o Mundo Livre S.A.. De repente, o rapaz achou que a banda ofuscava seu brilho, daí resolveu sair fora e partir para um projeto solo. Aproveitou com esperteza o crescimento da música eletrônica e resolveu fazer música cabeça, inteligente, só para cultos que valorizam a mistura da música tradicional nordestina com o que há de mais novo na área. Agora, Otto se transformou num dos grandes nomes da MPB, sem discussões recebe elogios e mais elogios, mas baseado em quê? No baseado? Talvez...

Condom Black é simplesmente uma hora de devaneios sonoros de um sujeito que tem por trás de si (no bom sentido, é claro) uma megaprodução, que vai do encarte do disco até a parafernália musical que tem a sua disposição - santo desperdício! Se como músico Otto é mais normal do que uma banda que toca em bailes de debutantes, com o agravante de uma voz totalmente chata, desafinada e amadora, na parte lírica ele viaja mais do que qualquer hippie dos anos 60. Na primeira faixa do disco, ele esbraveja: "Dilata, mulata, teus olhos dilata / só não me delete do seu coração, da lata mulata", bela poesia com termos "mudernos", mostrando que, assim como seus outros amigos de Pernambuco, Otto também está antenado com o mundo global. Em "Armadura", a sua capacidade poética se assemelha a de um javali: "Armadura buracos de fechadura / não tape mais, mulher a tua alma dura". O pior de tudo é que tem gente que acha isso o máximo.

O que dizer de uma parceria entre Otto e Chorão Charlie Brown? É só conferir a homenagem que a dupla dinâmica faz a Iemanjá e Xangô (acendo meu charuto neste instante) em "Cuba", fantástico, irretocável: "Se Cuba não vai ao Papa / é o Papa que vai a Cuba", não era aquela estória de Maomé com a montanha? Otto tenta ser um pouco mais roqueiro em "Pelo Engarrafamento", mas troca os pés pelas mãos novamente e acaba se tornando um clone mal arrumado do Jota Quest - pelo menos ele canta "melhor" que Rogério Flausino (foi mal, Rogerinho).

O disco traz também seus momentos hilários e divertidos: não há como não se deliciar com Otto cantando em inglês em "Street Cannabis Street", uma homenagem a erva mais falada do momento com direito a sotaque de quem passou um mês com a tia Eliane em Londres (sim, agora ela vai para a Europa e leva o Otto junto). A faixa título é um convite para todos irmos para um terreiro do século XXI, um terreiro "muderno" que mistura rave com pai de santo, mas o refrão...: "no Condom Black é assim / é pau, é cú é buceta", era como se o cara dissesse: "eu sou mau, eu sou doido demais e falo o que quero!!!". Para fechar o disco de forma chique, uma outra parceria inusitada: desta vez, com o rei da nova cabecisse Max de Castro. Em "Basquiat" eles extrapolam do direito de fazer música chata - aquela coisa limpinha, cheia de produção e limada até onde não querer mais.

Condom Black é um disco conceitual, trabalha com a idéia de que o Otto pintado de carvão fica ainda mais tosco e ridículo do que com seu visual natural. É uma mistura de samba, de música regional com a vanguarda musical internacional; as músicas falam de amor e coisas descartáveis. É MPB nova, melhor, é a nova cara da elite cultural tupiniquim: chata, pretensiosa, mas que no fundo não deixa de ser uma boa piada.

 

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