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| Beagá,
Quarta, 21 de novembro de 2001 d.C. |
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Rita Lee Por
Cajabis Cannabis
Aqui, Ali, Em Qualquer Lugar são 14 versões de músicas dos quatro fantásticos de Liverpool - os Beatles, bem entendido. Quatro versões estão traduzidas para o português (são as piores), as outras estão em inglês mesmo - prevendo um desastre maior, a editora musical da Sony vetou as outras seis traduções de letras que Rita Lee fez. Graças a Deus - vejam o que foi feito com "Can't Buy Me Love": "Vender a alma por dindin / pra comprar sua Ferrari / sonho de consumo é tão chinfrim / um belo dia, você vai se Ferrari". Entendeu? "Se Ferrari". Rá, rá, rá, rá... "Se Ferrari", ao invés de "se ferrar", pra rimar... genial. Não entendeu? Vou explicar de novo: "Se Ferrari" é uma alusão à marca do carro, substitui "se ferrar". Essa é a rainha do rock nacional. Essa é a irreverência da grande artista. A rebeldia e o talento. Se essa versão foi aprovada pela Sony, imagino o que ficou de fora. Quer dizer: não consigo imaginar o que ficou de fora. As faixas do disco seguem praticamente o mesmo esquema: violão, pianinho, banquinho, haja saquinho. Tudo muito enfadonho, versões em ritmo de bossa-nova ou boleros chatinhos. O problema é que os arranjos são terríveis, transformam as músicas em canções para se ouvir na sala de espera do dentista. Nem como intérprete, Rita Lee se salva: sua voz está sempre no mesmo timbre, raramente muda, ousa. A medida em que se ouve o disco, fica a impressão de se estar ouvindo sempre a mesma coisa: a sistemática destruição de obras-primas como "Michelle", "With A Little Help From My Friends", "Lucy In The Sky With Diamonds". É deprimente para qualquer beatlemaníaco, para qualquer um que tenha a mínima simpatia para com John, Paul, George e Ringo. Em "Aqui, Ali, Em Qualquer Lugar (Here There And Everywhere)", a confusão chega ao auge: Rita Lee mistura a sua versão em português com a letra original em inglês. Olha como fica: "I love you pra chuchu / se você não está por perto, eu fico jururu / tudo azul, / mas sem você eu fico blue". Esse verso infame se mistura à maravilhosa letra original - enquanto isso, John Lennon se revira no túmulo. "Won't you please, please, help me", berra do além. Horroroso, pavoroso, medonho, uma mediocridade sem tamanho. Salva-se do naufrágio a versão de "I Want To Hold Your Hand", transformada em um baião descompromissado: a sanfona e o bumbo combinam bem com a música, foi uma aposta certa - ainda que o vocal de Rita não dê conta do recado. Mas o restante do disco é um desastre total: a bossa-nova já morreu há tanto tempo, ressuscitá-la justamente com os Beatles? Claro, os saudosistas de plantão vão achar... genial, o disco vem recebendo uma calorosa recepção por parte da crítica. Um bando de puxa-sacos de uma artista que não apresenta nada de novo há milênios: Aqui, Ali, Em Qualquer Lugar é uma brincadeira de mau gosto, um disco para não se ouvir nem aqui, nem ali nem em lugar nenhum. |
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