Beagá, Quarta, 07 de novembro de 2001 d.C.

Frejat
Amor pra recomeçar

Por Cajabis Cannabis
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

Sabe aquele seu amigo mala, tipo o Sukrilius, que é fã do Barão Vermelho? Pois é. A banda mais decadente do rock nacional parece que acabou (meus ouvidos agradecem, comovidos) mas o seu líder continua por aí, assombrando a todos nós. Ele está lançando o seu primeiro trabalho solo, Amor Pra Recomeçar. Será que ele se mancou que sua banda era horrível e daí resolveu começar tudo de novo, a partir do zero? Hum... acho que não. Um teste seria dar este disco de presente para esse seu amigo: no fim das contas, provavelmente ele iria dizer "ah, esse disco é bom, mas falta aquela guitarra do Barão"...

Pois é justamente isso que falta para que o disco seja uma abominação total: aqueles riffs de guitarra insuportáveis e farofentos de hits como "Bete Balanço" e "Maior Abandonado". Ao invés disso, Frejat opta pelas baladinhas farofentas ("Mais que Perfeito"), às vezes com um arranjo de cordas insosso ("Voltar pra te Buscar") ou com "aquele" suingue (tentando evocar Tim Maia em "Sol de Domingo"?), embora sobre espaço para os solos de guitarra chatos e batidos (como em "Homem Não Chora"). Ou seja: elementos que estão presentes na vasta obra de sua finada banda (que Deus a tenha em um bom lugar). Pra não dizer que estou sendo murrinha, a faixa "Mão-de-obra Ilegal", produzida por Max de Castro (é, ele mesmo), destoa do resto do álbum: é diferente, com uma ginga até agradável, mas descartável como jingle de comercial do governo do estado da Bahia.

O disco começa com a enjoada "Som e Fúria", parece pós-moderna mas é apenas patética. Tudo pra disfaçar um arranjo fraco e uma melodia pífia. E um vocal... que é o vocal do Frejat, não tem jeito. Tem um violãozinho pra tocar no fim do churrasco (quando todo mundo estiver chapado) em "Quando o Amor Era Medo". E as letras de Frejat? Versos "intimistas", canções "românticas" e "conselhos de amigo" com rimas terríveis, de forçar a barra, mas com um viés, hum... poético. Neste contexto, a canção "Ela" chama a atenção, narrando de forma maneirista... peraí, isso é invenção minha, viu gente? Nem eu sei o que essa palavra quer dizer, mas podem ter certeza: faz sentido, é bacana! Bom, como eu ia dizendo, a canção "Ela" narra, de forma maneirista, a chegada da mulher amada a sua casa - ou melhor, à casa dela: "Ela / chegou na casa dela / com a roupa dela / bebeu a água dela / com a boca dela (o cacófato é proposital... acreditem) / banhou o corpo dela / na banheira dela / dormiu na cama dela / com o cheiro dela..." Cara, tem que ter um saco de filó pra conseguir ouvir essa música inteira. Ah, acabo de olhar aqui no encarte: a música foi composta por Frejat e mais... Arnaldo Antunes e Lenine. Tá explicado, é muita genialidade pro meu ínfimo Q.I..

Outro verso interessante está em "Eu não sei dizer Te Amo" (que baladinha ordinária...): "Se você fosse uma antena parabólica, eu seria o seu canal". Ih Frejat, não vai dar: primeiro, porque a minha antena é só transmissora, depois porque isso daí dá interferência. No refrão desta mesma música, Frejat gasta todo o seu inglês digno de um habitante de Governador Valadares e um espanhol bem cucaracha numa mistura indigesta. Logo no princípio de "Segredos", mais um verso profundo e inquietante: "Eu procuro um amor que ainda não encontrei" - bom, se procura é porque ainda não encontrou, né Frejat? No meu caso, eu ainda procuro encontrar em obras-primas como essas de nossos roqueiros alguma razão para suportar o que eles cantam, mas... tá difícil.

Uma coisa ninguém pode negar: é um disco honesto. Frejat canta sem frescuras, ele não tá querendo ser revolucionário, não é um disco com maiores pretensões. Parece um daqueles álbuns que o cara faz porque não tem mais o quê fazer mas tá a fim de cantar - deveria ter ido cantar no banheiro, fazer o quê: gravou um disco, há quem compre. E quanto a isso, parabéns para ele. Mas que este disco é ruim que dói, ah isso é.

 

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