Beagá, Quarta, 23 de maio de 2001 d.C.

Zélia Duncan
Sortimento

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

Algumas coisas que acontecem em nossa infância jamais são esquecidas. Até hoje me lembro que quando meu pai voltava do supermercado nos sábados à tarde sempre trazia um saco enorme cheio de biscoitos sortidos. Como desde pequeno já era um cara meio encrenquinha, achava horrível, não entendia por quê ele fazia aquilo: todos os biscoitos ficavam com o mesmo gosto, não fazia diferença se eram de chocolate, de sal ou doce, era tudo igual, com gosto de nada. É o caso do novo álbum de Zélia Duncan. Sortimento não é um disco ruim, picareta e mal produzido. Ele tem toda uma preocupação com a qualidade final, o que é louvável, mas no fim o resultado é meio insípido, o disco torna-se chato e repetitivo.

"A cantora da voz potente" já está completando quase 20 anos de carreira, e assim como Cássia Eller e Ana Carolina (esta mais jovem) se destacou por ser uma figura que faz um trabalho que é bem aceito por todo mundo: dos cabeças ao porteiro do seu prédio todos escutam este tipo de som, afinal ele não faz mal a ninguém, mas também não chega a fazer bem. Em seu quinto álbum, Zélia Duncan comete um grave pecado: canta várias músicas de outras pessoas, e que músicas! O repertório foi escolhido a dedo, com pérolas de todos os lados; é tudo muito sem sal e às vezes pretensioso demais, parece que temos outro gênio no pedaço.

Tudo começa com "Por que não pensei nisso antes?", de Itamar Assumpção, considerado o guru dos universitários antenados na MPB maldita. Todo mundo gosta dele, só que ninguém tem coragem de comprar um disco do maluco. A música chega a deixar o ouvinte entediado, é MPB da "nova" geração - ou seja, aquela velha historinha que nós já conhecemos. A música "Alma" foi escolhida entre oito que Arnaldo Antunes mandou para Zélia, e escutando-a dá para imaginar como eram as outras sete. A faixa é uma parceria do ex-titã com Pepeu Gomes, tem uma batida eletrônica de consultório de psicologia. Em suma: é triste.

As escorregadas não param por aí. Em "Chicken de Frango" me aparece uma letra que não dá para não citar: "Milk Shake de tapioca, liquidificador de água é pororoca". Alguém tem que avisar para estas pessoas que só o Tom Zé tem direito de fazer músicas como estas, ele ganhou na justiça por ser o mais antigo músico maluco brasileiro, não vem que não tem. E por aí vai, o sortimento sonoro continua com baladinhas como "Eu Me Acerto" e "Beleza Fácil" ("o mundo gosta de beleza fácil", nossa que originalidade!!!). Tem algumas tentativas de fazer funk, não aquele medonho da ralé do Rio de Janeiro: é um funk chique, para pessoas de bom gosto, isto fica claro em faixas como "Sortimento", de Nando Reis (sem comentários), e "Todos Os Dias", do boa praça John, o cara certo na banda errada.

Sortimento tenta ser um disco bem variado. Além de tudo que eu já falei, tem o simpático samba "Na Hora da Sede", com participação do Trio Mocotó (um dos poucos momentos divertidos da minha audiência); tem música "muderna" como "Desconforto", parceria de Zélia com Rita Lee (a mãe de todas as roqueiras que esqueceram de enterrar); e, pra encerrar, o trabalho ainda traz duas faixas-bônus. É o fechamento mais infeliz que um álbum poderia ter: primeiro "Partir, Andar", música que saiu do disco solo de Herbert Viana O Som do Sim; finalmente, vem a depressão total com Dinho Ouro Preto e "Eu Vou Estar", tirada do Acústico do Capital Inicial. Zélia Duncan parece até ser uma pessoa legal, na dela, mas infelizmente caiu nas graças dos artistas errados, gente que faz sempre a mesma coisa, pensa que está inovando e o pior de tudo: estes figurões dominam um mercado muito restrito e acham que estão abafando, são os intocáveis da MPB.

 

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