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Beagá, 09 de junho de 2003 d.C.
 

Nenhum de Nós
Acústico Ao Vivo 2

Por Cajabis Cannabis
 

Ah, o rock gaúcho. Só há uma palavra para defini-lo: maravilhoso. O rock fabricado nos pampas já nos deu bandas maravilhosas, tais como Replicantes, De Falla, Ultramen, e mais um monte, que eu me esqueci porque estou ficando velho. Mas é maravilhoso demais. Eu não me canso de repetir: maravilhoso, maravilhoso. A efervescência do rock gaúcho só se compara à efervescência de um sonrisal, o roquenrou de lá tem uma importância indescritível para a humanidade. Prova disso são as recentes e vigorosas Video Hits (não tão vigorosa assim porque já acabou, que lástima, que tragédia) e o Bidê ou Balde, que muito honra a tradição dos pampas, em se tratando da qualidade do rock que é produzido na região.

E antes de mais nada, uma pergunta relevante: onde estão os documentaristas que, enquanto ficam fazendo filmes sobre coisas inúteis como o patrimônio histórico mineiro, a poesia de Carlos Drummond ou os bichinhos do Pantanal, deixam passar em branco movimento musical tão brilhante, tão rico, tão... Estou sem palavras. O rock gaúcho é como o movimento de Manchester, guardadas as devidas proporções, claro - afinal, Manchester só produziu bandinhas irrelevantes.

Mas por sua vez, o rock gaúcho produziu, pelo menos, duas das maiores bandas da história universal: os estupendos, extraordinários, fabulosos Engenheiros do Hawaii, capitaneados por Humberto Gessinger, o maior gênio do pop em todos os tempos (depois do Lulu Santos, claro); e uma outra banda que dispensa maiores comentários, porque... porque sim: o Nenhum de Nós.

Essa banda, cujo nome do excelente vocalista eu não me lembro porque sou um ignorante (e devo humildemente pedir perdão aos incontáveis fãs da banda, além de fazer uma expiação pública, diante de tamanho pecado), é fenomenal. Os caras simplesmente arrasam nesta iniciativa magnânima de produzirem um "Acústico 2", afinal de contas o primeiro não foi suficiente. Aliás, que criativo! Um outro acústico! A iniciativa não poderia ser mais do que bem-vinda, afinal de contas o primeiro acústico, lançado me esqueci quando e que vendeu horrores (você ainda não tem o seu?!), não saciou a todos os admiradores desse notável grupo. E detalhe: a banda corajosamente esnobou a MTV e lançou esses acústicos por conta própria. Que coragem! Que garra! Eles não precisam da MTV para conquistarem esse sucesso monstruoso!

Desde já, uma coisa precisa ser dita: qualquer comentário sobre as músicas dessa coletânea é inútil. Afinal de contas, todos nós conhecemos e sabemos de cor todas as canções, os hits, os sucessos dessa bela banda. E ninguém nem sente falta das sensacionais "Camila Camila" e "Starman" (ainda bem que esta última não está no álbum, senão o David Bowie se sentiria humilhado, complexado mesmo). Vamos fazer um apanhado (difícil, é verdade) dos melhores momentos (são tantos!) deste cd. As sensações são indescritíveis.

O álbum já começa com "Você vai lembrar de mim", música que hipnotiza, sensibiliza, emociona. O público vai ao delírio. Fala sobre um pé na bunda ridículo que o cara recebe, e ainda tenta manter a pose. Como diria o Indiegesto, crasse. "No fim, eu amei por nós dois", berra o vocalista - que eu esqueci o nome agora, mas isso não importa, o que importa é a sua obra, espetacular, e sua voz, magnânima. Sensacional.

Falando em crasse, pelo repertório do álbum dá pra sentir que o pessoal da banda sofre de uma dor de cotovelo digna de um Reginaldo Rossi. "Eu Não Entendo" é uma faixa sensível sobre um cara também sensível que é feito de palhaço pela namorada e ainda fica babando em cima dela. Coisas do coração. Lindo. E o tecladinho também sensível ainda faz um som lúdico, ao fundo, imitando uma gaita. Lírico. Para os fãs se identificarem - e se deliciarem.

"Vento solar / estrelas do mar..." Este verso anuncia o início da execução (execução mesmo) da nostálgica "Um Girassol da Cor De Seu Cabelo", do fantástico Lô Borges, do maravilhoso e sempre atual Clube da Esquina. Aliás, a escolha desta canção para fazer parte do repertório do disco mostra que a influência da astronomia na música do Nenhum de Nós ainda é muito forte - lembra a insofismável versão de "Starman", de David Bowie, "Astronauta de Mármore" (que nome maravilhoso!!!), uma das maiores... (escolha a palavra, meu vocabulário já se esgotou) da história da música mundial. A letra desta faixa merece uma especial atenção: "Se eu morrer não chore não / é só a lua / é seu vestido cor de mar / é filha nua / ainda moro nessa mesma rua..." Quem é Arnaldo Antunes depois disso! É a poesia do Clube da Esquina matando a pau!!!

Em certos momentos, os arranjos arrojados (olhaí, Humberto Gessinger me inspirou nessa!) lembram o inesquecível 14 Bis, como em por exemplo "Notícia Boa". "Deixa o Sol Entrar" é nitidamente influenciada pelo orientalismo, com cítara e tudo. George Harrison morreu sem ouvir isso, ainda bem! Ele provavelmente teria vergonha de "Norwegian Wood", depois dessa: são seis minutos antológicos que entrarão certamente nos anais (êpa) da história da música (ah, bom). O final da canção é apoteótico, podiam pegar esse trechinho e colocar como vinheta do Jornal Nacional. Pelo menos, no Jornal Nacional da Índia iria ficar bem legal.

O público cantando "Amanhã ou Depois" junto com o vocalista (meu Deus, qual o nome do cara?... Nunca vou me perdoar por esquecer o nome desse gênio) é o momento mais belo do disco. Como me lamentei por não ter ido a esse show. Não fiquei sabendo da gravação, porque sou uma pessoa pra lá de desinformada. Mas garanto que todo o planeta sabia e aguardava com a maior ansiedade do mundo o lançamento desse álbum, que desde já marcará pra sempre a minha vida e a vida de tantos que o escutarão. Que Reading Festival que nada, o show do século 21 foi a gravação do Acústico 2 do Nenhum de Nós - o show do século 20 já havia sido a gravação do Acústico 1, bem entendido.

Outra faixa tocante é "Julho de 83", música que sensibiliza a todos nós, que fala dos conflitos da adolescência de um indiano em Porto Alegre (deve ser por isso que aparece novamente a maravilhosa cítara, pra dar aquele clima - ao menos, entendi dessa forma). "Ninguém me compreendia e eu não compreendia ninguém (claro, o imbecil falava urdi, se bem que mesmo que falasse português não iria adiantar muito, afinal em Porto Alegre só se fala gauchês) / Acho que era julho de 83". Coitado do sujeito. Adolescente, esquizofrênico, traumatizado naquela época, hoje sofre de amnésia. Devia também ter um monte de espinha na cara. Adolescência vazia, mãos peludas... Dá pra refletir. Que maravilhoso. Que profundo.

Tem também a força do regionalismo do Rio Grande (barbaridade, tchê!) nas versões de "Vou Deixar Que Você Se Vá" ("quero ouvir vocês!", e o público batendo palmas, fantástico!, lembra os áureos tempos dos programas de auditório da Xuxa, que saudade) e "Fuga", com uma sanfoninha que lembra aquelas de parque de diversões, que cândido. Condiz com o talento exorbitante dos sujeitos - não sei o nome de ninguém da banda, nenhum de nós do ABACAXI ATÔMICO deve saber. Mandem e-mails, por favor, para suprir essa nossa lacuna imperdoável. Encerrando o disco: "Paz e Amor"... Ah, que lindo. Ai, uma história de amor da ex-namorada do sujeito, que lhe apresenta seu novo amor... Pôxa, daria um episódio fantástico para Malhação, aquela novela épica da gloriosa Rede Globo. Como é que não pensei nisso antes?...

É talento demais pra mim. Eu fico emocionado. Neste momento, as lágrimas enchem meus olhos, porque ouvir esse disco realmente dá vontade de chorar. Chega, não vou falar mais nada: Acústico 2 - A Revanche é sensacional, indispensável, um dos maiores discos da história. Minto: o maior, o melhor. Que Beatles que nada, Revolver coisa nenhuma: o Nenhum de Nós é a maior banda de todos os tempos, disparado. E se esse álbum vender menos que 5 milhões de cópias, eu chuto o balde - e o bidê junto.

 

 

 

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