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Ah,
o rock gaúcho. Só há uma palavra para defini-lo: maravilhoso. O
rock fabricado nos pampas já nos deu bandas maravilhosas, tais como
Replicantes, De Falla, Ultramen, e mais um monte, que eu me esqueci
porque estou ficando velho. Mas é maravilhoso demais. Eu não me
canso de repetir: maravilhoso, maravilhoso. A efervescência do rock
gaúcho só se compara à efervescência de um sonrisal, o roquenrou
de lá tem uma importância indescritível para a humanidade. Prova
disso são as recentes e vigorosas Video Hits (não tão vigorosa assim
porque já acabou, que lástima, que tragédia) e o Bidê ou Balde,
que muito honra a tradição dos pampas, em se tratando da qualidade
do rock que é produzido na região.
E antes
de mais nada, uma pergunta relevante: onde estão os documentaristas
que, enquanto ficam fazendo filmes sobre coisas inúteis como o patrimônio
histórico mineiro, a poesia de Carlos Drummond ou os bichinhos do
Pantanal, deixam passar em branco movimento musical tão brilhante,
tão rico, tão... Estou sem palavras. O rock gaúcho é como o movimento
de Manchester, guardadas as devidas proporções, claro - afinal,
Manchester só produziu bandinhas irrelevantes.
Mas
por sua vez, o rock gaúcho produziu, pelo menos, duas das maiores
bandas da história universal: os estupendos, extraordinários, fabulosos
Engenheiros do Hawaii, capitaneados por Humberto Gessinger, o maior
gênio do pop em todos os tempos (depois do Lulu Santos, claro);
e uma outra banda que dispensa maiores comentários, porque... porque
sim: o Nenhum de Nós.
Essa
banda, cujo nome do excelente vocalista eu não me lembro porque
sou um ignorante (e devo humildemente pedir perdão aos incontáveis
fãs da banda, além de fazer uma expiação pública, diante de tamanho
pecado), é fenomenal. Os caras simplesmente arrasam nesta iniciativa
magnânima de produzirem um "Acústico 2", afinal de contas
o primeiro não foi suficiente. Aliás, que criativo! Um outro acústico!
A iniciativa não poderia ser mais do que bem-vinda, afinal de contas
o primeiro acústico, lançado me esqueci quando e que vendeu horrores
(você ainda não tem o seu?!), não saciou a todos os admiradores
desse notável grupo. E detalhe: a banda corajosamente esnobou a
MTV e lançou esses acústicos por conta própria. Que coragem! Que
garra! Eles não precisam da MTV para conquistarem esse sucesso monstruoso!
Desde
já, uma coisa precisa ser dita: qualquer comentário sobre as músicas
dessa coletânea é inútil. Afinal de contas, todos nós conhecemos
e sabemos de cor todas as canções, os hits, os sucessos dessa bela
banda. E ninguém nem sente falta das sensacionais "Camila Camila"
e "Starman" (ainda bem que esta última não está no álbum, senão
o David Bowie se sentiria humilhado, complexado mesmo). Vamos fazer
um apanhado (difícil, é verdade) dos melhores momentos (são tantos!)
deste cd. As sensações são indescritíveis.
O álbum
já começa com "Você vai lembrar de mim", música que hipnotiza, sensibiliza,
emociona. O público vai ao delírio. Fala sobre um pé na bunda ridículo
que o cara recebe, e ainda tenta manter a pose. Como diria o Indiegesto,
crasse. "No fim, eu amei por nós dois", berra o vocalista - que
eu esqueci o nome agora, mas isso não importa, o que importa é a
sua obra, espetacular, e sua voz, magnânima. Sensacional.
Falando
em crasse, pelo repertório do álbum dá pra sentir que o pessoal
da banda sofre de uma dor de cotovelo digna de um Reginaldo Rossi.
"Eu Não Entendo" é uma faixa sensível sobre um cara também sensível
que é feito de palhaço pela namorada e ainda fica babando em cima
dela. Coisas do coração. Lindo. E o tecladinho também sensível ainda
faz um som lúdico, ao fundo, imitando uma gaita. Lírico. Para os
fãs se identificarem - e se deliciarem.
"Vento
solar / estrelas do mar..." Este verso anuncia o início da
execução (execução mesmo) da nostálgica
"Um Girassol da Cor De Seu Cabelo", do fantástico Lô
Borges, do maravilhoso e sempre atual Clube da Esquina. Aliás,
a escolha desta canção para fazer parte do repertório
do disco mostra que a influência da astronomia na música do Nenhum
de Nós ainda é muito forte - lembra a insofismável versão de "Starman",
de David Bowie, "Astronauta de Mármore" (que nome maravilhoso!!!),
uma das maiores... (escolha a palavra, meu vocabulário já se esgotou)
da história da música mundial. A letra desta faixa merece uma especial
atenção: "Se eu morrer não chore não / é só a lua / é seu vestido
cor de mar / é filha nua / ainda moro nessa mesma rua..." Quem é
Arnaldo Antunes depois disso! É a poesia do Clube da Esquina
matando a pau!!!
Em
certos momentos, os arranjos arrojados (olhaí, Humberto Gessinger
me inspirou nessa!) lembram o inesquecível 14 Bis, como em por exemplo
"Notícia Boa". "Deixa o Sol Entrar" é nitidamente influenciada pelo
orientalismo, com cítara e tudo. George Harrison morreu sem ouvir
isso, ainda bem! Ele provavelmente teria vergonha de "Norwegian
Wood", depois dessa: são seis minutos antológicos que entrarão certamente
nos anais (êpa) da história da música (ah, bom). O final da canção
é apoteótico, podiam pegar esse trechinho e colocar como vinheta
do Jornal Nacional. Pelo menos, no Jornal Nacional da Índia iria
ficar bem legal.
O público
cantando "Amanhã ou Depois" junto com o vocalista (meu Deus, qual
o nome do cara?... Nunca vou me perdoar por esquecer o nome desse
gênio) é o momento mais belo do disco. Como me lamentei por não
ter ido a esse show. Não fiquei sabendo da gravação, porque sou
uma pessoa pra lá de desinformada. Mas garanto que todo o planeta
sabia e aguardava com a maior ansiedade do mundo o lançamento desse
álbum, que desde já marcará pra sempre a minha vida e a vida de
tantos que o escutarão. Que Reading Festival que nada, o show do
século 21 foi a gravação do Acústico 2 do Nenhum de Nós -
o show do século 20 já havia sido a gravação do Acústico 1,
bem entendido.
Outra
faixa tocante é "Julho de 83", música que sensibiliza a todos nós,
que fala dos conflitos da adolescência de um indiano em Porto Alegre
(deve ser por isso que aparece novamente a maravilhosa cítara, pra
dar aquele clima - ao menos, entendi dessa forma). "Ninguém me compreendia
e eu não compreendia ninguém (claro, o imbecil falava urdi, se bem
que mesmo que falasse português não iria adiantar muito, afinal
em Porto Alegre só se fala gauchês) / Acho que era julho de 83".
Coitado do sujeito. Adolescente, esquizofrênico, traumatizado naquela
época, hoje sofre de amnésia. Devia também ter um monte de espinha
na cara. Adolescência vazia, mãos peludas... Dá pra refletir. Que
maravilhoso. Que profundo.
Tem
também a força do regionalismo do Rio Grande (barbaridade, tchê!)
nas versões de "Vou Deixar Que Você Se Vá" ("quero ouvir vocês!",
e o público batendo palmas, fantástico!, lembra os áureos tempos
dos programas de auditório da Xuxa, que saudade) e "Fuga", com uma
sanfoninha que lembra aquelas de parque de diversões, que cândido.
Condiz com o talento exorbitante dos sujeitos - não sei o nome de
ninguém da banda, nenhum de nós do ABACAXI ATÔMICO deve saber. Mandem
e-mails, por favor, para suprir essa nossa lacuna imperdoável. Encerrando
o disco: "Paz e Amor"... Ah, que lindo. Ai, uma história de amor
da ex-namorada do sujeito, que lhe apresenta seu novo amor... Pôxa,
daria um episódio fantástico para Malhação, aquela novela
épica da gloriosa Rede Globo. Como é que não pensei nisso antes?...
É talento
demais pra mim. Eu fico emocionado. Neste momento, as lágrimas enchem
meus olhos, porque ouvir esse disco realmente dá vontade de chorar.
Chega, não vou falar mais nada: Acústico 2 - A Revanche é
sensacional, indispensável, um dos maiores discos da história. Minto:
o maior, o melhor. Que Beatles que nada, Revolver coisa nenhuma:
o Nenhum de Nós é a maior banda de todos os tempos, disparado. E
se esse álbum vender menos que 5 milhões de cópias, eu chuto o balde
- e o bidê junto.
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