Estava eu na sala de aula
durante uma inesquecível e inefável aula de psicologia
social quando, em certo momento, a ingênua professora me soltou
um elogio à "crítica social" contida nas
letras das músicas do rapper carioca Gabriel o Pensador (sic).
Bem, foi justamente a partir deste momento (e olha que o ABACAXI
ATÔMICO ainda nem existia) que comecei a questionar a relevância
teórica e prática da psicologia social - porque, sinceramente,
acho que tem alguma coisa errada com uma pessoa que consegue enxergar
qualquer "crítica social" nas letras desse sujeito.
Lembrei-me desta bela historieta durante a audição
do novo trabalho do Pensador (sic), que se chama Cavaleiro Andante.
O álbum é mais uma demonstração de egocentrismo,
"palavras repetidas" e vazias, citações
equivocadas, onde o artista mistura várias tendências
e gêneros, jogando um monte de influências no caldeirão
com sua habitual pretensão e falta óbvia de talento.
O álbum começa com "Caveleiro Andante",
uma levada soul sem nenhuma inspiração e repetitiva,
com uns scratches como se isso significasse uma mistura e um flerte
com alguma coisa (sobra até prum saxofone totalmente deslocado).
Depois vem "Deixa Rolar", onde Gabriel o Pensador (sic)
faz papel de Dogão, o mau, porque tá cortejando a
Nega Li, que aqui faz o triste papel da cachorra e fica de backing
dando uns gemidos na música - que legal. "Chega mais
que eu tô sentindo que eu não vou me arrepender vem,
/ Chega bem chegado meu bem, pô / Já tô te secando
faz tempo, pô / Você se esconde igual nota de cem".
Uh, uh, terererêêêê! Gabriel é mau!
Mas estava demorando e a babação de ovo vem com "Bossa
9", homenagem a Tom Jobim, Vinícius de Morais (nunca
ninguém teve essa idéia antes né) e a tão
esperada crítica social que essa minha ex-professora deve
adorar. Arrastão, tiroteio e tal, está tudo aí,
junto com um pedido pro Cristo Redentor e mais o que você
quiser de lugar comum. Contundente! "Tudo na Mente" mostra
o quanto Gabriel o Pensador (sic) se acha o cara descolado que passou
por coisas e mais coisas, altas paradas, é um poeta, um filósofo,
um sábio dos tempos pós-modernos cuja trilha sonora
é o hip hop. Quanto sofrimento... do ouvinte. Pena que seu
egocentrismo esteja bem à frente de seu talento e de sua
inteligência.
Mais adiante, parem tudo: é "Imagine"? "Ebony
and Ivory"? "I Still Haven't Found What I'm Looking For"?
Não. É Gabriel o Pensador (sic) fazendo uma releitura
de "Pais e Filhos", do Legião Urbana... Se eu fosse
você, não ouvia isso. Pra você ter uma idéia,
nem o Renato Russo merece (ele deve estar dando chiliques no além).
São simplesmente os cinco minutos mais demagógicos
e constrangedores da música brasileira nos últimos
anos. Pior ainda que o refrãozinho (todos juntos de mãos
dadas, comigo: "é preciso amaaaaaaaaaaaaaaaar as pessoas
como se não houvesse amanhãããããããã..."),
a música é um "emocionante" apelo pela paz
contra a guerra, a fome, o terrorismo, a violência, o ódio,
a miséria, o Bin Laden, a Daslu ao lado da favela, os rodeios,
o mensalão, a cueca cheia de dinheiro, o revival dos anos
80, o Jota Quest, a utilização de animais em experiências
científícas, a rede Globo, o João Kleber...
Seguindo ladeira abaixo, tem "Sorria", com os inefáveis
Detonautas. É de chorar. Dessa vez, Gabriel o Pensador (sic)
pensa que é Chico Buarque e acha que sabe fazer jogos de
palavras inteligentes. É triste. "12 Meses Por Ano"
é mais um "rap" machista e idiota, algo sempre
presente nos trabalhos do auto-intitulado "Pensador".
"Sem Neurose" é dance da pior qualidade, onde o
falador e metido a malandro (que saudade do Bezerra da Silva, cada
geração tem o malandro que merece!) conta sua epopéia
nessa terra, digna mesmo de uma chupação horrorosa
da introdução de "Assim Falou Zaratustra",
aquela musiquinha do 2001 - Uma Odisséia No Espaço.
Falando em chupação, "Rap do Feio" é
uma chupação de Tim Maia, nada mais, nada menos, contando
uma historinha boba com um fundo musical tipo retrô anos 70.
Pra encerrar este belo exemplo de "rap brazuca para exportação"
(quem sabe exportação pro Iraque, lá só
cai bomba mesmo), tem a inefável "Tás a ver?",
com a participação de Adriana Calcanhotto, com direito
a violãozinho intimista insuportável. Ah, e não
podemos nos esquecer das letras do disco, fartas em chavões
("Nossa vida é feita / De pequenos nadas"; "Se
tudo pode acontecer / O que tiver que ser será"), ou
então repletas de citações idiotas ("No
meio de um caminho pode ter uma pedra / mas no meio dessa pedra
pode ter um caminho").
De qualquer maneira, há algo em comum entre todas as faixas
do disco: são incrivelmente ruins, paupérrimas, chatíssimas,
não há absolutamente nenhum espasmo de criatividade
por aqui. Só discursos óbvios, intermináveis,
que de vez em quando desembocam na mais absoluta logorréia.
Deve ser por isso que os psicólogos sociais gostam: muitas
idéias soltas, pouco raciocínio, uma pitada de sentimentalismo
e... é claro, crítica social! Não perca seu
tempo com isso, esse tal de Gabriel o Pensador (sic) não
passa de um folgado que faz música pra "playboy, filhinho
do papai", gente que se afunda "nessa bosta até
não poder mais".
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