q
Página principal de O Som do Abacaxi
Adicione o ABACAXI ATÔMICO aos seus Favoritos. Faça do ABACAXI ATÔMICO a sua página inicial. Cadastre-se!
Mande o seu recado!
Beagá, 11 de julho de 2005 d.C.
 
Gabriel o Pensador
Cavaleiro Andante
Por Cajabis Cannabis
 

Estava eu na sala de aula durante uma inesquecível e inefável aula de psicologia social quando, em certo momento, a ingênua professora me soltou um elogio à "crítica social" contida nas letras das músicas do rapper carioca Gabriel o Pensador (sic). Bem, foi justamente a partir deste momento (e olha que o ABACAXI ATÔMICO ainda nem existia) que comecei a questionar a relevância teórica e prática da psicologia social - porque, sinceramente, acho que tem alguma coisa errada com uma pessoa que consegue enxergar qualquer "crítica social" nas letras desse sujeito.

Lembrei-me desta bela historieta durante a audição do novo trabalho do Pensador (sic), que se chama Cavaleiro Andante. O álbum é mais uma demonstração de egocentrismo, "palavras repetidas" e vazias, citações equivocadas, onde o artista mistura várias tendências e gêneros, jogando um monte de influências no caldeirão com sua habitual pretensão e falta óbvia de talento.

O álbum começa com "Caveleiro Andante", uma levada soul sem nenhuma inspiração e repetitiva, com uns scratches como se isso significasse uma mistura e um flerte com alguma coisa (sobra até prum saxofone totalmente deslocado). Depois vem "Deixa Rolar", onde Gabriel o Pensador (sic) faz papel de Dogão, o mau, porque tá cortejando a Nega Li, que aqui faz o triste papel da cachorra e fica de backing dando uns gemidos na música - que legal. "Chega mais que eu tô sentindo que eu não vou me arrepender vem, / Chega bem chegado meu bem, pô / Já tô te secando faz tempo, pô / Você se esconde igual nota de cem". Uh, uh, terererêêêê! Gabriel é mau!

Mas estava demorando e a babação de ovo vem com "Bossa 9", homenagem a Tom Jobim, Vinícius de Morais (nunca ninguém teve essa idéia antes né) e a tão esperada crítica social que essa minha ex-professora deve adorar. Arrastão, tiroteio e tal, está tudo aí, junto com um pedido pro Cristo Redentor e mais o que você quiser de lugar comum. Contundente! "Tudo na Mente" mostra o quanto Gabriel o Pensador (sic) se acha o cara descolado que passou por coisas e mais coisas, altas paradas, é um poeta, um filósofo, um sábio dos tempos pós-modernos cuja trilha sonora é o hip hop. Quanto sofrimento... do ouvinte. Pena que seu egocentrismo esteja bem à frente de seu talento e de sua inteligência.

Mais adiante, parem tudo: é "Imagine"? "Ebony and Ivory"? "I Still Haven't Found What I'm Looking For"? Não. É Gabriel o Pensador (sic) fazendo uma releitura de "Pais e Filhos", do Legião Urbana... Se eu fosse você, não ouvia isso. Pra você ter uma idéia, nem o Renato Russo merece (ele deve estar dando chiliques no além). São simplesmente os cinco minutos mais demagógicos e constrangedores da música brasileira nos últimos anos. Pior ainda que o refrãozinho (todos juntos de mãos dadas, comigo: "é preciso amaaaaaaaaaaaaaaaar as pessoas como se não houvesse amanhãããããããã..."), a música é um "emocionante" apelo pela paz contra a guerra, a fome, o terrorismo, a violência, o ódio, a miséria, o Bin Laden, a Daslu ao lado da favela, os rodeios, o mensalão, a cueca cheia de dinheiro, o revival dos anos 80, o Jota Quest, a utilização de animais em experiências científícas, a rede Globo, o João Kleber...

Seguindo ladeira abaixo, tem "Sorria", com os inefáveis Detonautas. É de chorar. Dessa vez, Gabriel o Pensador (sic) pensa que é Chico Buarque e acha que sabe fazer jogos de palavras inteligentes. É triste. "12 Meses Por Ano" é mais um "rap" machista e idiota, algo sempre presente nos trabalhos do auto-intitulado "Pensador". "Sem Neurose" é dance da pior qualidade, onde o falador e metido a malandro (que saudade do Bezerra da Silva, cada geração tem o malandro que merece!) conta sua epopéia nessa terra, digna mesmo de uma chupação horrorosa da introdução de "Assim Falou Zaratustra", aquela musiquinha do 2001 - Uma Odisséia No Espaço. Falando em chupação, "Rap do Feio" é uma chupação de Tim Maia, nada mais, nada menos, contando uma historinha boba com um fundo musical tipo retrô anos 70.

Pra encerrar este belo exemplo de "rap brazuca para exportação" (quem sabe exportação pro Iraque, lá só cai bomba mesmo), tem a inefável "Tás a ver?", com a participação de Adriana Calcanhotto, com direito a violãozinho intimista insuportável. Ah, e não podemos nos esquecer das letras do disco, fartas em chavões ("Nossa vida é feita / De pequenos nadas"; "Se tudo pode acontecer / O que tiver que ser será"), ou então repletas de citações idiotas ("No meio de um caminho pode ter uma pedra / mas no meio dessa pedra pode ter um caminho").

De qualquer maneira, há algo em comum entre todas as faixas do disco: são incrivelmente ruins, paupérrimas, chatíssimas, não há absolutamente nenhum espasmo de criatividade por aqui. Só discursos óbvios, intermináveis, que de vez em quando desembocam na mais absoluta logorréia. Deve ser por isso que os psicólogos sociais gostam: muitas idéias soltas, pouco raciocínio, uma pitada de sentimentalismo e... é claro, crítica social! Não perca seu tempo com isso, esse tal de Gabriel o Pensador (sic) não passa de um folgado que faz música pra "playboy, filhinho do papai", gente que se afunda "nessa bosta até não poder mais".

 

 

 

©Todos os direitos reservados
Melhor visualizado com Internet Explorer em 800X600

 
ÚLTIMAS MATÉRIAS
CPM 22 - Felicidade Instantânea
Six Feet Under - Graveyard Classics 2
Vários - O Baú do Raul
Barão Vermelho - Barão Vermelho
LS&D - Viagem na Realidade
Confira textos mais antigos...