O humor brasileiro talvez
esteja em baixa na televisão (é só conferir
o tedioso Zorra Total, o decadente Casseta e Planeta,
o inqualificável A Praça é Nossa,
etc...) mas é realmente na música pop que os melhores
piadistas de nossa nação esbanjam talento pra matar
o público de rir.
E eis que os Deton... ops, o CPM 22 está de voltaaaaaaaaa.
Vocal paulistaaaaaaaa orraaaaaaaaaaaaaa meeeeeeeeeeu, hardcore,
guitarras ferozes, bateria punk, tá sabendo? Irado. Mais
porcaria pra encher a cabeça vazia dos mano. Poderíamos
catalogar o som da bandinha como sendo um "hardcore romântico
e existencial", seja lá o que isso queira dizer, afinal
de contas sempre é bom ter uma idéia mais ou menos
definida sobre o barulho que os caras produzem e alguns incautos
insistem em chamar de "música".
Bem, vamos tentar analisar o último produto que esses prodígios
musicais lançaram por aí, o álbum Felicidade
Instantânea. Pra começar, uma característica
do disco favorece a nossa análise: é tudo sempre a
mesma coisa. Guitarras barulhentas em ritmo de punk rock, vocal
berrado e letras, hã, "inspiradas" no cotidiano
dessa galera bonitaaaaaaaaa e sonhadoraaaaaaaaaa, a fina flor da
aborrescência classe média urbanóide pós-moderna
brasileira. Da primeira a última faixa, é tudo igual,
a mesma falta de idéias, de criatividade, de inventividade,
tudo num acentuado processo de autofagocitose, onde a banda rumina
sobre a mesma fórmula batidíssima do hardcore brasileiro.
Ingênuo e tolo à décima potência, Felicidade
Instantânea começa com a música homônima,
que tenta dar um ar de "surpresa" para o disco, já
que tem uma paradinha básica. Depois vem "Um Minuto
Para o Fim do Mundo" e o CPM 22 rola abaixo no barranco da
mediocridade. Ao ouvir a música, realmente tem-se a impressão
de que o mundo está para acabar.
Não precisa dizer que as letras das músicas são
o papo furado de sempre: crises existenciais, amorosas, conversinha
de aborrescente que os aborrescentes tanto gostam. Ou então
aquela poesia pós-moderna boa pra impressionar as menininhas
geração Pitty: "Naquele dia / Eu tirava / Alguns
retratos / E a fumaça cobria sua cabeça / Como uma
nuvem de tristeza / Nós saímos pela rua / Com a mesma
liberdade / Que poderíamos ter / Se não estivéssemos
presos a nós mesmos / E isso tudo me leva a pensar / Não
te contei, mas ontem eu te vi / Comprando ervas / Com a mesma liberdade
/ Num supermercado". Irado né? E o nome da música
é "Park, Park". Hein, hein? Já as rimas
(quando existem) são um caso a parte. Como é regra
no atual pop/rock nacional, são horrorosas, primárias,
banais. É um tal de "hora" com "embora"
e "agora", "cura" com "segura"...
Em uma análise mais abrangente, penso que o CPM 22 tenciona,
com este álbum, mudar a gramática e a pronúncia
da língua portuguesa. O Badauí canta dividindo as
palavras em sílabas, bom pra aula de português pra
estrangeiros - o chato vai ser o gringo pegar este sotaque paulistano
irritante, meu. E outra coisa, praticamente todas as palavras na
boca do sujeito se tornam oxítonas. "Recíproca",
por exemplo, se torna "recíprocaaaaaaaaaaa". A
letra é do tipo reflexiva: "Só não entendo
o que é que aconteceu / Eu não entendo o que é
que aconteceu", eu também não entendo o que aconteceu
com a juventude brasileira, como ela conseguiu descer a este nível.
Devem ser as conseqüências do golpe de 64, sei lá.
E também tem música com mensagem de amor à
vida, tipo "pra cima rapaz": é "Jovem, Alcoólatra,
Suicida". "Jovem, alcoólatra bebe sem perceber
/ Passo-a-passo o caminho da destruição", mais
um pouquinho e virava sermão gospel. "Por que você
não quis mais viver?", berra o impávido vocalista.
Responder a esta pergunta seria realmente muito complicado para
um cidadão com tendências suicidas depois que ele ouvisse
esta pérola.
As "reflexões" filosóficas dos cidadãos
são de uma contundência de fazer Habermans se estremecer:
"A inveja não tem fim / Sua alma está perdendo
a cor / Seus olhos refletem a dor / Sem amor no coração
/ Fique o mais longe possível com a sua doençaaaaaaaaaa
/ O ódio é um fruto da ignorânciaaaaaaaaaaa".
No meio dos berros do Badauí, tem sempre a guitarrinha insistente,
metida a punk rock, junto com a bateria marcando sempre a mesma
cadência. E aí, o disco, que em princípio provoca
muitas risadas por parte do ouvinte, vai ficando cada vez mais chato
e insuportável.
Temos que esperar a última faixa para descobrirmos qual
a moral deste álbum infeliz. O nome já diz tudo: "Repetição".
"Eu continuo usando as mesmas palavraaaaaaaaaaaaaas..."
Tá vendo como transformar velhos chavões em material
suficiente para um disco inteiro? Ou melhor, três discos -
no caso do CPM22... Essa é a moral da história, no
pop/rock brasileiro nada se cria, nada se perde e nada se vale a
pena. Nada neste álbum tem o menor cabimento, é tudo
de um primarismo aterrorizador, um vácuo mental de fazer
inveja a um oligofrênico. |