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Beagá, 13 de junho de 2005 d.C.
 
CPM 22
Felicidade Instantânea
Por Cajabis Cannabis
 

O humor brasileiro talvez esteja em baixa na televisão (é só conferir o tedioso Zorra Total, o decadente Casseta e Planeta, o inqualificável A Praça é Nossa, etc...) mas é realmente na música pop que os melhores piadistas de nossa nação esbanjam talento pra matar o público de rir.

E eis que os Deton... ops, o CPM 22 está de voltaaaaaaaaa. Vocal paulistaaaaaaaa orraaaaaaaaaaaaaa meeeeeeeeeeu, hardcore, guitarras ferozes, bateria punk, tá sabendo? Irado. Mais porcaria pra encher a cabeça vazia dos mano. Poderíamos catalogar o som da bandinha como sendo um "hardcore romântico e existencial", seja lá o que isso queira dizer, afinal de contas sempre é bom ter uma idéia mais ou menos definida sobre o barulho que os caras produzem e alguns incautos insistem em chamar de "música".

Bem, vamos tentar analisar o último produto que esses prodígios musicais lançaram por aí, o álbum Felicidade Instantânea. Pra começar, uma característica do disco favorece a nossa análise: é tudo sempre a mesma coisa. Guitarras barulhentas em ritmo de punk rock, vocal berrado e letras, hã, "inspiradas" no cotidiano dessa galera bonitaaaaaaaaa e sonhadoraaaaaaaaaa, a fina flor da aborrescência classe média urbanóide pós-moderna brasileira. Da primeira a última faixa, é tudo igual, a mesma falta de idéias, de criatividade, de inventividade, tudo num acentuado processo de autofagocitose, onde a banda rumina sobre a mesma fórmula batidíssima do hardcore brasileiro.

Ingênuo e tolo à décima potência, Felicidade Instantânea começa com a música homônima, que tenta dar um ar de "surpresa" para o disco, já que tem uma paradinha básica. Depois vem "Um Minuto Para o Fim do Mundo" e o CPM 22 rola abaixo no barranco da mediocridade. Ao ouvir a música, realmente tem-se a impressão de que o mundo está para acabar.

Não precisa dizer que as letras das músicas são o papo furado de sempre: crises existenciais, amorosas, conversinha de aborrescente que os aborrescentes tanto gostam. Ou então aquela poesia pós-moderna boa pra impressionar as menininhas geração Pitty: "Naquele dia / Eu tirava / Alguns retratos / E a fumaça cobria sua cabeça / Como uma nuvem de tristeza / Nós saímos pela rua / Com a mesma liberdade / Que poderíamos ter / Se não estivéssemos presos a nós mesmos / E isso tudo me leva a pensar / Não te contei, mas ontem eu te vi / Comprando ervas / Com a mesma liberdade / Num supermercado". Irado né? E o nome da música é "Park, Park". Hein, hein? Já as rimas (quando existem) são um caso a parte. Como é regra no atual pop/rock nacional, são horrorosas, primárias, banais. É um tal de "hora" com "embora" e "agora", "cura" com "segura"...

Em uma análise mais abrangente, penso que o CPM 22 tenciona, com este álbum, mudar a gramática e a pronúncia da língua portuguesa. O Badauí canta dividindo as palavras em sílabas, bom pra aula de português pra estrangeiros - o chato vai ser o gringo pegar este sotaque paulistano irritante, meu. E outra coisa, praticamente todas as palavras na boca do sujeito se tornam oxítonas. "Recíproca", por exemplo, se torna "recíprocaaaaaaaaaaa". A letra é do tipo reflexiva: "Só não entendo o que é que aconteceu / Eu não entendo o que é que aconteceu", eu também não entendo o que aconteceu com a juventude brasileira, como ela conseguiu descer a este nível. Devem ser as conseqüências do golpe de 64, sei lá.

E também tem música com mensagem de amor à vida, tipo "pra cima rapaz": é "Jovem, Alcoólatra, Suicida". "Jovem, alcoólatra bebe sem perceber / Passo-a-passo o caminho da destruição", mais um pouquinho e virava sermão gospel. "Por que você não quis mais viver?", berra o impávido vocalista. Responder a esta pergunta seria realmente muito complicado para um cidadão com tendências suicidas depois que ele ouvisse esta pérola.

As "reflexões" filosóficas dos cidadãos são de uma contundência de fazer Habermans se estremecer: "A inveja não tem fim / Sua alma está perdendo a cor / Seus olhos refletem a dor / Sem amor no coração / Fique o mais longe possível com a sua doençaaaaaaaaaa / O ódio é um fruto da ignorânciaaaaaaaaaaa". No meio dos berros do Badauí, tem sempre a guitarrinha insistente, metida a punk rock, junto com a bateria marcando sempre a mesma cadência. E aí, o disco, que em princípio provoca muitas risadas por parte do ouvinte, vai ficando cada vez mais chato e insuportável.

Temos que esperar a última faixa para descobrirmos qual a moral deste álbum infeliz. O nome já diz tudo: "Repetição". "Eu continuo usando as mesmas palavraaaaaaaaaaaaaas..." Tá vendo como transformar velhos chavões em material suficiente para um disco inteiro? Ou melhor, três discos - no caso do CPM22... Essa é a moral da história, no pop/rock brasileiro nada se cria, nada se perde e nada se vale a pena. Nada neste álbum tem o menor cabimento, é tudo de um primarismo aterrorizador, um vácuo mental de fazer inveja a um oligofrênico.

 

 

 

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