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Beagá, 07 de março de 2005 d.C.
 

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O Baú do Raul

Por Cajabis Cannabis
 

Olha que bacana! Uma homenagem a Raul Seixas! Que lindo! Que gesto mais bonito de tantos artistas e das gravadoras! Vamos esquecer que, depois de terem chupado sua música, as gravadoras pelas quais passou cuspiram fora o bagaço; na década de 80, dominado pelo alcoolismo, Raulzito foi parar na Chantecler (!); abandonado por todos (exceto, e louve-se, apoiado até o fim por Marcelo Nova, nisso aí ele foi muito digno, ele esteve até no enterro), morreu à míngua, em total decadência, em agosto de 1989.

E agora vão homenagear o cara? Pra p*************. Pra casa do c******. Porque quando ele tanto precisava, quem o ajudou??? Agora, as gravadoras lançam de vez em quando alguma besteira desse nível, mas em vida não hesitaram em deixá-lo à própria sorte. É verdade que Raul Seixas era um porra louca total, literalmente dissolveu seu pâncreas em álcool, mas você pode contar nos dedos as pessoas que o apoiaram. E agora fica todo mundo fazendo homenagens, tributos... Que pouca vergonha, não?

Dessa vez, fizeram um show com sucessos de Raul Seixas interpretados por grandes ídolos de nossa música. E gravaram e lançaram um cd duplo e um dvd. Se não bastasse a hipocrisia da homenagem, a qualidade final do produto é muito fraca. Isso porque, definitivamente, é meio complicado misturar Zélia Duncan, Pitty e B. Negão em três faixas seguidas em uma seqüência no primeiro cd. O disco, aliás, começa com "Gita" na voz de Toni Garrido, o que pode ser definido como uma completa aberração, uma performance simplesmente abominável (como o cara geme, meu Deus, parece que está parindo alguém). Depois, ainda temos que agüentar o Cpm 22, fazendo hard rock em cima de "O Carimbador Maluco" e "Al Capone". Assim, engolir o B. Negão (caiu de pára-quedas aqui?) em "É Fim de Mês", com direito a um coral esquisitíssimo fazendo uma segunda voz de gosto pra lá de duvidoso, fica até fácil. Em seguida, ele e o D2 misturam "Give it Away", do Red Hot Chilli Peppers, com "Como Vovó Já Dizia". Não ficou nem uma coisa nem outra.

A Pitty comparece, como bom arroz de festa que se preze, em "Eu Sou Egoísta". Mostra que, definitivamente, não canta absolutamente nada, é uma péssima cantora, com uma entonação que não encontra o timbre correto de jeito nenhum. Muitos berros e pouco fôlego. E, claro, tem um bônus que é um remix de "Como Vovó Já Dizia" - sempre tem remix, faixa bônus, essas bobagens todas em discos como esse, já repararam? Ah, detalhe para a performance ridícula de Mauricio Baia em "Ouro de Tolo", ele canta a música no palco de terno e pasta de couro, depois se enforca na gravata. Que legal, é um teatrinho, agora eu finalmente entendi a letra da música. Que gênio. Mas isso é só pra quem tiver o "privilégio" de assistir em dvd, ok?

No segundo cd, as tosqueiras continuam. Tem Gabriel, o Falador, Detonautas, Raimundos... E Caetano Veloso, que brinca de "Maluco Beleza", com voz e violão (ouça mais de 30 segundos e concorra a uma viagem para o Iraque), e depois aparece uma bandinha tipo de festa de 15 anos acompanhando. "Tente Outra Vez", com Sandra de Sá, é pra mandar qualquer um embora - música de videokê, a essa altura do campeonato, é dose pra elefante. Logo no primeiro verso, a cantora avisa à galera: "eu sou negonaaaaaaaaaaaaaaaaaaa". "Let Me Sing, Let Me Sing" junta Érika (a péssima cantora da péssima extinta banda Penélope) e Os Autoramas, que aqui provam que vale tudo para chegar ao mainstream.

Falando em mainstream, Lobão canta "Rock Do Diabo" sem a menor inspiração. Dá pra desistir, é tudo muito chato, muito bobo mesmo. Ficou parecendo que o show foi juntar umas bandas com uns cantores, dois ou três ensaios e tá beleza, afinal de contas o público hoje em dia engole qualquer coisa. O AfroReggae ao menos tentou variar em "Mosca Na Sopa", o problema é que a música não era a mais propícia pra isso - pensando bem, a banda também não é propícia pra nada. Encerrando a "homenagem", vem Nasi Wolverine com "Sociedade Alternativa". Só faltou acender uma fogueira e fazer um lual. Que dureza. Daí vem sua vozinha rouca num arranjo completamente banal - ah, tem um sonzinho de órgão no fundo! E tem bateria também. Dãããã. E Nasi repetindo o bordão "quero ouvir vocês!!!!!!" umas 98 vezes em 6 (seis!!!) minutos simplesmente intermináveis. E depois tem um remix também. "Rock das 'Aranha'" tipo disco riscado.

Quer homenagear Raul Seixas? Procure nas lojas Novo Aeon, álbum lançado em 1975 que é um sensacional retrato daquela época. Esse é o disco de Raul Seixas, um dos melhores da história do pop brasileiro, sem dúvida alguma. Não perca seu precioso tempo com besteiras como essa. E só lamento que Marcelo Nova também esteja aqui neste show - ressaltando que eu o respeito por ter estado do lado de Raul Seixas nos tempos mais difíceis, sendo seu apoio (literalmente, afinal o cara não parava em pé), não pela sua música, que acho uma bosta. Mas, sinceramente, não vou julgar suas intenções. O que acho é que a gente deve fazer alguma coisa pelas pessoas enquanto elas estão vivas e precisando de nós, não realizar maravilhosas homenagens e tributos depois de 15 anos de morte no quase abandono.

 

 

 

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