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Beagá, 10 de janeiro de 2005 d.C.
 

LS&D
Viagem na Realidade

Por Cajabis Cannabis
 

Tá deprimido? Chateado? Aborrecido? Então, prepare-se para ter seu bom humor de volta. Eu, pelo menos, há muito tempo não dava tantas e tantas gargalhadas. O que eu fiz? Simples, escutei o cd Viagem na Maionese, ops, Viagem na Realidade (????), da banda LS&D. Sim, isso mesmo: a banda se chama LS&D.

Em princípio, fiquei confabulando com meus botões: caramba, o que diabos significa essa sigla?????? Teriam essas três letras uma simbologia mística? Será algo relacionado à cabala? Ou serão essas três letras a abreviatura de algo misterioso, insondável para um ser humano comum, para nós, ó pobre de nós, reles mortais... O que significaria então esta mágica junção de consoantes? Já sei!!! Seriam os caras evangélicos e estariam então transmitindo a todos a boa nova através de uma (santa) mensagem subliminar: Louvado seja Deus? Será que um dos integrantes da banda antes de ser músico era proprietário de uma banca de frutas e daí buscou inspiração na gostosa laranja serra d'água?

Infelizmente, ó, em vão foram os meus esforços, isso está muito além da minha compreensão. Descobri que LS&D (eu me esqueci do "&", que coisa!) é a sigla com as iniciais dos sobrenomes dos integrantes da banda: André Lazzarotto, Luiz Schiavon e, ou melhor, "&" Fernando Deluqui. Ao me deparar com esta revelação, algo semelhante a um nirvana, só pude exclamar aos quatro ventos: que genial!!!!!

Bem, os estimados abacaxinautas devem estar se perguntando, com a pulga atrás da orelha: mas quem diabos são esses nobres músicos? Então, se você ainda não sabe, senta na cadeira: o tecladista S e o guitarrista D são integrantes do novamente finado RPM - isso mesmo. O RPM acabou de novo (êêêêê!), dividiu-se em dois (é tanto lixo que não coube numa banda só) e cada metade foi pro seu lado. Paulo Ricardo (PR) e Paulo Pagni (P.A.), o baterista, cometeram um álbum chamado Zum Zum (que ainda não encontrei em lugar nenhum pra ouvir, minha saúde agradece) sob a alcunha de PR.5 (mais siglas de significado oculto...). Enquanto isso, S & D seguiram outro rumo, mas sentiam que faltava algo para completar de forma coerente a sopa de letrinhas. Então, eis que, um belo dia, encontraram o também guitarrista L. E as três consoantes, felizes, foram fazer um lindo álbum. E fizeram. Poderiam ter ido trabalhar em algum projeto de alfabetização do governo federal, fariam com certeza menos feio.

A pretensão dos sujeitos é tanta que, no site dos caras, você já vê logo na entrada os dizeres "prepare-se para uma revolução". Olha, se você não levar nada dessa bobagem a sério, Viagem na Realidade é, na realidade (argh!), um álbum de humor, feito por humoristas. É pra rir mesmo, principalmente dos clipes que estão lá no site para download. "Novo Dia" é ridículo demais, completamente retrógado, com efeitos que já seriam considerados toscos nos anos 80.

E tem mais: a tiragem inicial do cd é de mil cópias, trata-se de uma edição especial para colecionadores (???!!!). Nos dizeres de Fernando Deluqui em uma entrevista, "é um trabalho magnífico com encarte de tamanho diferenciado (24 por 14 cm), livreto com 20 páginas e fotos psicodélicas de flores. Isso sem contar com o áudio quie foi gravado em seis meses e nos deixa orgulhosos". Sobre a pirataria, essa tiragem é "tão bem cuidada que os piratas não vão se preocupar em roubar". Agora, eu pergunto: alguém vai ter coragem de piratar isso pra vender? Qual camelô iria se rebaixar a tanto?

Mas vamos lá, vamos falar um pouco sobre o álbum. Em primeiro lugar, ninguém pode acusar os caras de serem "irregulares". Aliás, o disco é de uma regularidade impressionante: todas as faixas são, sem nenhuma exceção, horrorosas. É a mais recente prova da presença de satanás na terra. A mais badalada, "Madrigal", é um country misturado com techno, podemos chamar assim, com uns tecladinhos soando como cravos - ó, que lindo, que diferente, nunca ninguém havia feito isso antes. E nem com a colher de chá da Globo, colocando este troço como tema de novela das seis, a banda foi pra frente. Claro, melhor assim. "O Caminho do Céu" tem a participação do Dj Patife e é interessante constatar que é a menos horrível do álbum. Não que a faixa seja boa, hein.

Tem baladas românticas ("Verdadeiro Amor"), música de auto-ajuda ("Novo Dia", outro enorme "sucesso" dos caras), "flertes" com o hip hop ("Fechando a Guarda") e eletrônica ("O Mar" e "Medo", esta instrumental, que é o nome que se dá ao que qualquer pessoa de bem sente ao botar a mão nesse disco). Isso sem falar nas letras horrendas, rimas paupérrimas, versos completamente desconexos, sem sentido. Ou seja, o disco tem de tudo e é um enorme nada, ao mesmo tempo. Retrato mais bem acabado do vazio de idéias que é o rock brasileiro: um pop farofa abaixo da crítica.

 

 

 

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