Tá deprimido? Chateado? Aborrecido?
Então, prepare-se para ter seu bom humor de volta. Eu, pelo
menos, há muito tempo não dava tantas e tantas gargalhadas.
O que eu fiz? Simples, escutei o cd Viagem na Maionese, ops, Viagem
na Realidade (????), da banda LS&D. Sim, isso mesmo: a banda
se chama LS&D.
Em princípio, fiquei confabulando com meus botões:
caramba, o que diabos significa essa sigla?????? Teriam essas três
letras uma simbologia mística? Será algo relacionado à cabala?
Ou serão essas três letras a abreviatura de algo misterioso,
insondável para um ser humano comum, para nós, ó pobre
de nós, reles mortais... O que significaria então
esta mágica junção de consoantes? Já sei!!!
Seriam os caras evangélicos e estariam então transmitindo
a todos a boa nova através de uma (santa) mensagem subliminar:
Louvado seja Deus? Será que um dos integrantes da banda
antes de ser músico era proprietário de uma banca
de frutas e daí buscou inspiração na gostosa
laranja serra d'água?
Infelizmente, ó,
em vão foram os meus esforços,
isso está muito além da minha compreensão.
Descobri que LS&D (eu me esqueci do "&", que
coisa!) é a sigla com as iniciais dos sobrenomes dos integrantes
da banda: André Lazzarotto, Luiz Schiavon e, ou melhor, "&" Fernando
Deluqui. Ao me deparar com esta revelação,
algo semelhante a um nirvana, só pude exclamar aos quatro
ventos: que genial!!!!!
Bem,
os estimados abacaxinautas devem estar se perguntando, com a
pulga atrás da orelha: mas quem diabos são esses
nobres músicos? Então, se você ainda não
sabe, senta na cadeira: o tecladista S e o guitarrista D são
integrantes do novamente finado RPM - isso mesmo. O RPM acabou
de novo (êêêêê!), dividiu-se em dois
(é tanto
lixo que não
coube numa banda só)
e cada metade foi pro seu lado. Paulo Ricardo (PR) e Paulo Pagni
(P.A.), o baterista, cometeram um álbum chamado Zum
Zum (que ainda não encontrei em lugar
nenhum pra ouvir, minha saúde agradece) sob a alcunha de
PR.5 (mais siglas de significado oculto...). Enquanto isso, S & D
seguiram outro rumo, mas sentiam que faltava algo para completar
de forma coerente a sopa de letrinhas.
Então, eis que, um belo dia, encontraram o também guitarrista
L. E as três
consoantes, felizes, foram fazer um lindo álbum. E fizeram.
Poderiam ter ido trabalhar em algum projeto de alfabetização do
governo federal, fariam com certeza menos feio.
A pretensão dos sujeitos é tanta
que, no site
dos caras, você já vê logo
na entrada os dizeres "prepare-se para uma revolução".
Olha, se você não levar nada dessa bobagem a sério, Viagem na Realidade é, na realidade (argh!), um álbum
de humor, feito por humoristas. É pra rir mesmo, principalmente
dos clipes que estão lá no site para download. "Novo
Dia" é ridículo demais, completamente retrógado,
com efeitos que já seriam considerados toscos nos anos 80.
E tem mais: a tiragem inicial do cd é de mil cópias,
trata-se de uma edição especial para colecionadores
(???!!!). Nos dizeres de Fernando Deluqui em uma entrevista, "é um
trabalho magnífico com encarte de tamanho diferenciado (24
por 14 cm), livreto com 20 páginas e fotos psicodélicas
de flores. Isso sem contar com o áudio quie foi gravado
em seis meses e nos deixa orgulhosos". Sobre a pirataria,
essa tiragem é "tão bem cuidada que os piratas
não vão se preocupar em roubar". Agora, eu pergunto:
alguém vai ter coragem de piratar isso pra vender? Qual
camelô iria se rebaixar a tanto?
Mas
vamos lá, vamos falar um pouco sobre o álbum.
Em primeiro lugar, ninguém pode acusar os caras de serem "irregulares".
Aliás, o disco é de uma regularidade impressionante:
todas as faixas são, sem nenhuma exceção,
horrorosas. É a mais recente prova da presença de
satanás na terra. A mais badalada, "Madrigal", é um
country misturado com techno, podemos chamar assim, com uns tecladinhos
soando como cravos - ó, que lindo, que diferente, nunca
ninguém havia feito isso antes. E nem com a colher de chá da
Globo, colocando este troço como tema de novela das seis,
a banda foi pra frente. Claro, melhor assim. "O Caminho do
Céu" tem a participação do Dj Patife
e é interessante constatar que é a menos horrível
do álbum. Não que a faixa seja boa, hein.
Tem
baladas românticas ("Verdadeiro Amor"), música
de auto-ajuda ("Novo Dia", outro enorme "sucesso" dos
caras), "flertes" com o hip hop ("Fechando a Guarda")
e eletrônica ("O Mar" e "Medo", esta
instrumental, que é o nome que se dá ao que qualquer
pessoa de bem sente ao botar a mão nesse disco). Isso
sem falar nas letras horrendas, rimas paupérrimas, versos
completamente desconexos, sem sentido. Ou seja, o disco tem de
tudo e é um
enorme nada, ao mesmo tempo. Retrato mais bem acabado do vazio
de idéias que é o rock brasileiro: um pop farofa
abaixo da crítica. |