Verdade
verdadeira seja dita: A Foreign Sound, novo petardo musical
lançado por Caetano Veloso, é chato. Chato, não:
um porre. Porre, não: é incrivelmente insuportável.
Tá certo que nós do ABACAXI ATÔMICO não
somos lá muito isentos pra falar sobre a obra do mala mor
da nossa combalida música brasileira (quem é o mais
chato, ele ou o Gil? Você resolve); por isso, decidi citar
aqui a avaliação que o próprio Caê fez
sobre esse seu novo trabalho: "Quem gosta de mim vai gostar
daquilo, mas o disco acabou ficando longo demais. Ninguém
vai ouvir inteiro." Eu não falo nada, ouçam o
que o "mestre" está a dizer...
Pois
meninos, eu ouvi. E sobrevivi. E cheguei à conclusão
de que a única coisa mais nauseante que as interpretações
de Caetano Veloso é a sua pretensão (e não
estou mencionando sua falsa modéstia). A Foreign Sound
não passa de um apanhado meio samba do crioulo doido, com
músicas norte-americanas de gêneros e estilos totalmente
diferentes reunidos para um mesmo intérprete despejar sua
arrogância e disfarçar sua total decadência enquanto
compositor - vamos ser simples e diretos: alguém aí
se lembra de alguma coisa que o Caê tenha feito nos últimos
20 anos que realmente presta?
Algumas
faixas, só para exemplificar: "Carioca" vem embalada
num batuque bossa nova pra lá de chato, "So In Love"
e "Body And Soul" são insossas, além do
quê o vocal extremamente impessoal prejudica ainda mais o
resultado. "It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)", clássico
de Bob Dylan, fica simplesmente lamentável, com direito a
drum’n’bass pra lá de entediante do Pupilo, da
Nação Zumbi, e scratches, pro Caetano mostrar pra
todo mundo que também é muderno - a participação
é do DJ CIA (RZO). Ou seja, convidados para provar que Caetano
sabe o que está na moda, sabe o que é cool, daí
atira pra todos os lados. E acerta em cheio o nosso saco.
E continua
o massacre: a bela "Smoke Gets In Your Eyes" fica arrastada,
presa num arranjo que reforça os metais e o débil
vocal. "Diana", de Paul Anka, ficou também engessada
num arranjo orquestrado, que não acrescenta nada ao original,
descaracteriza a canção por completo. E preciso falar
o que foi feito de "Come As You Are", com direito a tamborim
e violoncelo? Só faltou a cuíca. E olha que, por tentar
se manter mais fiel ao original, a versão até que
não está entre as piores do disco. É ruim,
mas tem coisa ainda pior.
Em
geral, os arranjos de Jaques Morelenbaum (que já vem trabalhando
com Caetano há um bom tempo) são preguiçosos,
pouco inspirados, apenas procuram enfatizar a interpretação
de Caetano, que está pra lá de discutível (medíocre
mesmo). Um exemplo é a versão para "Feelings",
de Morris Albert, é de doer o resultado final. A única
faixa que se salva talvez seja a simpática e despretensiosa
"Jamaica Farewell", do veterano compositor Irving Burgie,
curiosamente um calipso, está bem mais pro Caribe do que
para a América do Norte. Mas poderiam argumentar que a música
dos EUA tem diversas influências, e Burgie foi o principal
compositor deste gênero no país - várias de
suas músicas entraram nas paradas de sucesso, especialmente
na voz de Harry Belafonte, o que é justamente o caso desta.
De qualquer maneira, é a única versão positiva
em todo o álbum, o que não deixa de ser curioso.
O resto
é dose pra elefante, é pior que assistir Vídeo
Show de ressaca. É o esquema violão chato metido
a bossa nova, alguns solinhos vacilões, um arranjo de cordas
aqui e ali, uns efeitos modernosos pra disfarçar e mostrar
que o Caê está antenado, algumas versões são
estilo terceiro milênio - "Blue Skies", clássico
do compositor Irving Berlin, é simplesmente destroçada
nesse esquema. E pra dar um tiro de misericórdia, "Love
Me Tender", imortalizada na voz de Elvis Presley, aqui aparece
como canção de ninar: não poderia haver final
mais apropriado. Durmam bem, incautos ouvintes deste disco... mas
cuidado com os pesadelos!
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