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Beagá, 26 de abril de 2004 d.C.
 

Soulfly
Prophecy

Por Indiegesto
 

Assim como Carlito Marrón, Max Cavalera tornou-se expert em fazer os gringos de idiota. Veja bem, desde 96 Max está gravando o mesmo disco e tem quem abrace a idéia. O disco em questão é Roots, de quando ele ainda era do Sepultura, que é sem dúvida nenhuma um marco da música pesada, rompeu barreiras etc e tal. Mas faça-me o favor, o tempo passa e não dá para reviver a mesma época o tempo inteiro.

Chega a ser fácil fazer uma crítica a um disco do Soulfly, pois sempre damos de cara com a mesma coisa: uma música instrumental que leva o nome da banda e que dá para escutar umas duas vezes na vida com muita boa vontade, músicas com trocadilhos com nomes de clássicos do rock, uma música em português Carlinhos Browniano e mais um punhado de músicas em que Max chupinha descaradamente bandas que ele porventura influenciou um dia. Isso sem contar as letras, que são um amontoado de frases de efeito e lugares comuns - quando não são pedaços de músicas antigas do Sepultura/Soulfly e nomes de discos, filmes e afins. E isso sem contar as tais homenagens ao falecido filho de sua esposa.

O Soulfly poderia ser uma grande banda caso houvesse alguém para dar uma dose de semancol no Max - vai ver, é por isso que o Sepultura foi o que foi. Em todos os discos da banda existem boas idéias, mas que são soterradas por uma brasilidade sem-noção, além do fato de Max se preocupar tanto em demonstrar um lado visionário que perdeu há no mínimo uns três anos. O fato da banda não conseguir manter uma formação coesa por dois discos seguidos também pesa, mas vamos à música, que é o que interessa.

Primeiramente, se você quer ter uma banda que flerte com ritmos regionais brasileiros é aconselhável um bom (no mínimo) baterista, coisa que Joe Nunes (que já havia gravado o segundo álbum da banda) definitivamente não é. Ele ter sido indicado para a banda pelo Dave Lombardo (Slayer/Fantômas) mostra que Lombardo tem um belo senso de humor para pegadinhas. Max deveria dobrar o salário de Roy Mayorga (baterista excepcional que gravou o primeiro e terceiro disco do Soulfly) e mantê-lo na banda.

O disco começa com a faixa título, que não chega a ser ruim, mas você provavelmente já escutou algo igual há pelo menos uns seis discos em que Max Cavalera esteve envolvido. Há ainda uma cítara para dar aquele jeitão world music no negócio e um final que copia Fear Factory de forma escancarada.

“Living Sacrifice” começa com um riff que lembra um Queens of the Stone Age anabolizado. A música é um pouco melhor que a primeira e tem um riff de guitarra muito legal após o segundo refrão, soando como Sepultura fase Chaos AD talvez pelo solo de guitarra, que lembra demais Andreas Kisser. Parece que tudo vai bem mas, de repente, um pseudo-forró aparece para dar aquele clima de viagem e joga a música por água abaixo. Mais um riff muito bom surge no final, mas não corta o efeito broxante.

“Execution Style” é uma música acelerada que vai bem até uma “ponte” antes do solo de guitarra, que poderia ser plágio de “Territory”, do... Sepultura!!!

“Defeat U” é uma música legal, com participação do vocalista da banda North Side Kings. Se salva pela falta de invencionices. Já “Mars” sofre daquele problema de começar bem e terminar mal, já que o guitarrista Marco Rizzo mostra a marca registrada de sua ex banda (o intragável Ill Niño), com um violão flamenco desnecessário que descamba para um reggae mequetrefe de fazer o Natiruts parecer o Peter Tosh.

“I Believe” tem a letra mais mala do disco, com um lirismo digno das músicas da Xuxa. Há ainda uma linha melódica de guitarra que lembra demais o que Chino Moreno canta em “First Commandment”, no primeiro disco do Soulfly. As partes calmas são de uma pieguice sem fim.

Faltou dizer que Max agora vive falando em Bob Marley, os releases da gravadora tentam carimba-lo como o “Bob Marley do metal”. Então, é lógico que o Soulfly deveria fazer um mix de metal com reggae. A mistura resulta em “Moses”, outro reggae salafrário com participação da banda Eyesburn. Detalhe para Max berrando “Father of Creation / Give me inspiration”. Realmente, ele está precisando.

“Born Again Anarchist” tem aquelas letras clichê do Max, um bom riff de guitarra, novamente o baterista faz feio na parte rápida e, pra variar, tem que rolar um berimbau no fim para dar um clima.

Agora chega o momento mais engraçado do disco. “Porrada” é a música, uma intro com aquele violão flamenco desprezível, meio rumba que descamba para um hardcore. Só que a letra é tão imbecil e besta que lembra Raimundos no seu primeiro disco. A impressão é que Max fez uma sessão de regressão e voltou aos seus 12 anos de idade para fazer uma letra agressiva. “Porrada na favela, porrada na baixada”, faça-me o favor... Parece aquelas centenas de bandas daqui de São Paulo que imitavam o Sepultura e sonhavam em viajar para o exterior para lavar prato.

A menos pior do disco é um cover de “In the Meantime”, do Helmet, que ainda ficou muito inferior à original. Tem cheiro de tapa-buraco no CD e é seguida por “Soulfly IV”, a tal música instrumental que ninguém vai escutar mais que duas vezes.

O disco fecha com “Wings”, com um vocal feminino (que já havia participado de “Primitive”) meio gospel e encerra com uma bandinha de fanfarra que deve ter sido regida pelo Max, fanfarrão-mor.

Prophecy é um disco nascido para ser baixado pela rede, não dá para gastar dinheiro nisso. Rende pelo menos bons momentos de humor involuntário.

PS: a melhor coisa que Max fez desde Roots está no Probot, projeto metal de Dave Grohl. A música “Red War” é realmente fantástica. Merece uma conferida.

 

 

 

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