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Beagá, 01 de março de 2004 d.C.
 

Courtney Love
America´s Sweetheart

Por Caboclo Alaranjado
 

Courtney Love sempre foi uma celebridade que se destacou mais pela boca do que pelo talento. Não que a ex-senhora Cobain tenha lábios irresistíveis (são convidativos, aliás). Mas digo isso pelo simples fato de que, apesar de ter produzido pouquíssimo (quantitativamente e qualitativamente), ela sempre esteve superexposta na mídia. Seja por causa de brigas na Justiça com Deus e o mundo ou por papéis medianos no cinema. Mas, em se tratando de música, qual foi a contribuição dela para a música pop? Nos últimos dez anos, após o suicídio de Kurt, ela só lançou dois discos: Celebrity Skin, com o finado Hole em 1998, e este America´s Sweetheart, que chega com status de platinado às prateleiras do mundo todo.

Ao colocar a bolacha quentinha no CD player, a impressão que se tem é que Courtney sabe que não precisa da música pra se manter no status que conquistou (?). Ela parece ter a convicção de que, para ficar no estrelato, só basta um escândalo aqui, uma declaração polêmica ali e um gesto obsceno acolá. É uma espécie de Darlene ou Jacqueline Joy de Seattle.

Logo na faixa de abertura, o single “Mono”, Courtney deixa isso bem claro. Ela joga lenha na fogueira de uma discussão tão velha quanto qualquer coisa. “Eles disseram que o rock está morto / E provavelmente estão certos”. Então tá... A música é apenas um detalhe. Mas essa até que nem é tão ruim assim. Riffão, refrão pegajoso... O duro é ter que aturar a quase ex-balzaca (Love completa 40 anos em julho) querendo fazer todo mundo acreditar que ela sabe cantar. Ninguém é corajoso o suficiente pra dizer o contrário, não é verdade? Principalmente depois da ruindade ter sido registrada em faixas pesadinhas e de andamento quebrado como “But Julian, I´m A Little Older Than You” e baladas como “Hold On To Me”. Fiasco de todos os jeitos.

Não bastassem essas limitações vocais, a estratégia “novela da oito” rumo à fama dá no saco. Love berra palavrões e fala de drogas e sexo que nem uma metralhadora da Rota, a polícia assassina de São Paulo. Mas tudo parece uma colagem aleatória de baixaria, feita sob medida para ganhar o selinho de “Explicit Lyrics” na capa.

O mais engraçado é que para fazer tranqueiras como as arrastadas “Almost Golden” e “Uncool”, Courtney Love contou com parcerias um tanto quanto inusitadas. Uma delas é Linda Perry, ex-líder do nada saudoso Four Non Blondes, que co-assina N faixas. A outra é a presença de Bernie Taupin, letrista do Elton John. Aí vale aquele velho ditado: diga-me com quem andas e eu te direi quem és. Pior para Linda e Bernie...

Mas não adianta mudar de assunto: o disco segue ruim até o fim. Ruim de doer. Para quem ainda tinha dúvidas sobre as debilidades vocais da mãe de Francês Bean Cobain, a faixa “Plague”. Quando você pensa que ela já foi no limite mais baixo do vocal bagaceira, ela surpreende cada vez mais. Courtney berra, desafina, rasga a traquéia. O ouvinte pede paz.

“Hello” é uma pequena trégua, um rockinho popish e na medida pra pogar. É o máximo que a ex-primeira dama do grunge pode fazer. Não adianta pedir mais. E ela sabe disso. Tanto é que a faixa seguinte, “Zeppelin Song”, volta para o (baixo) nível de antes. É de lá que sai o verso mais imbecilmente surreal dos últimos anos: “Você aceitaria uma ligação a cobrar do Robert Plant?”. Menos, Courtney, menos. E só para terminar em pequeno estilo, uma baladinha do pior naipe: “Never Gonna Be The Same”. Sintam o drama: “O sol se pôs ontem / E não vai nascer amanhã”. Até a pequena Frances faz algo melhor.

Resumindo a ópera, não dá pra qualificar essa pepita como algo acima de “deprimente” ou “constrangedor”. Nada mais digno para quem subiu na vida às custas de um mito, para quem esteve à frente de umas maiores enganações da música pop (o Hole), para quem sobrevive na mídia através de escândalos e ceninhas. Courtney, faça uma coisa mais útil na sua vida: vá pra casa cuidar da sua filha!

 

 

 

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