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Beagá, 24 de novembro de 2003 d.C.
 

Strokes
Room On Fire

Por Caboclo Alaranjado
 

Antes que vocês, indies de plantão ou pupilos do Lúcio Ribeiro, encham a minha caixa de e-mails com mensagens ofensivas, deixem-me fazer uma explanação. É com muito pesar que escrevo um texto sobre os Strokes para esta lixeira. Porque eu, assim como vocês, pirei com Is This It? em 2001 e acreditei que os filhinhos-de-papai de Nova Iorque seriam o grande nome desta geração do rock. Mas se uma banda precisa fazer discos impecáveis atrás de discos impecáveis para chegar a esse nível, os Strokes se ferraram cedo demais.

Quando se coloca Room On Fire para tocar, dá aquela sensação de estar se ouvindo um disco de vinil em rotação abaixo do normal. Para uma banda que esbanjava rapidez no álbum de estréia, os Strokes diminuíram bruscamente a marcha. Todas as músicas dão a impressão de que poderiam ser um pouco mais rápidas. Ou até muito mais rápidas. Outra coisa bastante incensada em Is This It? foi a sujeira no som e aquela produção que teve a intenção de soar tosca sem ser tosca. Infelizmente, isso também é coisa do passado. E assim, sem rapidez e sem sujeira, os Strokes não têm graça.

O disco começa com a frase mais mentirosa do rock contemporâneo. "Eu quero ser esquecido / e não quero ser lembrado", canta Julian Casablancas em "Whatever Happened". Ora, Casablanquinhas, quem você quer enganar? Se o problema estivesse só nessas duas linhas, seria café pequeno. Mas não. A melodia dessa faixa é até boa, só que a lentidão dá agonia. A banda parece tocar sem tesão. A coisa até melhora em "Reptilia", que lembra bem mais os "velhos" Strokes. Mas o disco pula para "Automatic Stop" e você se pergunta: ainda é a mesma banda? No pior sentido da pergunta. Parece um reggae estilizado, com uma batida desleixada. No pior sentido da palavra.

Aí vem o primeiro single, "12:51", que não deixa de ser interessante por ser lenta. Tem acordes grudentíssimos e uma melodia bem bacana tocada num efeito de guitarra que parece simular o som de teclado. O problema é o refrão sofrível, que estraga tudo. A faixa seguinte, "You Talk Way Too Much", é a mais problemática no quesito "andamento preguiçoso". Nas vezes em que o refrão entra, dá a impressão que a música vai ficar mais lenta do que já é. Mais curioso que isso só a esquisitice que é a faixa seguinte, "Beetween Love And Hate". Ela começa com um loop de bateria meio disco, mas desemboca num refrão com uma guitarrinha country.

Já passamos da metade do disco e só agora, na sétima faixa, encontramos uma canção realmente digna de estar em Is This It?: "Meet Me In The Bathroom", que parece uma versão 2.0 do hit "Hard To Explain". Uma pena que ela seja seguida por uma música broxante, sem exagero. "Under Control" é tão constrangedora que nem merece receber muitos caracteres neste texto. Depois vem "The Way It Is", que até impressiona logo de cara com as guitarras sujas, mas decepciona de vez com a melodia vocal que lembra (pasmem) o refrão de "Nem Cinco Minutos Guardados", dos Titãs. Credo.

Chegamos à reta final e não há nada que salve o disco de uma avaliação melhor que sofrível. Aí Casablanquinhas e companhia resolvem chutar o balde com "The End Has No End", que lembra o pior da música pop nos anos 80, com uma programação vagabunda de bateria e um tecladinho cretino. Ainda bem que "I Can´t Win", a faixa de encerramento, é uma pérola que pode ser pinçada no meio de tanta ruindade.

Felizmente, os Strokes são uma banda jovem que ainda tem muito tempo para exercitar o talento - e Is This It? é uma prova de que eles são realmente talentosos. Só o tempo para que eles se livrem da péssima impressão deixada por Room On Fire. Que venha o próximo disco, por favor, para que possamos tirar uma prova definitiva.

 

 

 

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