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Fiz
parte da "comissão" que escolheu os indicados para o TROFÉU ABACAXI
ATÔMICO 2003 e posso dizer que, no ano passado, muita coisa ruim
eu tive de agüentar. Mas acho que nada se compara com Aqui ou
em Qualquer Lugar, do Tihuana, que já tem várias indicações
asseguradas para a edição 2004 do nosso "prêmio". É muito fácil
chegar a tal conclusão.
É tudo
muito ruim: letras, melodias, vocal... A única coisa boa no disco
é sua duração: 37 minutos, poderia ser pior, convenhamos. Eu passei
mal quando ouvi o esdrúxulo Discotecagem Pop Variada, do
Jota Quest. Acho que serviu como uma espécie de vacina, pois continuo
gozando de boa saúde mesmo depois de escutar agora este álbum lastimável.
Faixa
por faixa, compreendam este novo "clássico" do pop/rock nacional:
"Bote
Fé": só isso? Pra fazer algo que presta, é necessário muito mais.
Confira a letra e o refrão: "Quem sabe o que quer, nunca fica para
trás / Bote fé! / Bote fé se cê for capaz". Genial, não? E mais:
"Só pode falar só quem sentiu a dor / Só quem sentiu a dor é quem
pode falar". Acho que qualquer criança consegue escrever isso, não?
"Fecho
os Olhos": deveria se chamar "Tapem os ouvidos", mas tudo bem. É
uma balada bem Jota Quest. Letra bem sentimentalóide que não significa
absolutamente nada: "Fecho os olhos / Não consigo entender / Por
que as coisas nunca são / Como deveriam ser". A guitarra lembra
uma outra canção... Lembra Travis, mas quem são eles pra ouvir Travis?
"Vai
Vendo": o vocal é o destaque, negativo. Reparem no início: "Eu tô
sempre tranqüilo / É isso ou aquilo...". E mais: "Rema, rema, bate
o pé / Levantou, ficou de pé?". Calma, ainda tem o refrão: "Na,
na, na / Vâmo fazer... Na, na / Pra depois... Na, na na". Se isso
for um discurso de maconheiro com síndrome de perseguição, essa
erva é ruim! Bad trip!
"Difícil
Decidir": rock que lembra os atuais Raimundos. A letra é bem "criativa":
"Pra mim tá tudo mal / Pra mim tá tudo bem / Pra mim tá tudo igual".
"Faz
Você Pensar": essa realmente faz você pensar que poderia estar fazendo
algo muito mais útil, mais inteligente, do que ouvir este disco.
Esta faixa é um rockzinho bem "Charlie Brown Jr. espiritual", como
a "paz de Deus em sua casa", com um vocal bem Rodox. Mais um riff
de guitarra que te faz lembrar outra banda...
"Daquele
Jeito": nem o pior reggae do Natiruts (banda que já é ruim) seria
tão ridículo. O vocal é uma piada, muito engraçado. Já que a banda
tem muita dificuldade em escrever em português, eles apelaram pro
inglês, com um papo fraco pró-cannabis que não convence ninguém:
"Milhas e milhas pra dizer I want to get high / Trilhas e trilhas
que me levem pra você... So high!". Nota: "high" rima com "high"
e "milhas" rima com "trilhas"!!!
"A
Roda": quando o Chorão do Charlie Brown Jr. "filosofou" que "filósofo
de cu é rola" ("Papo Reto"), pensei que nada superaria tão profunda
(ops!) frase. Mas vem o Tihuana e tasca: "Como dizia minha vó, uma
guerreira na vida: quem não tem cu não faz trato com pica". Pobre
vovó. Ah, o vocal é uma atração à parte. Aliás, a letra é tão ruim
que, em um esforço incalculável, vou transcrevê-la na íntegra, me
desculpem:
"Em
terra de cego quem tem um olho é rei / Coragem não falta, abre a
roda, eu cheguei! / Como dizia minha vó, uma guerreira na vida:
quem não tem cu não faz trato com pica / A vida é como um furacão,
não tem perdão não / É pra quem tem peito, peito, mas com o pé no
chão / Quem pode, pode... Não pode, então: 'tudo pela orde' / A
vida é uma roda-viva, a vida, eu quero ver quem vai entrar... /
Deixa o circo pegar fogo e vai / Pra um lado, pra outro / Será que
eu tô ficando louco? / Já percebi que a coisa tá difícil, como tá
difícil / Vamo parar com isso, não acredito nisso / Porque si estoy
com mis hermanos / Todos comemoramos / Si vienen, los bajamos /
Tô aqui a 'milianos' / Casa de ferreiro, espeto é de pau / Fazer
o que eu faço nem sempre é normal / Toda vida tem um começo, um
começo meio e fim / A vida é uma roda-viva, a vida, eu quero ver
quem vai entrar / Vâmo abrir a roda!!! / Quero ver quem vai entrar..."
Detalhe:
o Tihuana possui 5 compositores!
"Tentaram":
vocês conhecem aquelas bandas de reggae que fazem um baita sucesso
na praia graças a uma, apenas uma, música? Tipo aquele grupo, o
Akundum? Aqui, o Tihuana tenta fazer parecido. As letras continuam
"afiadas": "Cortaram o meu gás / Cortaram minha luz / Cortaram os
sinais / E a minha fé por Jesus / Cortaram muito mais...". Deus
me livre!
"Tá
na Mão": além de plagiar outras bandas, o Tihuana também copia suas
próprias letras. Neste rock pseudo-intelectual, a banda ataca: "Se
pá é ratatá, quer me desmoralizar / Mas esse muro é de concreto
e é ruim de derrubar". E eles ainda se inspiram em frases de carro
como: "Sai! Sai! Sai da minha reta / Nóis acelera, nóis capota mas
num breca!". Criativos, não?
"Papai
Noel": pobre velhinho... A banda destruiu um dos clássicos do punk
nacional, dos Garotos Podres. Já foi difícil agüentar o Tihuana
ver duendes. Agora, então...
"Desesperado":
só dura 25 segundos. Sem dúvida, a "melhor" faixa do álbum. Nessa
altura, o título da música retrata bem a situação do ouvinte.
"Aqui
ou em Qualquer Lugar": mais uma seqüência de palavras absolutamente
redundantes. Um discurso "otimista" que preenche cinco linhas no
encarte, mas se espremer não caberá em uma. O som continua previsível,
que só vai empolgar os moleques de até 15 anos de idade (mental).
Acaba
a música. Acaba o disco? Ainda não. A banda, que já foi processada
por plágio, gravou um diálogo entre eles que transcrevo aqui:
- "Sem
autorização, o quê que acontece?
- Mais um processo. É mais um processo e foda-se.
(risadas)
- Porra!
- (risadas)
- Ah, mais um... Menos um...
- Pode crer".
Longa
vida ao Tihuana. A lixeira agradece.
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