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Sim,
o Charlie Brown Jr. é a maior banda nacional. Não
tem o que dizer, a gente só tem que bater palmas para os
caras: eles conseguiram. Vendem muitos discos, têm muitos
fãs (os xingamentos que a gente recebe deles já dão
uma idéia), assinaram um baita contrato com a Coca-Cola,
foram os grandes vencedores do concurso anual de clipes da MTV -
o famigerado VMB. Não tem o que discutir, são a maior
banda do Brasil. Bom, eu disse a maior, e não a melhor. Bem
entendido. Mas em se tratando de rock brasileiro, grande coisa...
Eles
conseguiram e pronto. E têm méritos. Eles falam coisas
que "a galera" quer ouvir. E "a galera" quer
ouvir besteiras. Eles simplesmente dão à massa o que
a massa quer. Suas letras contém discursos machistas, mas
também de revolta contra injustiças, mensagens "críticas"
ao sistema, contam histórias de paqueras ou problemas individuais
- de tudo um pouco do universo adolescente. Tem um pequeno detalhe,
Chorão e companhia já passaram dos trinta e continuam
falando como aborrescentes de 15, 16 anos. Claro, pra se aproximarem
mais de seu público. Mas, definitivamente, se "o jovem no
Brasil nunca é levado a sério", chego à conclusão de que isso acontece
em grande parte por causa do sucesso de bandas como o Charlie Brown
Jr.
E por
que a maior banda do Brasil foi fazer um acústico? Que eu
saiba, esse troço da MTV só serve pra tirar gente
da tumba (Titãs, Paralamas, Kid Abelha, Marina Lima...),
ou seja, pra tentar levantar a moral (e aumentar a conta bancária)
de artistas e bandas em plena e irreversível decadência.
Tudo bem, a questão é grana, mesmo. Grana pra MTV,
grana pra gravadora. E todos ficam felizes. E todo mundo sabe que
o mercado fonográfico está na pindaíba. Mas
não sei se o Charlie Brown tem mais balas na agulha para
os próximos álbuns. Primeiro, é que o Chorão
se casou, como bem lembrou o Indiegesto, e vai ser meio complicado
escrever letras edificantes como por exemplo "Harém".
Segundo, haja lixo pra encher discos religiosamente todo o ano.
Já foram cinco petardos, vamos ver se ano que vem tem mais
um álbum com inéditas pra manter a banda na crista
da onda.
E o
que dizer do Acústico? Violões altos, muito barulho,
o que realmente diferencia de outros acústicos anteriores.
E os berros do Chorão se destacam, com suas mensagens tolas
que muita gente acha o máximo porque nunca deve ter ouvido
outra coisa. Na verdade, o Charlie Brown Jr. tem consciência
de que está tudo uma merda na sociedade, e fica enchendo
o saco repetindo sempre "tá tudo uma merda, tá
tudo uma merda". Que legal, agora contem outra. Mas por que
tá tudo uma merda? E são os velhos bordões,
a culpa é dos políticos, dos burgueses e que tudo
"se foda", então. "Não me pergunte
o que eu quero da vida / eu tenho sede demais". É claro
que não dá pra perguntar para alguém que parece
não ter nada na cabeça o que ele quer da vida, porque
esse cara simplesmente não vai saber o que responder.
Escutem,
meninos: "Ame seu pai, mesmo se o seu pai for um porco capitalista".
Não dá, gente. Fala sério. Será que eu tenho que repetir mil vezes
as mesmas coisas para artistas diferentes? Até quando o Chorão vai
continuar escrevendo e cantando maravilhas proibidas para maiores
de 15 anos? E quando é que ele vai começar a raciocinar como alguém
que já é maior de idade? Dá pra fazer um concurso, se perguntar
quantas vezes ele repete o bordão "que se foda" durante esse edificante
show. Isso é efeito de testosterona, mais nada. Toda a rebeldia
do Charlie Brown Jr. é aquela rebeldia sem causa, bem inserida
e incorporada pelo sistema que ele tanto critica. Dá resultado,
vende muito bem e o discurso é devidamente absorvido por
uma massa completamente acrítica.
E essa
discussão toma rumos inquietantes quando a gente vê
a ridícula propaganda da Coca-cola, que representa tudo o
que o Chorão e sua gangue criticaram todos esses anos. Uma
multinacional capitalista que produz bebida para burgueses (já
viram Coca-cola na mesa de pobre? Só no natal e olhe lá,
a galera da periferia bebe é guaraná Del Rey®!),
com uma cândida mensagem: "olha o estilo..." Recado
lógico, não seja vacilão, consuma e não
discuta. Pois é. E aí os caras cantam contra a injustiça,
os ricos, porcos capitalistas e o diabo a quatro, e entram direitinho
no esquema que tanto "abominam". Aí eu pergunto:
a maior banda de rock do Brasil se presta a esse papel ridículo
e como é que dá pra levar a sério o jovem no
Brasil?
Claro
que um acústico que se preze tem que ter convidados especiais:
no caso, um desperdício que é a talentosa Negra Li
- o duo dela com o Chorão é de chorar mesmo. Marcelo
D2 participa de "Samba Makossa" mostrando que as coisas
podem sempre piorar e dando medo sobre o que vem por aí em
se tratando de sua carreira. O grupo RZO também entra nessa,
Chorão tenta um flerte com o hip-hop, mas sem autenticidade
- na melhor das hipóteses, muita ingenuidade. Marcelo Nova
aparece na lamentável "Hoje", cantando as bobagens
de costume.
Dá
gosto ver o público cantando em coro a maravilhosa "Pato Reto",
em que Chorão, como todo adolescente de trinta e poucos anos revoltado
que se preze, desfere toda a sua fúria contra a podridão da sociedade.
Beleeeeeeza. "Eu quero que se foda essa porra de sociedade", que
consome Coca-Cola... ôps. "Não sou como você, filho da puta viadinho",
que anda na moda usando aqueles enfeites ridículos de plástico da
Coca-Cola... ôps, de novo. Viva o Chorão, o porta-voz da juventude
desse início de milênio! E eu vou sair correndo pro meu abrigo anti-nuclear,
escavado a uns 15 metros de profundidade. Enquanto isso, lá fora,
a galera irada estará cantando: "Eu odeio hipocrisia / mas que se
foda... Charlie Brown Jr. na veia!!!"
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