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Beagá, 10 de novembro de 2003 d.C.
 

Charlie Brown Jr.
Acústico MTV

Por Cajabis Cannabis
 

Sim, o Charlie Brown Jr. é a maior banda nacional. Não tem o que dizer, a gente só tem que bater palmas para os caras: eles conseguiram. Vendem muitos discos, têm muitos fãs (os xingamentos que a gente recebe deles já dão uma idéia), assinaram um baita contrato com a Coca-Cola, foram os grandes vencedores do concurso anual de clipes da MTV - o famigerado VMB. Não tem o que discutir, são a maior banda do Brasil. Bom, eu disse a maior, e não a melhor. Bem entendido. Mas em se tratando de rock brasileiro, grande coisa...

Eles conseguiram e pronto. E têm méritos. Eles falam coisas que "a galera" quer ouvir. E "a galera" quer ouvir besteiras. Eles simplesmente dão à massa o que a massa quer. Suas letras contém discursos machistas, mas também de revolta contra injustiças, mensagens "críticas" ao sistema, contam histórias de paqueras ou problemas individuais - de tudo um pouco do universo adolescente. Tem um pequeno detalhe, Chorão e companhia já passaram dos trinta e continuam falando como aborrescentes de 15, 16 anos. Claro, pra se aproximarem mais de seu público. Mas, definitivamente, se "o jovem no Brasil nunca é levado a sério", chego à conclusão de que isso acontece em grande parte por causa do sucesso de bandas como o Charlie Brown Jr.

E por que a maior banda do Brasil foi fazer um acústico? Que eu saiba, esse troço da MTV só serve pra tirar gente da tumba (Titãs, Paralamas, Kid Abelha, Marina Lima...), ou seja, pra tentar levantar a moral (e aumentar a conta bancária) de artistas e bandas em plena e irreversível decadência. Tudo bem, a questão é grana, mesmo. Grana pra MTV, grana pra gravadora. E todos ficam felizes. E todo mundo sabe que o mercado fonográfico está na pindaíba. Mas não sei se o Charlie Brown tem mais balas na agulha para os próximos álbuns. Primeiro, é que o Chorão se casou, como bem lembrou o Indiegesto, e vai ser meio complicado escrever letras edificantes como por exemplo "Harém". Segundo, haja lixo pra encher discos religiosamente todo o ano. Já foram cinco petardos, vamos ver se ano que vem tem mais um álbum com inéditas pra manter a banda na crista da onda.

E o que dizer do Acústico? Violões altos, muito barulho, o que realmente diferencia de outros acústicos anteriores. E os berros do Chorão se destacam, com suas mensagens tolas que muita gente acha o máximo porque nunca deve ter ouvido outra coisa. Na verdade, o Charlie Brown Jr. tem consciência de que está tudo uma merda na sociedade, e fica enchendo o saco repetindo sempre "tá tudo uma merda, tá tudo uma merda". Que legal, agora contem outra. Mas por que tá tudo uma merda? E são os velhos bordões, a culpa é dos políticos, dos burgueses e que tudo "se foda", então. "Não me pergunte o que eu quero da vida / eu tenho sede demais". É claro que não dá pra perguntar para alguém que parece não ter nada na cabeça o que ele quer da vida, porque esse cara simplesmente não vai saber o que responder.

Escutem, meninos: "Ame seu pai, mesmo se o seu pai for um porco capitalista". Não dá, gente. Fala sério. Será que eu tenho que repetir mil vezes as mesmas coisas para artistas diferentes? Até quando o Chorão vai continuar escrevendo e cantando maravilhas proibidas para maiores de 15 anos? E quando é que ele vai começar a raciocinar como alguém que já é maior de idade? Dá pra fazer um concurso, se perguntar quantas vezes ele repete o bordão "que se foda" durante esse edificante show. Isso é efeito de testosterona, mais nada. Toda a rebeldia do Charlie Brown Jr. é aquela rebeldia sem causa, bem inserida e incorporada pelo sistema que ele tanto critica. Dá resultado, vende muito bem e o discurso é devidamente absorvido por uma massa completamente acrítica.

E essa discussão toma rumos inquietantes quando a gente vê a ridícula propaganda da Coca-cola, que representa tudo o que o Chorão e sua gangue criticaram todos esses anos. Uma multinacional capitalista que produz bebida para burgueses (já viram Coca-cola na mesa de pobre? Só no natal e olhe lá, a galera da periferia bebe é guaraná Del Rey®!), com uma cândida mensagem: "olha o estilo..." Recado lógico, não seja vacilão, consuma e não discuta. Pois é. E aí os caras cantam contra a injustiça, os ricos, porcos capitalistas e o diabo a quatro, e entram direitinho no esquema que tanto "abominam". Aí eu pergunto: a maior banda de rock do Brasil se presta a esse papel ridículo e como é que dá pra levar a sério o jovem no Brasil?

Claro que um acústico que se preze tem que ter convidados especiais: no caso, um desperdício que é a talentosa Negra Li - o duo dela com o Chorão é de chorar mesmo. Marcelo D2 participa de "Samba Makossa" mostrando que as coisas podem sempre piorar e dando medo sobre o que vem por aí em se tratando de sua carreira. O grupo RZO também entra nessa, Chorão tenta um flerte com o hip-hop, mas sem autenticidade - na melhor das hipóteses, muita ingenuidade. Marcelo Nova aparece na lamentável "Hoje", cantando as bobagens de costume.

Dá gosto ver o público cantando em coro a maravilhosa "Pato Reto", em que Chorão, como todo adolescente de trinta e poucos anos revoltado que se preze, desfere toda a sua fúria contra a podridão da sociedade. Beleeeeeeza. "Eu quero que se foda essa porra de sociedade", que consome Coca-Cola... ôps. "Não sou como você, filho da puta viadinho", que anda na moda usando aqueles enfeites ridículos de plástico da Coca-Cola... ôps, de novo. Viva o Chorão, o porta-voz da juventude desse início de milênio! E eu vou sair correndo pro meu abrigo anti-nuclear, escavado a uns 15 metros de profundidade. Enquanto isso, lá fora, a galera irada estará cantando: "Eu odeio hipocrisia / mas que se foda... Charlie Brown Jr. na veia!!!"

 

 

 

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