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Beagá, 31 de março de 2003 d.C.
 

Tribalistas
Tribalistas

Por Cajabis Cannabis
 

À primeira audição de Tribalistas, segue-se uma sensação de total estranheza. O álbum do trio Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown é muito esquisito. Em primeiro lugar, porque as intenções dos autores não ficam muito claras: pra quê fizeram esse disco? Pra vender? Pra subverter a MPB, lançando um novo movimento musical? As duas coisas ao mesmo tempo?

Bem, em primeiro lugar parece que o trio calafrio de nossa música almejava lançar um produto vendável e, ao mesmo tempo, "revolucionário", que marcasse a história da música brasileira como o tropicalismo, a bossa-nova, o clube da esquina. Como se "revoluções" ou movimentos musicais fossem metodicamente programados e ensaiados. Maior pretensão, só se o disco fosse todo cantado em inglês com direito a lançamento mundial.

Por um lado, a famosa e já crássica "Já Sei Namorar" e a melodia repetitiva e simples de "Velha Infância" são tentativas explícitas de se chegar ao grande público. Entrementes, a poética de "Um a Um" e "Carnalismo" tenta convencer aos poetas de boteco que estamos diante do pós-pós-modernismo, um estilo completamente desprovido de signficado. Niilismo exacerbado? Não, preguiça mesmo, total falta de inspiração.

Se você procura uma palavra para resumir este álbum, ei-la: picaretagem. Este é, com certeza, o disco mais picareta da história. Se os tribalistas queriam uma revolução, estão de parabéns, afinal de contas conseguiram revolucionar o conceito do que seja a picaretagem musical. Marisa Monte tentou dar uma forcinha pra Arnaldo Antunes e, principalmente, pro Carlinhos Brown, que estavam meio sumidos da mídia e cujos discos anteriores tiveram uma repercussão ridícula (Brown foi mandado embora pela sua gravadora); fizeram umas letras completamente nonsense, que dispensam maiores comentários ("Segredos de liquidificador"?), e compuseram músicas banais, com melodias fracas e harmonias pouco inspiradas.

Mas ao tentarem popularizar a cabecice, os três poetas entraram num verdadeiro beco sem saída, pois conseguiram produzir um verdadeiro elefante branco musical: um disco confuso, que não quer dizer nada, não propõe nada e não tem nenhum objetivo, a não ser o comercial - e é essa a revolução a que eles se propõem? Que contradição é essa? Revolucionar é glorificar a inutilidade das palavras e da música? É um verdadeiro retrocesso, isso sim, indica mais um parnasianismo pós-moderno da pior qualidade: palavras inúteis disparadas aleatoriamente, sem nenhum bom-senso.

E nem os vocais de Marisa Monte salvam esse Titanic musical. A cantora inegavelmente possui uma boa técnica, embora nunca tivesse sido uma intérprete muito acima do mediano; mas aqui suas interpretações não acrescentam nada a coisa alguma. A voz grave de Arnaldo Antunes nem serve como contraponto, sendo muito mal utilizada no decorrer do disco.

Enfim: a faixa "Tribalistas", que encerra o álbum, resume bem todo o espírito tribalista - ou melhor, a ausência de qualquer espírito tribalista. Os tribalistas são um bando de oportunistas hipócritas, que não tomam partido de nada e nadam conforme a corrente, sendo levados pela maré. Não precisam ter razão, porque não têm opinião, e ainda estufam o peito pra falar que são completamente ocos por dentro, parece que o cérebro dos tribalistas foi inutilizado para sempre. O tribalismo é, portanto, a expressão sublime de uma música decadente, elitista, desinteressada e omissa, é um movimento que sintetiza bem o estado atual de nossa MPB. Não é à-toa que o disco foi escolhido como o melhor do ano pela associação brasileira de críticos lambedores de saco - detalhe que o resultado foi anunciado antes mesmo do ano de 2002 acabar...

 

 

 

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