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À primeira
audição de Tribalistas, segue-se uma sensação de total estranheza.
O álbum do trio Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown
é muito esquisito. Em primeiro lugar, porque as intenções dos autores
não ficam muito claras: pra quê fizeram esse disco? Pra vender?
Pra subverter a MPB, lançando um novo movimento musical? As duas
coisas ao mesmo tempo?
Bem,
em primeiro lugar parece que o trio calafrio de nossa música almejava
lançar um produto vendável e, ao mesmo tempo, "revolucionário",
que marcasse a história da música brasileira como o tropicalismo,
a bossa-nova, o clube da esquina. Como se "revoluções" ou movimentos
musicais fossem metodicamente programados e ensaiados. Maior pretensão,
só se o disco fosse todo cantado em inglês com direito a lançamento
mundial.
Por
um lado, a famosa e já crássica "Já Sei Namorar" e a melodia repetitiva
e simples de "Velha Infância" são tentativas explícitas de se chegar
ao grande público. Entrementes, a poética de "Um a Um" e "Carnalismo"
tenta convencer aos poetas de boteco que estamos diante do pós-pós-modernismo,
um estilo completamente desprovido de signficado. Niilismo exacerbado?
Não, preguiça mesmo, total falta de inspiração.
Se
você procura uma palavra para resumir este álbum, ei-la: picaretagem.
Este é, com certeza, o disco mais picareta da história. Se os tribalistas
queriam uma revolução, estão de parabéns, afinal de contas conseguiram
revolucionar o conceito do que seja a picaretagem musical. Marisa
Monte tentou dar uma forcinha pra Arnaldo Antunes e, principalmente,
pro Carlinhos Brown, que estavam meio sumidos da mídia e cujos discos
anteriores tiveram uma repercussão ridícula (Brown foi mandado embora
pela sua gravadora); fizeram umas letras completamente nonsense,
que dispensam maiores comentários ("Segredos de liquidificador"?),
e compuseram músicas banais, com melodias fracas e harmonias pouco
inspiradas.
Mas
ao tentarem popularizar a cabecice, os três poetas entraram num
verdadeiro beco sem saída, pois conseguiram produzir um verdadeiro
elefante branco musical: um disco confuso, que não quer dizer nada,
não propõe nada e não tem nenhum objetivo, a não ser o comercial
- e é essa a revolução a que eles se propõem? Que contradição é
essa? Revolucionar é glorificar a inutilidade das palavras e da
música? É um verdadeiro retrocesso, isso sim, indica mais um parnasianismo
pós-moderno da pior qualidade: palavras inúteis disparadas aleatoriamente,
sem nenhum bom-senso.
E nem
os vocais de Marisa Monte salvam esse Titanic musical. A cantora
inegavelmente possui uma boa técnica, embora nunca tivesse sido
uma intérprete muito acima do mediano; mas aqui suas interpretações
não acrescentam nada a coisa alguma. A voz grave de Arnaldo Antunes
nem serve como contraponto, sendo muito mal utilizada no decorrer
do disco.
Enfim:
a faixa "Tribalistas", que encerra o álbum, resume bem todo o espírito
tribalista - ou melhor, a ausência de qualquer espírito tribalista.
Os tribalistas são um bando de oportunistas hipócritas, que não
tomam partido de nada e nadam conforme a corrente, sendo levados
pela maré. Não precisam ter razão, porque não têm opinião, e ainda
estufam o peito pra falar que são completamente ocos por
dentro, parece que o cérebro dos tribalistas foi inutilizado para
sempre. O tribalismo é, portanto, a expressão sublime de uma música
decadente, elitista, desinteressada e omissa, é um movimento que
sintetiza bem o estado atual de nossa MPB. Não é à-toa que o disco
foi escolhido como o melhor do ano pela associação brasileira de
críticos lambedores de saco - detalhe que o resultado foi anunciado
antes mesmo do ano de 2002 acabar...
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