Beagá, Quarta, 12 de dezembro de 2001 d.C.

The Kinks
The Village Green Preservation Society
Castle Records, 1968

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

Quando no início dos anos 60 os irmãos Ray e Dave Davies resolveram montar a banda The Ravens e lançaram seu primeiro e inofensivo single "Long Tall Sally" (uma versão da música de Little Richards), nunca poderiam imaginar fazer um álbum como Village Green. Pois é: o tempo passou, os caras mudaram de nome e de formação e descobriram, como vários outros músicos da época, que existiam substâncias que alteravam o estado da mente a tal ponto que afetava diretamente o modo de criação destes artistas. Este disco é o exemplo claro de como os Kinks foram pegos em cheio na onda lisérgica que dominava o momento. Na verdade, este disco pode ser considerado o Sgt. Peppers de Ray Davies, que compôs todas as faixas gravadas nesta obra-prima da história da música pop.

Polêmicas não faltaram no caminho do Kinks, mas uma delas afetou diretamente toda a sua carreira. No verão de 1965, a banda foi proibida de tocar nos Estados Unidos por motivos não revelados, mas a verdade era que o som pesado dos londrinos aliado às sátiras sociais presentes nas letras de Ray Davies era um pouco demais para os americanos. Em 68, a banda resolve criar mais uma controvérsia no meio musical: lançam um álbum que evoca a tristeza pelo esquecimento das tradições britânicas do passado. Village Green foi um melancólico, saudososo e sensível lamento feito por ingleses fãs de figuras como Sherlock Holmes, Drácula, Pato Donald, Vaudeville e Fu Manchu e que ainda tomavam, de quebra, alguns ácidos para fazer de toda essa mistura um colorido exótico e viajandão.

A faixa título do disco já diz tudo: "Village Green" é uma homenagem aos ídolos de Ray Davies e toda sociedade britânica - resposta para o conservadorismo americano? Mas quem era (ou é) mais tradicional que os ingleses? Talvez colocar esta discussão em pauta na época tenha sido o grande mérito de Ray & Cia: o Kinks conseguiu aliar um discurso completamente amalucado com um som de alta qualidade, e além disso causou estranhamento, principalmente dos críticos americanos, que odiaram e desceram o sarrafo no álbum. As letras de Davies estavam cada vez mais introspectivias e melancólicas. Ele criava estórias da sua cabeça que lembravam aqueles desenhos animados da década de 50, assim fez com "Phenomenal Cat" e "Animal Farm", duas das faixas mais belas do disco e da carreira dos londrinos. Outra música impressionantemente fantástica deste disco é "Big Sky": com uma bateria que lembra The Who e uma viola de doze cordas bem afinada, os Kinks mostravam o auge da sua carreira. A banda conseguia fazer seu disco mais arriscado; depois de lançar álbuns bons mas um pouco contidos, o Kinks resolveu apostar suas fichas num disco experimental que poderia não ser entendido por muitos, mas que foi significativo demais para os anos 60.

Os quatro jovens Raymond Davies (guitarrista e vocalista), David Davies (guitarrista e vocalista), Michael Avory (baterista) e Peter Quaife (baixista) conseguiram, como poucos, aliar com perfeição em um só disco o blues, o folk, o country com o pop lisérgico. A viagem de Ray Davies foi uma das mais bem sucedidas do meio musical. Em termos comerciais, Village Green pode ter sido um grande fracasso mas sua contribuição para a música foi indiscutível e mostrou que trabalhos feitos à margem das grandes promoções podem sim fazer história.

Onde navegar:

http://www.thekinks.com/ (site não-oficial com a história da banda e discografia).

http://www.davedavies.com/ (site oficial do guitarrista Dave Davies).

http://www.raydavies.com/new/ (site oficial do vocalista Ray Davies).

http://kinks.it.rit.edu/ (site não-oficial com letras, discografia, informações diversas, fãs-clubes...).

http://www.kinks.de/ (site de fãs alemães - fotos, discografia, história, etc).

Madness

 

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