Beagá, Quarta, 05 de dezembro de 2001 d.C.

Os Beatles pela metade

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

Depois de John Lennon ter ido desta para melhor há quase 21 anos, agora foi a vez do mais gente fina dos Beatles ir acompanhá-lo no além. George Harrison foi um dos guitarristas mais inteligentes da história, o sujeito tocava muito bem e tinha uma vantagem sobre a dupla Lennon e McCartney: era na dele, não queria e nem precisava aparecer. A discrição foi sempre a marca de Harrison - ali, colocado mais de lado no palco, enquanto John e Paul duelavam para ver quem era mais estrela.

Porém, não se pode cair no erro tão comum de fazer do cara um herói só porque ele morreu, não podemos transformar alguém em gênio por piedade e da noite para o dia. É bom lembrar que a carreira solo de George Harrison foi muito chata e entediante. Outra coisa: aquela fase indiana dele com suas cítaras hipongas foi simplesmente de doer. Assim como todo ser humano, Harrison deu suas mancadas e é bom não se esquecer que, sem os Beatles, fatalmente ele não passaria de um músico absolutamente normal. Na verdade, isso vale para os outros componentes da banda: a química entre eles foi o grande mérito dos rapazes de Liverpool. Ninguém era absolutamente um ser de outro mundo, eles simplesmente se combinaram assim como uma mistura homogênea que estudamos nas árduas épocas colegiais em ciências.

Se fosse fazer uma lista das melhores músicas de George Harrison nos Beatles, gastaria fatalmente muitas linhas e tempo. Resolvi então escolher duas que, na minha opinião, são irretocáveis. A primeira, do álbum Help, é "I Need You", música fabulosa para quem está com o coração na mão, ali, na marca do pênalti; letra e música simplesmente incríveis misturam a suavidade e o ar pop que marcaram a trajetória dos Beatles. A outra é simplesmente do melhor disco dos ingleses mais famosos que Jesus Cristo, o White Album: "While My Guitar Gently Weeps" é uma das melhores faixas do álbum, portanto das melhores dos Beatles. Nesta música, George mostra o auge da sua inspiração, tocando como nunca - e não podemos nos esquecer da letra, que está acima da média dos seus companheiros de banda.

Enfim: se George Harrison não foi nenhum mega, ultra, hiper músico, ele pelo menos foi um cara que honrou seu nome mesmo depois que deixou a banda e "viajou na batatinha", nunca falou bobagens e sempre foi muito tranqüilo. Agora só nos restam Paul e Ringo: sobraram justamente os dois maiores malas da banda, fazer o quê? A morte chega sem avisar e não escolhe se o cara é bacana ou não. Pra mim, é o fim dos Beatles na Terra, só nos restam boas lembranças na memória e dois chatos de plantão para dar entrevistas e fazer obras de caridade. Triste fim da maior banda do mundo.

Especial George Harrison

 

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