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Beagá, 21 de novembro de 2005 d.C.
 
Earth
Hex: or Printing in the Infernal Method
Por John Gracinha
 

Há algum tempo, antes de começar a escrever esta resenha, enviei por e-mail algumas perguntas pro Dylan Carlson, guitarrista e fundador do Earth. Nada muito complexo, foram três ou quatro questões do tipo “O que você acha das bandas tocarem hoje o som pra qual ninguém dava a mínima quando vocês faziam em 1992?”, “A banda voltar é oportunismo ou Justiça divina?” e “Você sabe o que é drone?”. A resposta não veio, o que reforçou minha impressão de que o mano é tão desencanado com autopromoção quanto as progressões de acordes nas músicas da banda.

No disco novo, o abandono da estrutura musical padrão continua, mas algo mudou. Carlson já foi bem mais largado com o som, como em Pentastar (In the Style of Demons), sem mencionar a demora de nove anos pra lançar um disco de material inédito. Desta vez, há foco. Mesmo as músicas grandes não chegam perto da baleia azul de 72 minutos divididos em três faixas chamada Earth 2: Special Low Frequency Version. Em compensação, se o novo álbum é curto (9 músicas, 46 minutos), há mais variação, ainda que dentro de um tema comum. (Nota mental: acho que escrevi a mesma frase sobre o SunnO))) novo.)

Note-se também a efetivação como baterista da namorada de Carlson, Adrienne Davies. Em 2, pra muita gente o ápice criativo do Earth, a banda não usou outra coisa além de baixo e guitarra simplesmente porque a ênfase era toda nas freqüências. Mais que só incrementar a renda doméstica, a idéia de Carlson de colocar bateria deu uma noção de tempo às músicas que, se tirou um pouco do clima ambient da banda, facilita a assimilação por ouvidos não experimentados. Por outro lado, não é algo que faça tanta diferença em termos de sonoridade, porque a moça faz o básico mesmo. As músicas não ganharam rapidez ou peso, por exemplo. Na verdade, o som fica com uma cara mais inusitada quando aparecem outros instrumentos, como banjo, trombone e sinos tubulares (aquele instrumento pro qual o Mike Oldfield dedicou um disco, Tubular Bells, e aparece na música “Left Hand Path” do primeiro do Entombed).

Na volta do ostracismo, dá pra ver que o Dylan Carlson buscou influências de outros estilos para compor. Saem de cena Black Sabbath e Melvins e entram Ikue Mori (do disco Painted Desert), Neil Young e outros nomes do country/western que eu ignoro. O álbum é a trilha sonora perfeita pro melhor faroeste lisérgico jamais realizado, em que um cowboy viaja a cavalo pelo deserto debaixo de um sol enlouquecedor, que faz crer que o peyote é mesmo a carne de Deus e que Ele está muito próximo da Terra. O filme é mudo e dirigido por Carlson, ou seja, tudo é muito lento e a trama demora para se desenrolar. O som ainda é soturno, mas agora os tons de sombra são os mesmos evocados por um duelo de pistolas ao entardecer, ao invés do clima de fim do mundo esmagado pela gravidade do planeta de antes. Ao contrário de 2, Hex mais faz pensar em escapismo que deixa angustiado.

É floreado, mas não vejo outra maneira de descrever o álbum, e quem ouvir talvez entenda o porquê. Num disco instrumental, é impossível não mentalizar paisagens ou sentimentos conforme o clima da música. E Hex é um disco que passa a sensação de isolamento, tanto quanto a de calor. Aposto que faria sucesso como música de fundo de qualquer comercial de cerveja do Texas.

Em linhas gerais e entrando em terreno mais opinativo que analítico, é um bom álbum, e a melhor coisa do Earth desde Extra-capsular Extraction. Não sou estudioso de cinema e os cinéfilos provavelmente me odiarão pela comparação, mas se Earth 2 era Tarkovski, contemplativo e distante da necessidade de resolução inerente à condição humana, Hex é Kubrick, tão aparentemente espontâneo quanto planejado, e intrigante pela ambigüidade de cada ação. Em Hex, a sensação de esperança vem acompanhada pela de desespero, e uma anda junta à outra sem sobrepor-se. E pensar na conjunção das duas é tão intrigante quanto conceber um hippie boa-gente como Dylan Carlson ter vendido ao Kurt Cobain a arma que estourou os miolos dele.

(Southern Lord - importado)

Página oficial: www.thronesanddominions.com.
 

 

 

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