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| Beagá,
Quarta, 18 de setembro de 2002 d.C. |
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Hurtmold Por
Indiegesto Você pega ônibus lotado e acha que trabalha mais do que devia? Sente-se carregando o mundo nas costas, não tem tempo para nada e tem dias que não suporta olhar na cara das pessoas ao seu redor? Tem vontade de fazer como aquele cara que saiu metralhando um cinema em São Paulo? Não, seus problemas NÃO acabaram, mas você acaba de encontrar a banda que passa toda essa angústia e stress de morar em uma cidade grande para a música: Hurtmold. Nesse Corra Atrás! duplo vou colocar na roda dois discos dessa banda, que é uma das melhores em atividade aqui em Sum Paulo. No que você pensa quando ouve falar de bandas tocando música instrumental? Em caras que passaram a vida inteira em um conservatório estudando milhares de escalas e métodos, fazendo música asséptica para músicos? E quando você escuta falar sobre temáticas urbanas? Música pesada e gritaria para mostrar o quão caótica é a vida na cidade? O Hurtmold faz música instrumental sem ser masturbatória e canta a vida na metrópole sem ter que apelar para ganchos batidos, sendo pesado e barulhento na medida certa. Imagine um filho bastardo do Sonic Youth com o Tortoise tendo como padrinhos o Black Sabbath (que o presenteia com aqueles riffs simples e que são uma tijolada) e The Clash (que o presenteia com aquele vigor na execução das músicas e com certa temática das letras). O tema urbano das letras (em português e inglês) é quase uma obsessão da banda, não seguindo a linha "é muita treta" exaustivamente usada pelo hip hop, tampouco falando de união ou revolução, tomada de poder e afins. O Hurtmold fala sob o ponto de vista da classe trabalhadora - daí a comparação com o Clash: a frustração de se sentir estar fazendo muito para não receber nada em troca, a competitividade e individualismo que o ritmo da cidade dita, ter a consciência disso mas não ter coragem de reagir e correr o risco de "largar o osso", covardia, frustração e conformismo: sim, é muita treta mas não vou encarar, é assim que as coisas são. Essa realidade, que é pouco (ou nada) abordada na música atual, é mais um motivo para que essa banda chame a atenção, pois acaba servindo como porta-voz, mesmo sem se propor a isso, de uma espécie em extinção: a classe média baixa. Deixando de blá-blá-blá, vamos aos discos: et cetra
"Continental" é a primeira música instrumental do disco, dá um descanso nos ouvidos com seu clima lounge, passando a bola para a "sonicyouthiana" e fantástica "Fora de Esquadro", hino máximo do saco cheio de viver na cidade (coexistência obrigatória/convivência inviável/bem-vindo à cidade) que toma duas faixas no CD. Outros destaques do disco são: "Sem Problemas" (puta letra), "4&5", "Indianópolis", "ETC" (quase um Dub?) e a ótima "Diz Tudo". Cozido
Vale destacar que a sonoridade deste disco está bem mais cristalina que o anterior, tudo está bem mais limpo e vale citar o baterista Fernando Cappi: esse cara toca muito, parece que as músicas nesse disco giram em torno dele. Destaques de Cozido: "Dois Pés e Ingrato" (parece muito, muito mesmo com "Train in Vain", do Clash), as batidas eletrônicas e o sax de "Filas Longas, Taxas Altas", "Mais uma vez, Desanimou" (lembra bastante o primeiro disco) e a última faixa, "Ciesta". Apesar de tudo parecer muito "sofisticado", a simplicidade que o Hurtmold impõe em sua música é cativante, sem contar a qualidade gráfica e musical. Vale a pena correr atrás do trabalho dos caras, lançado pelo selo mineiro Submarine Records. Para adquirir o disco: |
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