Beagá, Quarta, 17 de julho de 2002 d.C.

Morphine
Like Swimming

Por Cajabis Cannabis
E-mail: cajabis@abacaxiatomico.com.br

A gravadora Trama prestou um grande serviço ao mercado brasileiro ao relançar, no final do ano passado, a discografia de uma das melhores bandas do cenário independente americano dos anos 90: o Morphine. Com o vozeirão e o baixo (de duas cordas!) de Mark Sandman, o sax barítono afinadíssimo de Dana Colley e a bateria precisa de Bill Conway (isso aí, sem guitarra!), o trio cometeu alguns dos melhores discos da década passada. E olha que este, Like Swimming, nem é o melhor dos caras...

Mas este álbum, lançado em 97 e penúltimo da banda (Sandman morreu tragicamente em 99, de ataque cardíaco, em pleno palco durante um show na Itália) já mostra algumas diferenças sutis e interessantes em relação aos anteriores Cure For Pain e Yes: o Morphine estava fazendo um som ainda mais sujo, mais descompromissado, e em algumas faixas ("Wishing Well" e a instrumental "Open Up The Window") com uma levada mais, digamos, "explícita" para o jazz - principalmente se repararmos na bateria do Conway.

O curioso é que a banda ia mais para o lado do blues, e mantém essa sua característica marcante em outras faixas do álbum (como a deliciosa "French Fries w/Pepper"). Like Swimming mostra uma banda mais amadurecida, e ao mesmo tempo dando um balanço sensacional nas músicas, que dão vontade de dançar ou cantarolar. Não é o caso da primeira faixa, a instrumental "Lilah", que vai como que preparar o ouvinte para o que se segue. É uma deliciosa viagem de um minuto de duração, que termina com o espocar de "Potion", um petardo para levantar do sofá comandado pelo sax de Colley.

É curioso: um som tão grave, uma música que teria tudo para ser deprê, chata... E é surpreendemente gostosa, empolgante, "assobiável", balançando o corpo e a mente. Like Swimming mostra uma banda mais pra cima, mas com bastante discrição, com classe inaudita e sofisticação surpreendente para um bluseiro mor como Mark Sandman (boêmio como ele só). Baixo, bateria, voz e os metais (às vezes, são dois sax) combinam no Morphine com perfeição.

O som produzido pela banda é único: vale experimentar a sensacional "Murder for the Money", pop levado com maestria pelo baixo e pelo "tritar" - instrumento criado por Sandman que mistura duas cordas de guitarra e uma de contrabaixo. O sax dá o clima, a bateria dita o ritmo... E no início da música e no refrão, as cordas de guitarra do "tritar" falam por si próprias, enquanto que no restante da música as cordas do baixo fazem chacoalhar. Sensacional.

Aliás, por falar em originalidade, vale a pena conferir também a explosiva "Eleven O'Clock", com um sax furioso e o "tritar" em ação, quando a banda já parte mais para o lado do experimentalismo, mas sem chatices. Também tem espaço para uma certa melancolia, presente na bela "Hanging on a Courtain", e faixas mais lentas, como "Like Swimming", onde Sandman faz misérias com apenas duas cordas.

Enfim, não custa repetir... Entre tantas porcarias nos balcões das lojas, nem hesite em escolher: qualquer disco do Morphine é uma ótima pedida. Mas Like Swimming vale para quem ainda não teve o prazer e o deleite de escutar essa banda sensacional. Talvez este seja o álbum mais indicado para os iniciantes em Morphine...

 

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