Beagá, Quarta, 29 de maio de 2002 d.C.

Por Indiegesto
E-mail: indiegesto@abacaxiatomico.com.br

Esse "Corra Atrás" vem em dose dupla. Vou falar de duas bandas que nasceram após o fim do At the Drive In, uma das maiores promessas de 2000 que, após de lançar o ótimo Relationship of Command, virou hype, fez extensas e conturbadas tours e resolveu se separar no auge da fama. As bandas são The Mars Volta e Sparta, que lançaram EP´s na mesma época.

Sparta
Austere

O Sparta é formado por Jim Ward nos vocais e guitarra (no ATDI ele apenas tocava guitarra e fazia backing vocals), Paul Hinojos na guitarra (que era baixista no ATDI), Tony Hajjar na bateria e Matt Miller no baixo. Eles iniciaram suas atividades logo após o At the Drive In começar a dar "um tempo" em março de 2001; meses depois, três músicas já estavam disponíveis em seu site oficial, mas nenhuma delas saiu no EP (infelizmente).

Com as devidas apresentações feitas, vamos aos comentários de Austere:

O EP abre com a bela "Mye", que já assusta a gente com a semelhança com a banda anterior dos caras, inclusive os vocais de Jim Ward são muito parecidos com os de Cedric Bixler. "Mye" também lembra alguma coisa de The Cure, devido a algumas linhas de vocal e timbres de guitarra. O refrão é grudento ("desta vez farei isso direito, você não pode se defender, está predeterminado").

Um loop eletrônico abre "Cataract", guitarra dedilhadas e com delay e um piano lá pelo meio da canção nos remetem à músicas do ATDI como "Non-Zero Possibilty" e "Enfilade". "Cataract" é daquelas típicas músicas "noventistas" calmas, que explodem em um refrão pesado e recheadas de melodia por toda parte.

Mais eletrônica em "Vacant Skies", a melhor música do disco, com uma linha de baixo matadora, timbres de guitarra inconfundíveis e vocais que te fazem jurar que o Parry Farrel invadiu o estúdio.

O EP fecha com "Echodyne Hamonic" (de-mix), um Mantra cantado em uma base eletrônica, com camas de teclado e umas guitarras aqui e ali que dão um tom de mistério na faixa. Não é lá grande coisa.

Esse EP não chega a decepcionar, porém músicas como "Air", "The Host" e "Cut Your Ribbon" (as que ficaram disponíveis no site oficial) poderiam ter feito de Austere um material muito melhor, e as semelhanças do Sparta com o At The Drive In se por um lado são um atrativo para os fãs da antiga banda, por outro fazem o Sparta se confundir com os inúmeros clones do ATDI que surgiram após o seu estouro.

Resta esperar que em seu disco (que se chamará The Wiretrap Scars), a banda consiga se desvencilhar um pouco do passado.

The Mars Volta
Tremulant

The Mars Volta conta com os ex-ATDI Omar Rodrigues e Cedric Bixler (na guitarra e vocal respectivamente), Isaiah Ikey, Jon Philip Theodore, Jeremy Ward e Eva Catherine Garder. Eles já estão tocando direto por aí e roubaram a cena no Coachella Festival este ano, que contou também com Prodigy, Foo Fighters, Queens of the stone age e Strokes.

Tremulant abre com 1 minuto e 56 segundos de batidas etéreas e teclados climáticos, até começar a porradaria chamada "Cut That City", que tem a também inconfundível guitarra de Omar somado com um pianinho bem vagabundo que soa incrivelmente bem em toda aquela massa sonora. Os vocais raivosos de Cedric aparecem reforçados com uns efeitos esquisitíssimos, a bateria lembra muito "Arcarsenal", faixa de abertura de Relationship of Command. A música tem umas paradas abruptas e umas passagens bem setentistas. Aliás, o EP inteiro soa como se tivesse sido lançado em meados de 71.

"Concertina" é a próxima música. A introdução lembra um pouco a banda Animals e tem um moog muito classe. Os vocais são pra lá de dramáticos e, como o Sparta, a canção segue aquela cartilha do hora calmo hora pesado e as já famosas guitarras dissonantes de Omar. "Concertina" tem uma estrofe cantada em espanhol.

Em "Eunuch Provocateur" há uma longa introdução, com uma bateria quebrada, viagens de teclado e guitarra, tem uns momentos bem jazz na metade da música, terminando em um dub psicodélico. Das três músicas é a mais fraca, mas mesmo assim é muito boa.

The Mars Volta ainda não tem site oficial, mas dá para conferir um show dos caras em MP3 neste site.

O mais legal de se escutar esses dois EP´s, é que dá para perceber bem o papel que cada integrante tinha no ATDI. O lado do Sparta trazia a crueza e a sujeira do rock de garagem, e o lado do Mars Volta trazia a psicodelia e harmonia.

Já se for para comparar as duas bandas, o Mars Volta está bem à frente do Sparta, afinal de contas conseguiu fazer um som muito mais original sem se prender à antiga banda, mesmo mantendo algumas de suas características. Mas o que não deixa dúvidas é que duas belas bandas apareceram: uma bem mais melancólica (Sparta), outra mais furiosa e original (The Mars Volta).

Não preciso nem dizer que é bom ter os dois, né?

P.S.: Há também outro projeto do Cedric e do Omar chamado Defacto, que tem dois discos lançados apenas em vinil. O som é dub, mas confesso que não me empolgou em nada.

 

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