Beagá, Quarta, 12 de dezembro de 2001 d.C.

Hip Hop Rio
Uma Noite Celebrando a Cultura

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

Não se sabe se foi uma bênção divina ou simplesmente uma dose de sensatez de Marcelo D2, mas o cara (que é uma das poucas cabeças pensantes da música nacional) resolveu dar um tempo no repetitivo discurso pró marijuana para fazer um disco-festa. Explico melhor: ao colocar Hip Hop Rio no seu cd player você se sentirá numa festa, num show que tem como apresentador Marcelo D2, as músicas são intercaladas por vinhetas bem feitas e por algumas falas do vocalista do Planet Hemp que vangloria seu camaradas dos subúrbios cariocas. O grande mérito do disco é que ele se torna uma compilação de músicas feitas nos morros do Rio de Janeiro e Marcelo D2 consegue fazer perfeitamente a tal "conexão entre o morro e o asfalto" - ou seja: a produção é muito bem feita, a escolha das bandas é irretocável e há um clima bom no disco, leve, diferente da maioria dos discos deste estilo lançados no Brasil e no mundo. A faixa "Mc's emergentes" de Mahal mostra a habilidade nas pick ups do DJ Pachú e um discurso contundente, uma verdadeira aula de história com citações a Napoleão, Gandhi, Platão, Sócrates e até Nietzsche (existe cultura no morro, galera!!!).

A presença do ex-companheiro de banda Black Alien ao lado de Speed é uma prova de que, na verdade, todos são parceiros, independentemente de qualquer modificação nas formações das bandas. "Rude boy style" é um rap lisérgico e meio sombrio: bem ao estilo da voz de Gustavo Black Alien, fala basicamente do estilo de vida dos b-boys, mc's, dj's e grafiteiros, de novo uma produção muito competente. As mulheres também dão o seu recado no disco: a banda Negaativa manda muito bem na faixa "Pula na muvuca". A música deixa claro a competência do trio Mary Juana, Combatente e Jamille; além do mais, a música é uma simpatia, só fala de coisa bacana: praia, cerveja, maryjuana, rap e, claro, não poderia faltar o frango com farofa!!!

Em "Prioridades", BNegão e DJ Rodriguez fazem uma bela mistura: um batidão completamente ensurdecedor com um discurso coerente, que pede a mudança de comportamento com a valorização da camaradagem como uma forma de diminuir as "tretas" tão comuns nas ruas brazucas. Uma banda de Volta Redonda também mostra que é boa no discurso: o Núcleo Sucata Sound manda muito bem em "Positive sound", com seu "detector de mentiras aniquilando a falsidade", e no fim ainda manda um recado para a polícia: "fuck you, mr. cop!" O clima fica um pouco mais pesado quando entra em cena o Artigo 331 e sua "Zona Norte", a música talvez seja a mais bem escrita do álbum - a realidade chocante do morro está ali: a lei do pipoco, a prostituição, crianças armadas e a polícia estourando o que vê pela frente. Mas ao mesmo tempo se fala da democracia cultural das favelas, onde há espaço para todo mundo, do samba ao rap, do hardcore ao funk.

Por incrível que pareça, a música assinada e executada por Marcelo D2 não é das melhores: "A Maldição do Samba" é até uma simpática parceria do carioca com Marku Ribas (figurinha carimbada do mundo percursivo mineiro), porém está muito aquém do que pode fazer o líder do Planet Hemp. De qualquer maneira, a seleção sonora produzida por MD2 neste Uma Noite Celebrando a Cultura faz parte de uma das melhores compliações feitas nos últimos tempos em terras tupiniquins: é a força do hip hop e mais do que isso, é a força das favelas, da música feita com alma e simplicidade. Aqui, meu irmão, ninguém é gênio ou se acha o tal, são apenas jovens querendo dar o seu recado e ponto final.

 

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