Beagá, Quarta, 12 de setembro de 2001 d.C.

Pixies
Complete B-Sides

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

Já vou deixar bem claro desde o início deste texto que os discos do Pixies, na sua maioria, estão em catálogo no Brasil; portanto, quem ainda não adquiriu pelo menos três deles está marcando uma bobeira sem tamanho. Agora este último lançamento da banda de Boston, Estados Unidos, é completamente imperdível. Por que? Ora bolas, porque é Pixies, e melhor ainda: este álbum é uma compilação dos singles mais bacanas produzidos pela banda na Inglaterra. Para muitos fãs, as melhores faixas da banda de Black Francis (ou Franck Black) nunca entraram em seus discos oficiais, o que faz este álbum mais fundamental ainda.

A retrospectiva sonora do Pixies começa com uma versão crua, seca e direta de "River Euphrates". Pinçada do single "Gigantic", de 1988, a música que já era boa em Surfer Rosa, álbum de estréia do pessoal, encontra-se em estado bruto e visceral nesta versão. Os lados B do clássico Doolitlle deixam claro que aquele disco poderia ser na verdade duplo: "Manta Ray", "Weird At My School" e "Into The White" mostram a banda na sua fase mais coesa, baixo e voz marcantes de Kim Deal, bateria honesta e simples de David Lovering, Black Francis com seu vocal bizarro e no comando das guitarras um dos mais criativos e sujos guitarristas da história do rock, Joey Santiago.

Falar dos destaques de Complete B-Sides é redundância, tudo é do mais alto e bom nível. São jóias raras, mas os dois covers do jurássico Neil Young são de fazer qualquer cidadão do bem e que gosta do melhor da guitarra sentir algo diferente, se emocionar mesmo. "I've Been Waiting For You", do primeiro e talvez mais belo álbum do canadense, ficou simplesmente indescritível, ainda mais na estonteante voz de Kim Deal. Já "Winterlong" não tem o mesmo impacto, mas não deixa de ser Pixies tocando Neil Young.

O disco vai seguindo com suas músicas que mostram porque o Pixies é tido como o grande responsável da explosão do rock alternativo dos anos 90. Dez entre dez reportagens sobre a banda dizem que os caras eram os preferidos de Nirvana e companhia limitada. O grande mérito destes quatro malucos sempre foi conseguir aliar sujeira, barulho e melodias pop com uma perfeição de chocar o mais esperto e engajado entendedor de música. Desde as instrumentais "Velvety" e "Theme from Marc" até ao punk rock country "Santo", a banda se mostra uma das mais criativas e despretensiosas de todos os tempos.

A versão surf de "Wave Of Mutiliation" é de dar vontade de sair por aí quebrando tudo de raiva por não existir nada igual ao Pixies e de alegria por somente existir o Pixies. E a versão ao vivo de "Vamos"? Sensacional meu caro, gravada no lendário Town and Country em Londres em fins do anos 80 e início dos 90, dá a mostra da vitalidade e energia da banda ao vivo. O que não dá para entender direito é porque o baterista David Lovering não pôde mostrar com maior freqüência na carreira da banda seus dotes como vocalista: em "Make Believe" e "Bailey's Walk" o rapaz manda muito bem, principalmente na segunda faixa, que conta uma estorinha engraçada de um cara que andava de um modo sui generis pelas ruas de San Juan em Porto Rico, conhecido do lunático Black Francis em suas andanças pelo mundo.

Não há mais nada a dizer sobre Complete B-Sides: o que resta é novamente comemorar mais um relançamento no mercado musical. Como atualmente as novidades roqueiras têm mais a ver com promoção e forçações de barra de gravadoras, ficamos com as velhas e boas bandas das últimas décadas do século passado. Quem diria que um dia existiriam sujeitos que sentissem uma profunda saudade e nostalgia destes anos 80 e 90, que para muitos marcaram o fim da música... Se marcaram ou não é uma discussão boba e inóspita, mas que foram produtivos, ah, isso foram.

 

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