Beagá, Sábado, 11 de agosto de 2001 d.C.

Mano Negra
Lo Mejor de

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

Acaba de ser lançado no Brasil o "novo" disco de Manu Chao, cantor parisiense que esteve em turnê por terras tupiniquins no ano passado e conquistou o público e a crítica tanto pela competência quanto pelo carisma. Só que ...próxima Estación: Esperanza... não é nem de longe o melhor petardo da carreira do poliglota Chao: o disco não passa de uma continuação de Clandestino, na verdade uma repetição do anterior com um pouco mais de alto astral (por isso coloquei as aspas em "novo", na frase anterior). Assim como as participações no disco Samba Poconé, do Skank, e no programa do Jô Soares, Manu Chao cometeu mais um erro na sua carreira, o que é perfeitamente natural e compreensivo.

Mas o destino resolveu agir em favor dos fãs da melhor fase do cara que foi, sem sombras de dúvidas, quando liderava a impagável banda Mano Negra: está saindo no Brasil uma poderosa coletânea dos verdadeiros clandestinos. Na maioria das vezes, quando sai um disco do tipo "O melhor de..." as gravadoras pisam na bola, pensam somente no mercado, colocam os grandes sucessos da banda e no final os álbuns acabam sendo repetitivos e previsíveis. Não é o caso de Lo Mejor de: o álbum faz um belo e interessante apanhado da banda andaluz anarquista, surgida em 1986 em Paris reunindo os irmãos Manu e Tonio (trompetista) Chao e o espetacular baterista Santiago Casariego, e que em pouco tempo invadiu e conquistou a Europa. A variedade de ritmos do Mano Negra sempre foi o seu principal trunfo, e o mais importante: eles conseguiam mixar sons diversos (e tantas línguas também) com precisão e harmonia pouco comuns. Ouvindo os amalucados sem pátria você está em contato com jazz, punk (The Clash está presente de forma marcante no som da rapaziada), reggae, rap, ska, mambo e até sons tradicionais dos grotões do Velho Continente.

Há músicas de todos os discos oficiais da banda. Do primeiro álbum Patchanka, de 88, aparecem "Soledad", as divertidíssimas "Rock Island Line" e "Noche de Acción" (rock'n roll puro e simples) e a balada em ritmo de serenata "Salga la luna". Este disco levou o Mano Negra a fazer um contrato com a Virgin devido ao relativo sucesso na França e na Espanha; nesta fase, o som dos caras era ainda mais variado e sem direção alguma. Em Puta's Fever, de 89, os caras contaram com uma produção bem mais profissonal que ficou a cargo de Jean Labbé, e para esta coletânea foram tiradas diversas faixas deste disco. "Mala Vida" fala do sofrimento de amor de um pobre rapaz com belos metais ao fundo, "King Kong Five" era como se os caras fossem os Beastie Boys latinos à frente do seu tempo, "Gualquil City" é um daqueles reggaes de deixar qualquer Rastafari "na boa" e "Indios de Barcelona" é outro rock direto e rápido, com direito a um trompete sensacional na introdução da música. Em 91, o Mano Negra lançou um álbum com vistas no mercado americano: King of Bongo é o disco com o maior número de letras em inglês e o mais pop dos caras, mas nem por isso chega a ser fraco. Dele foram tiradas três músicas básicas: "King of Bongo", bem fm e que serve de base para músicas da carreira solo de Manu Chao; "Out of Time", uma balada de total respeito e com uma letra bacanérrima e "Mad Man's Dead", mostrando a influência punk/anárquica/hardcore dos caras.

O disco Casa Babylon, de 94, é um dos mais criativos do Mano Negra, com uma técnica apurada e um discurso político bem interessante (defendendo os zapatistas e metendo a lenha na aristocracia latifundiária). As faixas "Santa Maradona", rock'n roll em homenagem a Diego Maradona e ao futebol em geral (imitada por Nando Reis e Skank com aquela música que todo mundo conhece), "Señor Matanza", um reggae meio dub, detonando com a elite agrária do 3º Mundo, "Sueno de Solentiname", viagem astral dos caras (eram chegados em drogas do mal), a inocente "Mama Perefecta" e a alegre "La Vida (la vida me da palo)" completam o apanhado da discografia da moçada. Além de contar toda a história do Mano Negra, Lo mejor de" contém ainda duas músicas ainda inéditas no Brasil e que não fogem em nada o estilo dos europeus: "Long Long Nite" e "On Telefon". Este disco é uma excelente oportunidade para quem ainda não conhece o trabalho do Mano Negra ou para aqueles que acham que o Manu Chao é o máximo. Realmente o cara é muito bom, mas na companhia de figuras como Tonio Del Borño, Santiago "El Aguila" Casariego, Roger Cageot, Jo (baixista de primeiríssima linha), Garbancito e muitos outros que passaram pela banda, ele era muito mais animado, roqueiro e o mais importante, autêntico.

 

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