Beagá, Quinta, 10 de maio de 2001 d.C.

Nick Cave And The Bad Seeds
No More Shall We Part

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

O som melancólico de Nick Cave and The Bad Seeds está de volta. Depois de quatro anos sem lançar nada novo (só discos de coletânea), certamente o pessoal resolveu caprichar e fazer um dos melhores discos de toda a sua carreira. No More Shall We Part traz Nick Cave compondo como nunca, escrevendo como ninguém sobre suas eternas obsessões: a religião, o amor e a morte. Já sua banda, que o acompanha há quase 20 anos (desde 1983 eles estão juntos), ilustra as frases de Cave esbanjando competência, com um som híbrido de punk, blues e gospel. Se comparado com The Boatman's Call, de 97, este novo disco está milhares anos de luz à frente, é um álbum eminentemente trágico e com inúmeras canções de amor marcadas pela ironia e pelo sarcasmo típicos de Nick Cave.

Tudo começa com "As I Sat Sadly By Her Side": o som deprê, típico dos anos 80 com seu pós-punk, complementa a bela letra da faixa, uma das composições mais emocionantes escritas por Nick Cave: "The she drew the curtains down/ and said when will you ever learn/ that what happens there beyond the glass/ is simply none of your concern". Ficam claras e explícitas as influências de outros geniais poetas da música mundial, como Bob Dylan e Leonard Cohen. A faixa "Oh My Lord" é o melhor exemplo da atmosfera pesada que está presente durante todo o disco; musicalmente, é e não é uma música de rock'n roll. Explico: na essência, The Bad Seeds nunca foi o que poderíamos chamar de uma rock'n roll band, mas no atual estágio que este tipo de som atravessa, eles são muito mais do que isso - não só tecnicamente como instintivamente.

As qualidades de Nick Cave ultrapassam os versos de suas músicas. Como cantor, ele também mostra que está em uma de suas melhores fases da sua longa carreira. Cave tem várias facetas no disco: ele passa de um vocalista nervoso e baixo astral para um outro completamente diferente, mais leve e melódico, e o que é melhor, sem perder qualidade e personalidade. Em "Hallelujah", por exemplo, podemos observar Cave e sua banda fazendo um trabalho mais alegre e positivo. Este é o trunfo do disco: não há só lamentações de fim de noite em bares copo sujos, há também motivos para se sorrir na vida, é isso que Cave ganha com seu novo álbum. Na verdade, No More Shall We Part é um álbum sobre amor, mas mais importante que canções românticas está a capacidade que um ser humano tem de sobreviver neste mundo, bem humorado sem deixar de ser crítico.

As baladas tomam contam do disco quase que por inteiro. "No More Shall..." é uma daquelas baladas trágicas bem ao estilo de Cave. "Gods in the House" e "Love Letter" também são poética e musicalmente fantásticas. Em "The Sorrowful Wife" o destaque é a banda, que alia violinos com o belo som tirado por Blixa Bargeld de sua guitarra, tudo isso somado a extrema habilidade de Jim Sclavunos nas baquetas. "Gates to the Garden" é uma faixa diferente, poderíamos dizer que se trata de um country gospel para se escutar em dias frios e chuvosos (assim como a maior parte da obra de Nick Cave). E, para fechar, fica a mensagem otimista de "Darker with the Day", que tem um som que lembra os melhores momentos da música pós-punk de décadas passadas.

No More Shall We Part é um marco na carreira de Nick Cave e também do The Bad Seeds. Depois de anos juntos, parece que eles acharam a química certa para chegar ao topo de sua carreira musical. O profundo sarcasmo de Cave com a questão religiosa e com o Cristianismo dá lugar para uma incrível maturidade espiritual do cara, afinal de contas não é qualquer um que trata um tema tão difícil e polêmico, como é a religião, de um modo tão simples, direto e sincero. Não perca tempo e adquira um dos melhores (senão o melhor) álbuns da carreira de uma das figuras mais importantes para quem viveu os anos 80 e sabia o que era música feita com o mínimo de dignidade.

 

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