Beagá, Quarta, 28 de março de 2001 d.C.

John Frusciante
To Record Only Water For Ten Days

Por El Jako
E-mail: eljako@abacaxiatomico.com.br

A carreira de um dos mais talentosos guitarristas dos anos 90 começou precocemente. John Frusciante foi cogitado para tocar na banda do respeitável Frank Zappa no início da sua adolescência, com apenas 15 anos de idade. Aos 18, o discípulo de Hillel Slovak, primeiro guitarrista do Chili Peppers, já comandava com muita personalidade a guitarra da banda da Califórnia. Daí pra frente, a vida de Frusciante se tornou uma loucura: ele participou também do rentável Bloodsugarsexmagik e largou a banda no meio de uma turnê no Japão alegando cansaço físico e emocional.

O período em que ficou afastado da banda que o projetou para o mundo foi um dos mais difíceis para Frusciante. Atolado nas drogas pesadas, o cara ainda conseguiu gravar dois álbuns obscuros: Niandra Ladies and Usually Just a T-Shirt em 95 e Smile from Streets You Hold em 97. Agora, o cara está lançando seu terceiro álbum; bem menos experimental que os anteriores, com certeza, mas nem por isso chega a ser pop. To Record... só tem em comum com os antigos discos solo de Frusciante o nome comprido. De resto, diferente das épocas anteriores, o guitarrista se mostra um compositor de mão cheia, esbanjando motivação e inspiração.

Neste álbum Frusciante toca todos os instrumentos e escreve todas as músicas; é impossível um disco ser mais a cara de um músico do que este. Segundo o guitarrista, este disco é um grito de liberdade, liberdade que tem a ver com sua antiga dependência das drogas e com uma pessoa que encontrou na música um refúgio para seus problemas pessoais. Trata-se de uma obra intimista: nas letras das músicas, John conversa consigo mesmo e não consegue disfarçar a angústia que o atormentou por tanto tempo.

As bases das músicas são praticamente todas pré-gravadas. A guitarra de John está menos solta que nos Peppers e sua voz não chega a ser uma maravilha, mas combina com o som que faz. Entre as melhores do álbum estão "Remain", onde o cara mistura com delicadeza folk e blues, "Going Inside", com uma letra que não deixa de ser esperançosa e positiva além da bela harmonia, e "The First Season", que faz uma combinação perfeita de sintetizadores e violões acústicos. Ainda pode se destacar "Invisible Moment" e "Saturation", que mostram que John encontrou de vez sua alma que andava perdida há anos por aí.

Em To Record... John Frusciante dá uma lição àqueles que só conhecem sua obra nos momentos mais pop do Chili Peppers e são incapazes de ver o óbvio: a grande técnica de um dos mais suingados guitarristas do momento. Além do mais, o lirismo de suas canções e a honestidade de suas letras já são suficientes para fazer deste álbum um dos mais interessantes lançados neste ano.

 

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