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Se
teve alguém que deve ser o responsável pela minha entrada no ABACAXI
ATÔMICO foi o El Jako. Eu era um abacaxinauta que, como você, volta
e meia ficava puto com o que o cara escrevia e mandava emails para
o site para meter a boca. Nossa principal divergência era sobre
o hip hop nacional, já que eu via (e ainda vejo) muitos vícios e
picaretagens de dar inveja ao pessoal que a gente mete o pau sem
dó por aqui. E nessa discussão eu procurava apontar que o hip hop
é a manifestação cultural mais autêntica e bacana que rola por aqui,
mas o buraco é mais embaixo. O hip hop cresceu e (ainda bem) consegue
ter um mercado sem ter que apelar às grandes gravadoras e correr
o risco de se dissolver. Mas conseguir separar o joio do trigo está
sendo tarefa dura, devido a uma bela fábrica de frases feitas e
lugares comuns assolando o rap nacional, seja por um discurso "revolucionário
sem noção" sub-Racionais ou por uma guinada ao gangsta rap igualmente
sem noção. Como já disse o Ferréz (autor de Capão Pecado):
Rezo a Deus que dê tempo de politizar essa galera, pois pelo contrário
só vai haver a barbárie.
Bem,
já estou escrevendo por aqui já deve fazer mais de um ano (não lembro)
e percebi que nunca falei muito sobre rap desde meus debates com
o El Jako, com a saída do cara é que me caiu a ficha. E, para tirar
o atraso, resolvi falar de dois disco muito bons, que deram uma
inovada na linguagem sem perder a contundência do discurso.
Se
Tu Lutas Tu Conquistas é o primeiro disco do SNJ. O grupo foi
descoberto pelo DJ Hum, que os colocou em uma coletânea com a fantástica
"Mundo da Lua", faixa que chamou atenção pelos vocais incomuns e
letra sensacional. Infelizmente, essa música não aparece neste CD,
mas é uma bela aquisição para quem não agüenta tantos Racionais
wannabe que pipocam por aí.
Os
caras tiveram empurrõezinhos de peso, como Zé Gonzáles, que produziu
três faixas: "Somos Nós", "1 Ato Fatal" (uma das melhores faixas
do disco, com um quê de Cypress Hill) e "Biografia Feminina". Edi
Rock, dos Racionais, produziu "Cavando Sua Cova", que tem uma sonoridade
mais old school e também é destaque. Apesar da força dos manos famosos,
o SNJ mostra personalidade nas músicas que produz, além de calcarem
um estilo inconfundível, como pode ser conferido nas ótimas "Sem
essas nunca Nessas" e "Viajando na Balada", ambas com linhas de
baixo grudentas e que cujas letras mostram o peso da TV na educação
dos caras. Aliás, é muito interessante a maneira que eles retratam
a televisão em suas letras, deixando bem claro que passaram a infância
em frente ao aparelho, recheando suas letras com citações a programas,
desenhos animados e seriados para criticar sociedade, violência
e a própria TV.
Se
Tu Lutas Tu Conquistas é um belo trabalho de estréia de um grupo,
que dá espaço para...
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Corre
uma história de que o nome SNJ foi registrado por um "empresário",
o que fez com que os sujeitos tivessem que mudar de nome para lançar
seu segundo trabalho - no caso, o nome adotado foi o próprio nome
dos rappers. Enfim, féladaputices de picaretas à parte, Viva
o Presente... traz a evolução latente dos caras, principalmente
no que diz respeito à busca de identidade própria. Eles estão bem
mais coesos e dão vários passos à frente dos grupos de rap que estão
por aí, fazendo vocalizações em cima de loops de música clássicas
que poderiam ficar ridículas, mas acabam funcionando muito bem.
Sombra
e Bastardo caminham em uma linha tênue entre o que pode ficar genial
ou ridículo. O humor e ironia que os caras injetam em suas músicas
fazem com que você simpatize de imediato com músicas como "Uai Sô
Caipira", em que satirizam aqueles "gritos de guerra" de raps gringos
usando sotaque mineiro, além de samplers de viola caipira e tudo
mais. A brasilidade é forte nesse CD, em que eles adicionam berimbau
e atabaques em raps secos como "Herdeiros Sem Herança", sem soar
como aquela brasilidade Trama.
A TV
aparece forte novamente em "Nas Antigas Minha Infância", que dá
uma geral nos tempos de criança, primeiro beijo até a descoberta
do rap pelos caras. Belo momento do disco, destacando o hilário
final da música. Outros destaques do disco são "Os Comunitários",
"Envolvidíssima" e "Na Calada da Noite".
Tai
duas belas pedidas para quem acha que rap é uma mesmice danada.
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