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Beagá, 10 de outubro de 2005 d.C.
 
SunnO)))
Black One
Por John Gracinha
 

Como eu tenho convicção de que falar sobre SunnO))) pra quem não gosta de drone é como discutir a qualidade da obra do Michael Moore com alguém do Partido Republicano, dificilmente esta resenha vai atingir alguém que não seja militante do estilo. Seria pueril achar que uma crítica tem o poder de converter uma opinião pré-concebida de algo.

Dito isso, ao álbum: Black One, sexto lançamento sob o nome Sunn do dueto Greg Anderson (Goatsnake, Thorr’s hammer, Teeth of lions rule the divine) e Stephen O’ Malley (Khanate, Burning witch, ToLRtD), é provavelmente o mais acessível da banda até agora, o que não significa que os temas contidos no álbum sejam de fácil assimilação. Há progresso em relação aos dois discos anteriores, White1 e White2, embora o propósito inicial de ser uma banda-tributo ao Earth persista.

Em termos de composição, há mais riqueza de detalhes. Salvo a introdução “Sin Nanna”, em geral as músicas continuam quebrando a barreira dos nove minutos, suficiente para a banda improvisar sem chegar ao ponto de encher o saco. Há participações especiais de dois músicos de black metal (Wrest, do Leviathan, e Malefic, que atua solo sob o codinome Xasthur) e do compositor John Wiese, que já colaborou com Thurston Moore (Sonic Youth) e Masami Akita (Merzbow), entre outros. De certa forma, a relativa obscuridade da lista de convidados de Black One contrasta com as participações especiais na dupla White, como Joe Preston (atual Thrones e High on Fire, ex-Melvins e ex-Earth), Attila Csihar (Mayhem, Tormentor) e o Syd Barrett do folk, Julian Cope.

Por isso, é estranho notar que o disco novo é menos hermético que os anteriores. Pode ser que o tempo de estrada tenha mostrado ao Sunn que músicas mais épicas do repertório da banda, como “My Wall” (que é a “Echoes” dos caras, com mais de 23 minutos), percam o poder de fogo à medida em que começam a se repetir. Em Black One, o maior tema tem 16 minutos, o que é relativamente pouco quando se fala de drone, mais reconhecido pela falta de brevidade das composições. Em comparação aos White, Black One é quase um disco de vinhetas.

O ar está mais carregado em Black One. Os riffs com reverb tocados em ampli ajustados no módulo “fritar” ainda estão lá, mas dessa vez eles dividem o ambiente (ambient?) com efeitos sonoros que vão do barulho do vento ártico a vocais que vêm de dentro de um caixão. A diminuição da duração das músicas pela metade deixou a banda mais coesa, mas ainda há espaço de sobra para o experimentalismo. Há até (gasp!) melodia em algumas músicas, coisa impensada no Sunn até que eles próprios cometessem isso. O riff black metal em “It Took the Night to Believe” é uma grata surpresa, como acordar e descobrir que o papa Bento XVI morreu.

Deslumbradamente falando, o principal mérito de Black one é mostrar que o sol negro do SunnO))) ainda não deu sinais de que se põe tão cedo. Como foi escrito no primeiro parágrafo, não é nada que provavelmente agradará aos antagonistas, mas também não vai levar ninguém a acusar a banda de se vender. É diferente do que eu e o resto dos oito fãs da banda esperávamos, mas não é exatamente ruim ter suas expectativas frustradas por algo muito melhor. É candidatíssimo a ser umas das melhores coisas que eu escutei esse ano, e eu diria isso mesmo se não tivesse semelhança física alguma com o Stephen O'Malley.
 

 

 

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