Com a morte do At the
Drive-in, a degringolada que deu o Tortoise e o sumiço recente
do Fugazi, o povo que prefere o seu metal - ou post-hardcore, ou
seja lá como é chamado hoje em dia - um pouco mais
cabeça ficou meio órfão. Afinal, a aparição
de uma banda disposta a subverter as convenções da
música é um troço tão raro quanto uma
banda tocar na rádio por mérito próprio e tão
ou mais difícil de acontecer.
Mas acontece, e o Eu Serei a Hiena é um exemplo disso. O
disco de estréia dos caras, homônimo, é uma
espécie de quem-é-quem do underground de São
Paulo, com integrantes de bandas tão díspares como
Dance of Days e Point of no Return. Em que isso importa? Nada. Importa
(e muito) que o som dos caras não se parece com nada do que
é feito por aqui hoje.
Tentar definir o estilo do grupo é complicado. A descrição
mais próxima seria uma mistura dos instrumentais do Fugazi
com o desencanamento do At the Drive-in e algo daquela aura cult-cool
do primeiro do Tortoise. Quem nutrir ódio mortal por uma
dessas bandas pode ouvir sem medo, porque o ESAH não soa
exatamente como cópia de nenhuma delas.
O nome do grupo vem de uma bad trip que um dos guitarristas teve
enquanto dirigia pra casa de madrugada, de uma cidade a outra. Diz
a lenda que, alucinado de Zoloft, o mano sentiu uma presença
do lado no banco do carro e, quando olhou, viu uma hiena carregando
com a boca os restos mortais do que possivelmente fora um dia uma
hiena, ou algum outro animal cuja mutilação tornou
difícil identificar. É quase como um Trout Mask Replica,
só que com Hardy, a hiena! O jeito de exorcizar o bicho foi
estampar ele na capa do cd, mas só o guitarrista pode dizer
se funcionou ou não.
Ao disco: são seis faixas e mais dois remixes, e metade
das seis músicas é instrumental. As outras três
têm participações especiais - de novo - da intelligentsia
do hardcore, ou coisa que o valha, paulista (a saber: vocalistas
do Dead Fish, Garage Fuzz e Boom Boom Kid). Se assustou, cabe dizer
que as músicas nas quais eles participam não soam
como nada das respectivas bandas de origem.
O cd foi gravado no Estúdio El Rocha, o que equivale a dizer
que não há jeito de ficar melhor (por sinal, pra quem
se interessar em saber, o nome do encarregado da produção
é Fernando Sanchez). A gravação limpa não
tirou o peso da bateria, como dá pra ouvir em "Chotto
Machigatte Iru", mas talvez não fosse má idéia
igualar o volume na percussão eletrônica do remix de
"Sonâmbulo".
Os instrumentais me agradaram mais, talvez seja por eu sentir que
nenhum dos vocais se encaixe tão bem como um Cedric Bixler
o faria nesse tipo de som. A melhor música até agora,
pra mim, é "Mão Única, Sentido Figurado",
que é instrumental, mas pra não dizer que não
falei dos cantores, "Do the Free the Borders" também
ficou bem boa. Não sei se o nome foi escrito errado de propósito,
assim como tenho a ligeira impressão de que o vocal canta
esse som em tom de sarcasmo, mas isso não importa muito.
A arte do cd chama a atenção pela simplicidade, possivelmente
uma das melhores capas que eu já vi de uma banda nacional,
e embora eu não morra de amores pelo nome ESAH, tenho que
admitir que ele se adequa bem ao conceito da capa.
Pra um álbum de estréia, é inacreditável.
Em se tratando de algo nacional, mais impensável ainda. Se
há uma reclamação a ser feita sobre esse disco
mais que a demora dele sair, é que por ser tão foda
ele deve inspirar uma legião de imitadores que vai estragar
tudo. O negócio é aproveitar enquanto os emuladores
não vêm, e muito embora eu tenha inventado todo o parágrafo
sobre a origem do nome por não gostar dele, todo o resto
é a mais pura verdade.
(Nacional - Travolta Discos)
site: http://www.purevolume.com/eusereiahiena
mp3's: http://www.purevolume.com/
download.php?id=548316 "Chotto Machigatte Iru"
http://www.purevolume.com/download.php?id=729248
"The Lateral"
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