Tempos atrás, escrevi
aqui no ABACAXI sobre o cantor e compositor carioca Fernando Pennafort,
analisando seu EP. Agora, entra aqui neste espaço seu primeiro
disco, Vou Sair, com 14 faixas de sua autoria, onde ele
canta e é o responsável por todos os instrumentos
(exceto a bateria) em quase todas as faixas, além de produzir,
gravar e mixar o álbum. Ufa!
E quem sabe este fato explique o problema do disco: sempre é
bom ter um produtor que saiba corrigir os rumos do projeto, esteja
atento e consiga ver coisas que o próprio artista não
consegue. Claro, estamos falando de um álbum que foi feito
na base do esforço solitário, o cara não pode
se dar ao luxo de contratar o Brian Sperber pra fazer a mixagem
e nem o Brian Eno pra produzir a parada, daí meteu os peito,
batalhou pra fazer e fez, com pouca ajuda e recursos. Ainda assim,
o resultado final fica comprometido talvez por este detalhe.
O disco começa muito bem com as ótimas "Garota
Desafio" e "O Convite", a primeira com uma levada
bem dançante, uma guitarra que se destaca, num solo surpreendente,
e um baixo bem seguro, marcante. Há muito tempo não
ouvia uma música de rock nacional tão simples, direta
e bacana. A segunda mostra que Fernando é um letrista muito
bom, está a anos-luz das boçalidades do nosso pobre
pop/rock (tal comparação é covardia), além
de ter uma melodia que cativa o ouvinte com um ótimo arranjo,
especialmente o violão se destacando.
Tem que se dizer que o álbum é basicamente "sessentista",
com arranjos simples e bem executados, mas que, afora essas duas
primeiras faixas, não apresentam grandes novidades. Há
influências psicodélicas dos Byrds, mas sem dúvida
são os Beatles os mais lembrados. Isso é bom e ruim,
porque você sente que o sujeito tem mais pra mostrar, mas
parece que está muito preso das citações aos
seus ídolos.
O cd então tem suas derrapadas. As citações
explícitas aos Beatles em "O sabor desse amor",
"Que seja p'ro seu bem", "Só superfície",
"Não Vou Aturar" e "Não Vou Aturar"
entediam e ofuscam as boas letras das canções. Em
algumas faixas, falta uma melhor elaboração nos arranjos
e um melhor uso das guitarras, que não se sobressaem como
deviam.
Apesar dos pesares e das irregularidades, o resultado final é
positivo. "Muita Atenção" é pra ser
ouvida... com muita atenção, porque a letra é
bem legal. "Vou Sair" anima o ouvinte, evitando a melancolia.
"Estações" é viajante ("vem
aí / quatro estações / em qual delas vou ter
mais paixões") , mas não disfarça sua
veia beatle. A viagem continua em "Eu Decidi Viver Bem",
meio hiponga, meio "All You Need Is Love", vamos todos
ser felizes e pronto! Depois, o bom humor continua na muito divertida
"Só Criança", contando as aventuras de um
conquistador já pra lá dos trinta incomodado: "sou
solteiro / e procuro alguém pra ficar / mas a faixa de idade
/ não quer nem um pouco ajudar". A letra é excepcional
e a faixa garante ótimas gargalhadas.
Quem gosta de rock cantando em português, certamente vai
gostar deste álbum. Fica a impressão que Fernando
Pennafort ainda tem balas na agulha, mas também não
deixa de ser um pouco desapontador perceber que este disco poderia
ser melhor. Bem, fica pra próxima. Mas esse aqui já
está acima da média e é superior a qualquer
disco de pop/rock nacional lançado nos últimos tempos.
É um compositor que tem talento e merece ser conhecido por
um público maior. E, se arranjar um bom produtor, ninguém
vai segurá-lo, com toda a certeza. |