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Beagá, 11 de julho de 2005 d.C.
 
Fernando Pennafort
Vou Sair
Por Cajabis Cannabis
 

Tempos atrás, escrevi aqui no ABACAXI sobre o cantor e compositor carioca Fernando Pennafort, analisando seu EP. Agora, entra aqui neste espaço seu primeiro disco, Vou Sair, com 14 faixas de sua autoria, onde ele canta e é o responsável por todos os instrumentos (exceto a bateria) em quase todas as faixas, além de produzir, gravar e mixar o álbum. Ufa!

E quem sabe este fato explique o problema do disco: sempre é bom ter um produtor que saiba corrigir os rumos do projeto, esteja atento e consiga ver coisas que o próprio artista não consegue. Claro, estamos falando de um álbum que foi feito na base do esforço solitário, o cara não pode se dar ao luxo de contratar o Brian Sperber pra fazer a mixagem e nem o Brian Eno pra produzir a parada, daí meteu os peito, batalhou pra fazer e fez, com pouca ajuda e recursos. Ainda assim, o resultado final fica comprometido talvez por este detalhe.

O disco começa muito bem com as ótimas "Garota Desafio" e "O Convite", a primeira com uma levada bem dançante, uma guitarra que se destaca, num solo surpreendente, e um baixo bem seguro, marcante. Há muito tempo não ouvia uma música de rock nacional tão simples, direta e bacana. A segunda mostra que Fernando é um letrista muito bom, está a anos-luz das boçalidades do nosso pobre pop/rock (tal comparação é covardia), além de ter uma melodia que cativa o ouvinte com um ótimo arranjo, especialmente o violão se destacando.

Tem que se dizer que o álbum é basicamente "sessentista", com arranjos simples e bem executados, mas que, afora essas duas primeiras faixas, não apresentam grandes novidades. Há influências psicodélicas dos Byrds, mas sem dúvida são os Beatles os mais lembrados. Isso é bom e ruim, porque você sente que o sujeito tem mais pra mostrar, mas parece que está muito preso das citações aos seus ídolos.

O cd então tem suas derrapadas. As citações explícitas aos Beatles em "O sabor desse amor", "Que seja p'ro seu bem", "Só superfície", "Não Vou Aturar" e "Não Vou Aturar" entediam e ofuscam as boas letras das canções. Em algumas faixas, falta uma melhor elaboração nos arranjos e um melhor uso das guitarras, que não se sobressaem como deviam.

Apesar dos pesares e das irregularidades, o resultado final é positivo. "Muita Atenção" é pra ser ouvida... com muita atenção, porque a letra é bem legal. "Vou Sair" anima o ouvinte, evitando a melancolia. "Estações" é viajante ("vem aí / quatro estações / em qual delas vou ter mais paixões") , mas não disfarça sua veia beatle. A viagem continua em "Eu Decidi Viver Bem", meio hiponga, meio "All You Need Is Love", vamos todos ser felizes e pronto! Depois, o bom humor continua na muito divertida "Só Criança", contando as aventuras de um conquistador já pra lá dos trinta incomodado: "sou solteiro / e procuro alguém pra ficar / mas a faixa de idade / não quer nem um pouco ajudar". A letra é excepcional e a faixa garante ótimas gargalhadas.

Quem gosta de rock cantando em português, certamente vai gostar deste álbum. Fica a impressão que Fernando Pennafort ainda tem balas na agulha, mas também não deixa de ser um pouco desapontador perceber que este disco poderia ser melhor. Bem, fica pra próxima. Mas esse aqui já está acima da média e é superior a qualquer disco de pop/rock nacional lançado nos últimos tempos. É um compositor que tem talento e merece ser conhecido por um público maior. E, se arranjar um bom produtor, ninguém vai segurá-lo, com toda a certeza.

 

 

 

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