Como norma, eu costumo
tomar distância de bandas de rock retrô que alguém
me diz serem a salvação da música. Em parte
é preconceito, mas por outro lado a grande maioria dessas
bandas é horrível, o que me leva a crer, pelo que
eu já ouvi, que não perdi nada relevante. Também
o Burning Brides é uma dessas bandas cujo som é rock
das antigas revisto e atualizado, mas sabe-se lá porquê,
pelo menos no Brasil, onde isso costuma funcionar, deu em nada.
Imagino que a falta de divulgação tenha contribuído
pra eclipsar a banda.
Quando eu comprei esse disco, imaginei se tratar de outra coisa
quando vi a capa e a descrição da loja pro cd, “Hard
Rock estilo anos 70”. Ainda me lembro como meu lado poser
estava cheio de esperanças de encontrar algo na linha de
Twisted sister naquele dia.
Aí, veio o que veio. Salvo um cowbell solitário que
abre “Stabbed in the Back of the Heart”, tem apenas
alguma coisa (pouca) de hard rock setentista aqui. O som dos caras
é na linha Stooges com psicodelia, mas tem também
elementos White Strokes/The Vives e alguma coisa definitivamente
grunge no meio. A essência é o tal rockão setentista,
mas o BB parece querer misturar as bandas-novas-de-rock-velho com
os medalhões de outrora, o que significa ser influenciado
por Mc5 e Libertines ao mesmo tempo. É justamente nesse ponto
que a carroça vira e os bois entornam, porque essas bandas
novas - salvo umas coisas do Hives e o pouco que eu ouvi do Vines
- não têm pegada alguma.
As letras são fracas, e olha que enquanto fã de Fantômas
e Melvins eu normalmente não ligo pra isso. Ainda assim,
comento esse aspecto porque algumas pérolas do BB chamam
a atenção à primeira ouvida, como o “nonstop
masturbation” na faixa que abre o cd e o “Mary Poppins
flies among the witches” mais adiante. O ápice é
o “all I wanted all my life was a best friend, but then I
looked into the Sun” em “Blood on the Highway”.
São poucas as bandas que podem conjurar uma imagem dessa
ou algo do tipo “mirem os controles pro coração
do Sol” e não soar ridículas. Tudo bem, vá
lá que o Therapy?,
uma das minhas bandas favoritas, também não é
nenhum primor em se tratando de letras e volta e meia dá
com os burros n’água quando tenta ser ácido
desse jeito, mas eu precisava dizer que a letras do BB são
de lascar. Paradoxalmente, não duvido que esse tipo de letras
mezzo mongas mezzo ácidas atraia mais gente
pro som da banda.
Os lances grunge do BB, embora não predominantes, são
bastante bem-feitos, o que significa que quem tem horror a esse
estilo pode descartar definitivamente a banda. As partes que soam
feitas pelo Kurt Cobain são melhores que as partes rockeironas
(alguém diga se “Elevator” não poderia
entrar no primeiro do Foo Fighters ou ter sido sobra do Nevermind).
As linhas de baixo também agradam mais que o todo das músicas
da banda. A baixista e namorada do vocal/guitarrista - até
nisso os caras copiam o White Stripes, diria algum maldoso - compõe
melhor que ele, o que não deixa de ser engraçado.
A mistureba rock velho/novo com Seattle não redime os caras
de fazer um disco sem muito brilho e que dificilmente alvoroça
o mainstream daqui (é de se culpar também a péssima
divulgação), mas a banda é boa. Nos dias de
hoje, não dá para se exigir mais que isso de ninguém
que se lance a fazer “rock de raiz”. Pra quem é,
tá de bom tamanho. Se esse site fosse do tipo que dá
nota pros discos, eu dava 7,25.
(Adendo: esse disco é de 2001, eles têm um mais recente
de 2004 chamado Leave no Ashes, que ainda não saiu
aqui. Adendo 2: em abril deste ano, os caras saíram em turnê
com o Mastodon,
hypadíssimo lá fora. Não se espante se por
acaso um dia o BB virar o próximo ato cult).
Nacional - V2/Sum Records.
Site oficial: http://www.burningbrides.com.
|