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Beagá, 30 de maio de 2005 d.C.
 
Metallica
Some Kind of Monster
Por Indiegesto
 

Esperei um tempo para assistir Some Kind of Monster, documentário que mostra o making of de St. Anger, do Metallica. Como odiei o disco, imaginava que o documentário seria uma droga. Não diria que o filme seja ruim, mas sim perturbador. Impossível não compara-lo com A Year and a Half in the Life of Metallica, documentário que cobriu o making of do Black Album e a primeira parte da tour de divulgação do disco. O que torna Some Kind of Monster perturbador é a diferença brutal de atitude da banda daquela época para cá.

Ambos os filmes mostram a banda num período de transição. Em A Year in a Half... o Metallica estava “grande demais” para a cena thrash metal que o revelou e se preparava para um salto ambicioso e perigoso de “partir para as cabeças”, alcançando um público muito maior. A escolha do produtor Bob Rock é a tônica dessa mudança, criando certa tensão (principalmente com James Hetfield). Com uma verve criativa e coesão inabalável, o Metallica trilhou rumos inéditos até então e o resultado já se sabe, eles se tornaram a maior banda de metal dos anos 90, sobrevivendo à explosão do grunge do início da década.

Já em Some Kind of Monster, vemos que a “instituição” Metallica ficou muito maior que a banda, que tem que provar que ainda tem bala na agulha e pode sobreviver num mercado dominado pelo new metal. Entretanto, os três membros remanescentes batem cabeça em intermináveis discussões que não chegam a lugar algum. Pra piorar, o empresário da banda contrata um psicólogo que trata bandas e jogadores (leia-se gente famosa que precisa trabalhar em grupo para garantir o $$$ da firma) para dar um jeito. Ai a coisa fica surreal, um monte de marmanjos agindo como um bando de crianças mimadas, jogando a culpa uns nos outros pela falta de imaginação para compor algo que preste.

O constrangimento de continuar assistindo o filme vai crescendo à medida que você vê o tempo passando (meses, anos) e a quantidade de dinheiro sendo jogado fora, enquanto dois egos gigantescos (James Hetfield e Lars Ulrich) ficam numa interminável disputa de poder e Kirk Hammet fica em cima do muro, impotente, diante de um Bob Rock atônito e procurando juntar os cacos. A única hora que Kirk Hammet ameaça tomar alguma atitude é quando comentam em evitar de fazerem solos e o guitarrista ensaia um piti ao dizer que era modismo fazer músicas sem solos (numa clara alusão ao new metal). O final, você sabe qual é.

Se tem alguém que se pergunta o porquê de Jason Newsteed ter abandonado a banda, o documentário ilustra muito bem as razões. Aliás, os únicos momentos em que alguma razão aparece é durante os depoimentos de Jason, que fala nada menos que o óbvio ao dizer que uma das gotas d’água foi quando o psicólogo foi contratado e, se a banda não consegue resolver os problemas sozinha, então não tem mais jeito. O destaque fica para as primeira sessões, onde Hetfield fica com cara de “não estou acreditando que estou fazendo isso”, o já famoso encontro entre Dave Mustaine (Megadeth) e Lars Ulrich, que fica pequeno para qualquer reality show, e quando a banda resolve dar um pé no psicólogo.

Se em A Year and a Half... você via o disco nascendo faixa a faixa, Some Kind of Monster não te dá pista de coisa nenhuma. As únicas faixas que parecem ter aparecido espontaneamente são "Frantic" (ponto para Bob Rock por ter tirado leite de pedra), "Some Kind of a Monster" e "Sweet Amber". Percebe-se a ruína quando os diretores do filme são chamados para uma reunião em que cogita-se a suspensão do documentário. Acredito que, para ficar bem na foto com a banda, os diretores cometeram um pecado terrível ao retratar Jason como o vilão da história, numa edição tendenciosa em que dá a entender que a carreira solo de Jason está prestes a decolar enquanto o Metallica está no fundo do poço, “renascendo como uma Fênix” no final das contas, ao ter seu disco lançado. Qualquer um que estava minimamente ligado ao que ocorria com o Metallica no começo da década, sabia que o Echobrain (banda de Jason) foi lançado por um selo pequeno e não teve quantias absurdas de dinheiro para divulgação. Nada que justificasse o clima de “Jason é o futuro, nós somos o passado” que a edição tenta passar na estréia solo do ex baixista da banda.

Outra coisa que parece querer livrar a barra do Metallica é quando a banda tem que participar de uma promoção esdrúxula de uma empresa que comanda duas das maiores cadeias de rádio dos EUA. Os integrantes fazem tudo o que o empresário manda numa constrangedora obediência, tendo que Bob Rock (o grande “vilão” de A Year and a Half...) ter que intervir dizendo que a banda não se prestaria a tal ridículo.

A descrição de Some Kind of Monster feita por James Hetfield cai perfeitamente bem para St. Anger: o disco é simplesmente um Frankenstein, um quebra-cabeça montado no Pro Tools. E o pior, não fica explicado como foi que decidiram deixar aquele som de MERDA de bateria. Quando o documentário dá uma lufada de inspiração (a contratação de Robert Trujillo), é tarde demais.

Se A Year and a Half in the Life of Metallica foi um documentário inspirador e obrigatório para qualquer um que queira se meter a entrar em um estúdio para gravar, Some Kind of Monster mostra tudo o que uma banda NÃO deve fazer. Ter que citar Bukowski é feio, mas lá vai: “Toda vez que você paga alguém para dizer a você o que fazer, você é um perdedor” . O Metallica pagou a alguém para dizer exatamente TUDO o que eles deveriam fazer, resultando em St. Anger, a derrota em 74 minutos.

 

 

 

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