Esperei um tempo para
assistir Some Kind of Monster, documentário que
mostra o making of de St. Anger, do Metallica. Como odiei
o disco, imaginava que o documentário seria uma droga. Não
diria que o filme seja ruim, mas sim perturbador. Impossível
não compara-lo com A Year and a Half in the Life of Metallica,
documentário que cobriu o making of do Black Album
e a primeira parte da tour de divulgação do disco.
O que torna Some Kind of Monster perturbador é a
diferença brutal de atitude da banda daquela época
para cá.
Ambos os filmes mostram a banda num período de transição.
Em A Year in a Half... o Metallica estava “grande
demais” para a cena thrash metal que o revelou e se preparava
para um salto ambicioso e perigoso de “partir para as cabeças”,
alcançando um público muito maior. A escolha do produtor
Bob Rock é a tônica dessa mudança, criando certa
tensão (principalmente com James Hetfield). Com uma verve
criativa e coesão inabalável, o Metallica trilhou
rumos inéditos até então e o resultado já
se sabe, eles se tornaram a maior banda de metal dos anos 90, sobrevivendo
à explosão do grunge do início da década.
Já em Some Kind of Monster, vemos que a “instituição”
Metallica ficou muito maior que a banda, que tem que provar que
ainda tem bala na agulha e pode sobreviver num mercado dominado
pelo new metal. Entretanto, os três membros remanescentes
batem cabeça em intermináveis discussões que
não chegam a lugar algum. Pra piorar, o empresário
da banda contrata um psicólogo que trata bandas e jogadores
(leia-se gente famosa que precisa trabalhar em grupo para garantir
o $$$ da firma) para dar um jeito. Ai a coisa fica surreal, um monte
de marmanjos agindo como um bando de crianças mimadas, jogando
a culpa uns nos outros pela falta de imaginação para
compor algo que preste.
O constrangimento de continuar assistindo o filme vai crescendo
à medida que você vê o tempo passando (meses,
anos) e a quantidade de dinheiro sendo jogado fora, enquanto dois
egos gigantescos (James Hetfield e Lars Ulrich) ficam numa interminável
disputa de poder e Kirk Hammet fica em cima do muro, impotente,
diante de um Bob Rock atônito e procurando juntar os cacos.
A única hora que Kirk Hammet ameaça tomar alguma atitude
é quando comentam em evitar de fazerem solos e o guitarrista
ensaia um piti ao dizer que era modismo fazer músicas sem
solos (numa clara alusão ao new metal). O final, você
sabe qual é.
Se tem alguém que se pergunta o porquê de Jason Newsteed
ter abandonado a banda, o documentário ilustra muito bem
as razões. Aliás, os únicos momentos em que
alguma razão aparece é durante os depoimentos de Jason,
que fala nada menos que o óbvio ao dizer que uma das gotas
d’água foi quando o psicólogo foi contratado
e, se a banda não consegue resolver os problemas sozinha,
então não tem mais jeito. O destaque fica para as
primeira sessões, onde Hetfield fica com cara de “não
estou acreditando que estou fazendo isso”, o já famoso
encontro entre Dave Mustaine (Megadeth) e Lars Ulrich, que fica
pequeno para qualquer reality show, e quando a banda resolve dar
um pé no psicólogo.
Se em A Year and a Half... você via o disco nascendo
faixa a faixa, Some Kind of Monster não te dá
pista de coisa nenhuma. As únicas faixas que parecem ter
aparecido espontaneamente são "Frantic" (ponto
para Bob Rock por ter tirado leite de pedra), "Some Kind of
a Monster" e "Sweet Amber". Percebe-se a ruína
quando os diretores do filme são chamados para uma reunião
em que cogita-se a suspensão do documentário. Acredito
que, para ficar bem na foto com a banda, os diretores cometeram
um pecado terrível ao retratar Jason como o vilão
da história, numa edição tendenciosa em que
dá a entender que a carreira solo de Jason está prestes
a decolar enquanto o Metallica está no fundo do poço,
“renascendo como uma Fênix” no final das contas,
ao ter seu disco lançado. Qualquer um que estava minimamente
ligado ao que ocorria com o Metallica no começo da década,
sabia que o Echobrain (banda de Jason) foi lançado por um
selo pequeno e não teve quantias absurdas de dinheiro para
divulgação. Nada que justificasse o clima de “Jason
é o futuro, nós somos o passado” que a edição
tenta passar na estréia solo do ex baixista da banda.
Outra coisa que parece querer livrar a barra do Metallica é
quando a banda tem que participar de uma promoção
esdrúxula de uma empresa que comanda duas das maiores cadeias
de rádio dos EUA. Os integrantes fazem tudo o que o empresário
manda numa constrangedora obediência, tendo que Bob Rock (o
grande “vilão” de A Year and a Half...)
ter que intervir dizendo que a banda não se prestaria a tal
ridículo.
A descrição de Some Kind of Monster feita
por James Hetfield cai perfeitamente bem para St. Anger:
o disco é simplesmente um Frankenstein, um quebra-cabeça
montado no Pro Tools. E o pior, não fica explicado como foi
que decidiram deixar aquele som de MERDA de bateria. Quando o documentário
dá uma lufada de inspiração (a contratação
de Robert Trujillo), é tarde demais.
Se A Year and a Half in the Life of Metallica foi um documentário
inspirador e obrigatório para qualquer um que queira se meter
a entrar em um estúdio para gravar, Some Kind of Monster
mostra tudo o que uma banda NÃO deve fazer. Ter que citar
Bukowski é feio, mas lá vai: “Toda vez que você
paga alguém para dizer a você o que fazer, você
é um perdedor” . O Metallica pagou a alguém
para dizer exatamente TUDO o que eles deveriam fazer, resultando
em St. Anger, a derrota em 74 minutos. |