| Chega
ao Brasil o quarto trabalho de Damon Gough, um dos mais talentosos
compositores da música pop atual.
O cara vem de Manchester e assina seus trabalhos com o singelo pseudônimo
Badly Drawn Boy. E é um verdadeiro fenômeno que seus discos sejam
solenemente
ignorados
pelo público
brasileiro, e também pela crítica de nosso país, parece que tá
todo mundo muito mais interessado no retorno do Barão Vermelho
ou na estréia da Pitty em DVD. Como já diz o ditado, tem gente
que gosta do olho, tem gente que gosta da remela.
Na
Inglaterra,
Badly Drawn Boy já é bastante manjado desde seu álbum de estréia The
Hour of Bewliderbeast, de 2000, que ganhou o Mercury Prize
daquele ano - ou seja, o prêmio de melhor álbum britânico da
temporada. Depois vieram a badalada trilha sonora do filme Um
Grande Garoto (About a Boy) e o álbum Have You
Fed the Fish?,
em 2002. Este seu novo trabalho é marcado novamente pela simplicidade
e delicadeza, ao mesmo tempo em que suas canções têm arranjos
belíssimos e assobiáveis, utilizando flauta, piano, metais e
mesmo arranjos de cordas aliados a um violão simples e intimista
- como na belíssima e marota "This Is That New Song", que aliás tem
uma letra apaixonante: "If I new where all the tears were flowing
to /
I'd guide them to a river /
Where I'd swim with you down stream /
This is that old dream /
I told you about twenty years ago."
Este
disco é quase impecável, com um ou outro sobressalto, às vezes muito
infantil, ingênuo mesmo. Mas é de uma sinceridade ímpar, que vai da
tristeza ("Fewer Words") ao otimismo (a excepcional "Four Leaf
Clover",
talvez a melhor do álbum). São letras bem elaboradas, sem muitas
viagens
ou frescuras, de fazer derreter o coração, acompanhadas de belas
melodias e ricos arranjos, criativos e empolgantes. A agitada "Summertime
in Wintertime" não deixa ninguém ficar parado, com direito a uma bela
flauta. "Another Devil Dies" tem uma pitada jazzística, com direito
a metais discretos, condizentes com o clima de todo o disco. "Life
Turned Upside Down" é violão e voz, mas com efeitos surpreendentes.
Não
posso me
esquecer de "Logic of a Friend", declaração de fidelidade extrema
a uma amizade ("And I don't know how to tell /
Is it heaven or hell /
That I'll be going to /
Just as long as I'm there with you") com direito a um piano bem
fim dos anos 60.
Honesto
e emocionante, One Plus One Is One é o típico
disco que conquista o ouvinte já na primeira audição.
A maior sacada de Gough é ser bem
menos pretensioso, por exemplo, que os malas do Belle & Sebastian.
Faz música com sensibilidade, porém sem frescuras e sem
fingimentos. A gente até volta a ser um pouco criança
ouvindo versos como "To live in the hearts of those that you loved
/ Is not to die" (Takes the Glory") ou "Do you know
where we're going to? / Do you know what we will do when we arrive?
/ As I wait
for you to set sail / Don't you know that I hope you find your holy
grail" ("Holy
Grail"). Pueris, mesmo. Mas tocantes. Peça este disco de
presente pro Papai Noel. |