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O Minus
5 é um projeto paralelo de Scott McCaughey, o cara toca com o R.E.M
desde 1994 mas aqui mostra que tem muitas balas na agulha pra disparar
também como compositor. Ao lado de Ken Stringfellow (ex-Posies,
tocou com o Big Star) e Peter Buck (seu patrão no próprio R.E.M),
o sujeito toca pra frente essa banda que acaba de cometer seu terceiro
disco, o impressionante Down With Wilco.
Epa!
Wilco? Sim, meus caros: o álbum conta simplesmente com a participação
da maior banda americana da atualidade, o Wilco de Jeff Tweedy e
sequazes. Planejado desde 1999, gravado em setembro de 2001 (algumas
faixas foram registradas no fatídico 11/09) e lançado em fevereiro
nos EUA (a gravadora da banda faliu no ano passado, o que explica
a demora), o álbum chega ao Brasil agora, ainda a tempo de pegar
uma carona no sucesso de Yankee Hotel Foxtrot, a última obra-prima
do Wilco.
Na
verdade, Down With Wilco lembra muito YHF: um álbum
conceitual, com canções interligadas, algumas vezes sem intervalos
entre si, que juntas contam uma historinha triste, melancólica,
mas nunca monótona, dividida em três "partes", três "capítulos".
É um belo trabalho realizado entre amigos: Scott é amigo de Jeff;
Jeff é amigo do Peter; Peter, por sua vez, já foi produtor do Uncle
Tupelo; o Uncle Tupelo foi a primeira banda do agora líder do Wilco;
o Wilco foi a banda que abriu a maioria dos shows da última turnê
americana do REM. Deu pra entender, né?
Logo
no começo do disco, uma belíssima ode ao deus Baco...: "não, eu
nunca gostaria de perder as noites de vinho e bebedeira", fala um
trecho de "Days of Wine and Booze". A faixa começa esquisita, com
o som de violinos, como se o ouvinte estivesse de ressaca. O piano
vem botar ordem nas coisas, e a música se transforma em uma viagem
maravilhosa, com vários efeitos muito bem utilizados ao fundo. Mais
um trecho: "Um dia, se estiver morto / um dia, se não conseguir
me levantar da cama / eu espero e rezo para que, na noite anterior,
nós estejamos chapados". Ah, um detalhe: não é o Paul McCartney
cantando, viu?...
Outro
grande momento é "Retrieval of You", pop delicioso, utilizando de
forma criativa efeitos com sintetizadores e um backing fantástico.
Perfeita. A introspecção impressiona na poderosa "That's Not The
Way That It's Done", com um piano e um arranjo de cordas impecáveis.
Há
um clima irreverente e nostálgico em "The Town that Lost Its Groove
Supply", baladinha onde a voz rouca de Jeff Tweedy se destaca e
que lembra claramente os Beach Boys. "Where Will You Go" é popíssima,
com uma guitarra meio country, teclados que chamam a atenção e um
backing vocal feminino cativante. Daí, passamos direto para "Life
Left him There", mais uma canção que transborda melancolia. Em "The
Family Gardiner" volta o Tweedy, com um violão e um teclado ao fundo.
"What
I don't Believe" apresenta uma bateria marcial e um piano a conduzir
a canção, daí metais fantásticos aparecem. "View From Below" é uma
balada apaixonante. Outro pop movimentado que teria tudo pra estourar
nas FMs (se as FMs prestassem) é a empolgante "I'm Not Bitter",
música que mostra todo o entrosamento dos músicos. Impossível ficar
parado. Violões e guitarras se combinam perfeitamente, os instrumentos
estão muito bem definidos. Dá pra dançar numa boa com a chata da
sua namorada que adora MPB e acha o Nando Reis o máximo. Ela vai
se surpreender com este disco, garanto.
No
final, a despedida melancólica e recheada de ironia em "Dear Employer":
"Querido patrão, gostaria de lhe dizer / que têm sido maravilhosos
todos esses anos / mas agora, sabe, eu tenho novos sapatos / e estarei
usando-os longe daqui". Ao fundo, um piano que faz desse pedido
de demissão ("that's the reason that I quit...") provavelmente o
mais belo de toda a história do pop.
Isso
sim é pop feito com qualidade, não é esse lixo que a gente tem aqui
no Brasil. Down With Wilco é um disco que chama muito a atenção
pelo capricho em seus arranjos, pelas suas letras inventivas e seu
conceito, que mostram bem que não se trata de um disco como qualquer
outro. É música feita verdadeiramente com carinho, com paixão, com
irreverência, sem nenhuma pretensão, muito menos estrelismo. É simplesmente
um dos melhores álbuns do ano. Não perca.
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