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Beagá, 06 de outubro de 2003 d.C.
 
Minus 5
Down With Wilco
Por Cajabis Cannabis
 

O Minus 5 é um projeto paralelo de Scott McCaughey, o cara toca com o R.E.M desde 1994 mas aqui mostra que tem muitas balas na agulha pra disparar também como compositor. Ao lado de Ken Stringfellow (ex-Posies, tocou com o Big Star) e Peter Buck (seu patrão no próprio R.E.M), o sujeito toca pra frente essa banda que acaba de cometer seu terceiro disco, o impressionante Down With Wilco.

Epa! Wilco? Sim, meus caros: o álbum conta simplesmente com a participação da maior banda americana da atualidade, o Wilco de Jeff Tweedy e sequazes. Planejado desde 1999, gravado em setembro de 2001 (algumas faixas foram registradas no fatídico 11/09) e lançado em fevereiro nos EUA (a gravadora da banda faliu no ano passado, o que explica a demora), o álbum chega ao Brasil agora, ainda a tempo de pegar uma carona no sucesso de Yankee Hotel Foxtrot, a última obra-prima do Wilco.

Na verdade, Down With Wilco lembra muito YHF: um álbum conceitual, com canções interligadas, algumas vezes sem intervalos entre si, que juntas contam uma historinha triste, melancólica, mas nunca monótona, dividida em três "partes", três "capítulos". É um belo trabalho realizado entre amigos: Scott é amigo de Jeff; Jeff é amigo do Peter; Peter, por sua vez, já foi produtor do Uncle Tupelo; o Uncle Tupelo foi a primeira banda do agora líder do Wilco; o Wilco foi a banda que abriu a maioria dos shows da última turnê americana do REM. Deu pra entender, né?

Logo no começo do disco, uma belíssima ode ao deus Baco...: "não, eu nunca gostaria de perder as noites de vinho e bebedeira", fala um trecho de "Days of Wine and Booze". A faixa começa esquisita, com o som de violinos, como se o ouvinte estivesse de ressaca. O piano vem botar ordem nas coisas, e a música se transforma em uma viagem maravilhosa, com vários efeitos muito bem utilizados ao fundo. Mais um trecho: "Um dia, se estiver morto / um dia, se não conseguir me levantar da cama / eu espero e rezo para que, na noite anterior, nós estejamos chapados". Ah, um detalhe: não é o Paul McCartney cantando, viu?...

Outro grande momento é "Retrieval of You", pop delicioso, utilizando de forma criativa efeitos com sintetizadores e um backing fantástico. Perfeita. A introspecção impressiona na poderosa "That's Not The Way That It's Done", com um piano e um arranjo de cordas impecáveis.

Há um clima irreverente e nostálgico em "The Town that Lost Its Groove Supply", baladinha onde a voz rouca de Jeff Tweedy se destaca e que lembra claramente os Beach Boys. "Where Will You Go" é popíssima, com uma guitarra meio country, teclados que chamam a atenção e um backing vocal feminino cativante. Daí, passamos direto para "Life Left him There", mais uma canção que transborda melancolia. Em "The Family Gardiner" volta o Tweedy, com um violão e um teclado ao fundo.

"What I don't Believe" apresenta uma bateria marcial e um piano a conduzir a canção, daí metais fantásticos aparecem. "View From Below" é uma balada apaixonante. Outro pop movimentado que teria tudo pra estourar nas FMs (se as FMs prestassem) é a empolgante "I'm Not Bitter", música que mostra todo o entrosamento dos músicos. Impossível ficar parado. Violões e guitarras se combinam perfeitamente, os instrumentos estão muito bem definidos. Dá pra dançar numa boa com a chata da sua namorada que adora MPB e acha o Nando Reis o máximo. Ela vai se surpreender com este disco, garanto.

No final, a despedida melancólica e recheada de ironia em "Dear Employer": "Querido patrão, gostaria de lhe dizer / que têm sido maravilhosos todos esses anos / mas agora, sabe, eu tenho novos sapatos / e estarei usando-os longe daqui". Ao fundo, um piano que faz desse pedido de demissão ("that's the reason that I quit...") provavelmente o mais belo de toda a história do pop.

Isso sim é pop feito com qualidade, não é esse lixo que a gente tem aqui no Brasil. Down With Wilco é um disco que chama muito a atenção pelo capricho em seus arranjos, pelas suas letras inventivas e seu conceito, que mostram bem que não se trata de um disco como qualquer outro. É música feita verdadeiramente com carinho, com paixão, com irreverência, sem nenhuma pretensão, muito menos estrelismo. É simplesmente um dos melhores álbuns do ano. Não perca.

 

 

 

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