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Beagá, 24 de março de 2003 d.C.
 

Massive Attack
100th Window

Por El Jako
 

É completamente impossível falar de 100th Window sem se lembrar do último álbum lançado pelos mal-humorados produtores de Bristol, Mezzanine. Ouvindo com atenção o novo petardo musical do Massive Attack, lá estão com certeza partes de Teardrop, Dissolver Girl ou Black Milk: os beats não são nada desconhecidos dos verdadeiros fãs da banda, as linhas de baixo espiraladas e o clima soturno estão todos lá, presentes de forma absolutamente implacável. Nem mesmo as saídas de Adrian "Mushroom" Vowles e Daddy G (este por motivos familiares e talvez não definitivamente) fizeram com que a banda perdesse a potência sonora que tanto a caracteriza: a mistura de momentos de completa introspecção com a quebradeira comandada por linhas percussivas de arrebentar ouvidos. As bases simples e sem invenções continuam fazendo parte do repertório do Massive Attack, que tem um som hipnótico, melancólico, investindo em grooves dub, ou seja, é trip hop da melhor qualidade, assim como Portishead e o também esquisito e enigmático Tricky.

Além de toda qualidade musical já conhecida, o quarto ábum da banda em doze anos de existência conta com a participação irretocável de Sinnead O'Connor em três faixas: "What Your Soul Sings", "Special Cases" e "Prayer for England", esta última com um recado sutil para as mentes beligerantes em voga no momento. A cantora figurinha carimbada do mundo pop não deixa nada a desejar das musas prediletas do Massive Attack, Liz Fraser e Tracy Thorn: sua voz encaixa como uma luva nas faixas em que participa, dá um clima depressivo perfeito para a claustrofóbica musica dos britânicos. Quem continua mandando muito bem nos vocais do Massive Attack é o crooner jamaicano Horace Andy, sua voz já se identifica completamente com a banda - quando escutamos seus timbres, já sabemos que se trata de uma das melhores bandas européias sobreviventes dos anos 90.

Embora estejam desfalcados de dois importantes mentores da banda, 3D (Robert del Naja) e Neil Davidge (que entrou com tudo em Mezzanine) dão conta do recado perfeitamente. Sobra inteligência e competência para os caras, sem tentar inovar eles mantém o alto nível do Massive Attack. 100th Window é espetacular não porque é inovador, mas sim porque mostra que é possível continuar bem sem maiores estardalhaços. Talvez essa seja a característica mais interessante do Massive Attack: a descrição, um ar meio descompromissado mas ao mesmo tempo sério. Entre os lançamentos deste início de ano, 100th Window é sem dúvida um dos melhores investimentos que se pode fazer para quem gosta de comprar discos intrigantes (destaque também para as faixas "Future Proof", "Everywhen" e "Antistar", esta dura "só" 19 minutos). Ouvir este álbum é uma forma de investigar melhor nossa mente: ele é calmo, é pesado, é leve, mas, principalmente, é bom, muito bom!!!

 

 

 

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