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É completamente
impossível falar de 100th Window sem se lembrar do último
álbum lançado pelos mal-humorados produtores de Bristol, Mezzanine.
Ouvindo com atenção o novo petardo musical do Massive Attack, lá
estão com certeza partes de Teardrop, Dissolver Girl
ou Black Milk: os beats não são nada desconhecidos dos verdadeiros
fãs da banda, as linhas de baixo espiraladas e o clima soturno estão
todos lá, presentes de forma absolutamente implacável. Nem mesmo
as saídas de Adrian "Mushroom" Vowles e Daddy G (este por motivos
familiares e talvez não definitivamente) fizeram com que a banda
perdesse a potência sonora que tanto a caracteriza: a mistura de
momentos de completa introspecção com a quebradeira comandada por
linhas percussivas de arrebentar ouvidos. As bases simples e sem
invenções continuam fazendo parte do repertório do Massive Attack,
que tem um som hipnótico, melancólico, investindo em grooves dub,
ou seja, é trip hop da melhor qualidade, assim como Portishead e
o também esquisito e enigmático Tricky.
Além
de toda qualidade musical já conhecida, o quarto ábum da banda em
doze anos de existência conta com a participação irretocável de
Sinnead O'Connor em três faixas: "What Your Soul Sings", "Special
Cases" e "Prayer for England", esta última com um recado sutil para
as mentes beligerantes em voga no momento. A cantora figurinha carimbada
do mundo pop não deixa nada a desejar das musas prediletas do Massive
Attack, Liz Fraser e Tracy Thorn: sua voz encaixa como uma luva
nas faixas em que participa, dá um clima depressivo perfeito para
a claustrofóbica musica dos britânicos. Quem continua mandando muito
bem nos vocais do Massive Attack é o crooner jamaicano Horace Andy,
sua voz já se identifica completamente com a banda - quando escutamos
seus timbres, já sabemos que se trata de uma das melhores bandas
européias sobreviventes dos anos 90.
Embora
estejam desfalcados de dois importantes mentores da banda, 3D (Robert
del Naja) e Neil Davidge (que entrou com tudo em Mezzanine)
dão conta do recado perfeitamente. Sobra inteligência e competência
para os caras, sem tentar inovar eles mantém o alto nível do Massive
Attack. 100th Window é espetacular não porque é inovador,
mas sim porque mostra que é possível continuar bem sem maiores estardalhaços.
Talvez essa seja a característica mais interessante do Massive Attack:
a descrição, um ar meio descompromissado mas ao mesmo tempo sério.
Entre os lançamentos deste início de ano, 100th Window é
sem dúvida um dos melhores investimentos que se pode fazer para
quem gosta de comprar discos intrigantes (destaque também para as
faixas "Future Proof", "Everywhen" e "Antistar", esta dura "só"
19 minutos). Ouvir este álbum é uma forma de investigar melhor nossa
mente: ele é calmo, é pesado, é leve, mas, principalmente, é bom,
muito bom!!!
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