
Os últimos dias têm sido corridos, e blá blá
blá. Eu teria escrevido antes, mas ficaria inconsistente.
Não que este texto esteja um primor nem nada, mas tem algumas
coisas interessantes, mesmo eu escrevendo mal. Como eu não
tenho muitas idéias, a coluna de hoje é só
sobre um assunto, que vocês vão descobrir logo abaixo.
Em tempo: bati meu recorde de feedback com a resenha do
Corrupted. Duas pessoas comentaram a respeito, nenhuma delas de
forma elogiosa. O que seria desse site sem incentivo, huh?

Todo mundo gosta de se divertir, inclusive os masoquistas. O Hedonismo
prega que, por princípio, o prazer é buscado de formas
que variam de pessoa pra pessoa: música, livros, boa conversa,
sexo. Existe uma espécie, que é a dos críticos
de música, que se sente bem tentando adivinhar qual é
a próxima grande onda - aquilo que hoje, em português
cult, convencionou-se chamar hype.
Tentativas de compreender esse povo à parte, alguém
já comparou os hypes de fora com os daqui? É
esquisita a relação de perenidade entre nós
e “eles”, porque nada dura muito tempo lá. Certos
hypes ficam mortos com uma velocidade de deixar com inveja a
peste negra que varreu a Europa do século 14. Alguém
é capaz de dizer quem são Andrew
W.K. ou Hoobastank
hoje? Você sabe que eles existem, e tal, mas não se
ouve mais falar nesses caras.
Já aqui não raro as bandas hypadas de outrora continuam
atuantes até hoje. Ou então, mesmo que as bandas passem,
o estilo continua. Acho que eu vou morrer e ainda vai se falar em
sertanejo - que até hoje, aliás, continua focado nas
mesmas famílias, que têm o mesmo holofote de antes
por parte da “mídia”, oh a mídia, a malfeitora
culpada de tudo. No Brasil, ao contrário dos gringos, as
bandas hypadas não só não ficam totalmente
de lado como conseguem seguir carreira, lançam vários
discos e volta e meia aparecem num desses programas de auditório
que tocam playback. Bondade do showbiz daqui ou
falta de visão de mercado das majors locais? Os
ossos de Dana de Teffé pra quem souber a resposta.
Só frisando que o hype é algo absolutamente normal,
goste-se ou odeie-se. Neste espaço mesmo há alguns
(dos quais SunnO))) e Paranóia Oeste são os mais visíveis),
e em outros há outros. Talvez seja pior ainda que o hype
aqueles que jogam uma banda ou um estilo pro alto ou pra baixo por
conta dele. Descartar algo de cara pode mostrar que você tem
personalidade na mesa de bar, mas é impossível dizer
quando você perde algo grande e que - gasp! - mereceu ser
hypado. Não sei se existe uma solução pro problema
do hype injustificado, mas não acho que reclamar com colunistas
que vivem disso ajude muito - em sua maioria, críticos, até
pelo nome, costumam se fortalecer desse tipo de feedback negativo.
É uma verdade absoluta. Pergunte ao APJ.

Neste exato momento no Reino Unido, o grime é o
novo hype. Até a Folha percebeu isso e fez uma matéria
a respeito (não vamos recomeçar a discussão
do papel da mídia nesse imbróglio; agradeçam
à FSP por mostrar pra vocês o que é
quente, seus ingratos). O texto que eu li tinha uma entrevista com
uma menina chamada Lady Sovereign, que alguém definiu como
“Feminem”. A partir daí, acho que dá pra
se ter uma idéia do tipo de som.
O hype do grime não surgiu com ela, de qualquer forma. Começou
com Dizzee Rascal, que ajudou a trazer o estilo pro mainstream com
um disco chamado Boy
in da Corner, de 2004. Outros manos que contribuíram
pra bombar o gênero foram a M.I.A., que até conseguiu
bastante atenção do Pitchfork
Media quando surgiu. Pra quem não conhece, o PM é
mais ou menos uma das bíblias dos hypeiros de lá...
Por algum motivo, esse episódio em particular me lembra o
NoMínimo
com a Bruna Surfistinha.
Por sinal, pra quem ainda se lembra da M.I.A., ela assinou um contrato
com a Honda pra que a companhia utilizasse 30 segundos de uma música
dela (“Galang”) em um comercial. Os blogueiros
ficaram divididos a respeito (esqueci de dizer que a pirataria
digital e os blogs ajudaram bastante na popularização
do grime. Por aqui, isso acontece em
menor escala). Quando até o DJ
/rupture se mostra ligeiramente encanado com o nível
de popularidade do estilo (“O grime é o novo rap do
Reino Unido? Uma paródia de si mesmo?”), você
só pode imaginar o que vem por aí.
“Mas do que este idiota está falando? Que merda é
essa, afinal?”, você se pergunta? Se eu fosse passar
uma noção de grime para iniciantes, diria que soa
como alguém fazendo raggamuffin em cima de uma batida
que parece trilha de um jogo de corrida de Playstation 2. Como se
vê, eu não sou referência, mas pra quem se animou,
baixe Gold
Teeth Thief, estréia do /rupture. Ajuda a entender.

Hype reverso: todos os fãs de Therapy? do Brasil (os oito)
vão gostar de saber que a banda está desde janeiro
gravando disco novo, o
décimo primeiro. Pra quem espera Troublegum pt. 2,
eu não sei o que dizer, talvez desistam ou vão procurar
outra coisa, sei lá.
O produtor do novo disco tem nome de brasileiro (Pedro Ferreira),
mas é português, segundo este
site. De oficial, sabe-se que ele já produziu o Permission
to Land, do The Darkness (coincidência eles aparecerem
num texto sobre hype) e Tokyo Dragons (quem?).
Por sinal, o disco
anterior do Therapy? saiu aqui, prova da tal falta de visão
ou bondade das majors locais.

Alguns álbuns e artistas que era pra eu ter hypado no ano
passado, mas não o fiz por falta de elementos ou competência
pra escrever algo decente:
Emerald
Vulture, do Sourvein:
sludge de cartilha, mas os caras são bons. Todas
as músicas começam com o mesmo feedback de guitarra
e se parecem, mas os caras são bons. Sludge é Black
Sabbath com vocal e atitude punk que virou clichê com o tempo,
mas os caras são bons. Este EP (cinco músicas) é
o primeiro, lançado no fim do ano passado, e neste ano sairão
mais dois. Não é melhor que as primeiras coisas do
Eyehategod (um dos pais do estilo, que apareceu com a parada ao
tentar soar como Melvins e Grief), mas os caras são bons.
Não vai sair por aqui e dificilmente haverá um milhão
de pessoas pra ver eles no Brasil, mas os caras são bons
(importado / This
Dark Reign Records).
Xô Governo, do RHD:
a volta do crossover (thrash+hardcore)? Fazia tempo que
não saía algo desse estilo que não fosse chato.
O RHD (Raça Humana Destrói) começou como um
projeto paralelo de três caras do Presto? (hardcore/grindcore),
mas periga virar a banda principal porque o Presto? acabou de novo.
Pois é. Este cd tem os melhores riffs de guitarra que eu
já ouvi em muito, muito tempo, mas não acredite no
hype, em algum lugar da internet tem as músicas pra baixar
(tentei pelo site, mas não consegui). A capa é tão
horrorosa quanto o nome do disco e parece feita em uma impressora
fuleira, mas não deixe que esse tipo de coisa afugente. Eu
provavelmente ajudo mais os caras não colocando a imagem
da capa, mas quem quiser conferir a horripilância, cheque
o post
do dia 27/10 (nacional / Cospe
Fogo Gravações e Travolta
Discos).
Discografia
1994-2004, do Gritos:
hardcore rápido bacana, com influências variadas (primário
no começo da carreira e mais elaborado nas coisas recentes).
A banda se chamava Gritos de Ódio, mas aboliu a segunda parte
do nome. Entenda-se. Ainda como Gritos de ódio, eles lançaram
em 2004 o cd Profundo Inconsciente, que é fodão
e está inteiro nessa compilação. Era pra ter
uma música
nova pra download na página oficial dos caras, mas o
link pede senha. Burros (nacional - Läjä
Rëkord’s, Chain
Recordings e Estopim).
Orange
Canyon Mind, do Skullflower:
esquisitão. Eu odiei isso quando ouvi porque achava o álbum
anterior - Exquisite
Fucking Boredom - muito mais legal, mas decidi reescutar
quando descobri que a banda tem mais de vinte anos de existência
e li em algum lugar sobre a conexão deles com o Godflesh
- um dos álbuns mais pesados do SF, Infinityland,
foi lançado pelo selo dum mano do GF, e supostamente o Skullflower
disse em uma entrevista que influenciou bastante o Godflesh (modéstia
é artigo de luxo no mundo da música). Salvo a música
“Annihilating Angel”, não ouvi muito do tal elo
com o Godflesh em OCM, mas os caras têm lá
seus méritos próprios. Este disco novo em particular
é mais suave que outras coisas deles, uma mistura de drone
(quando é que eu vou parar com isso, meu Deus?) com sons
ambientes e eletrônicos. A guitarra predomina menos, mas dá
mais espaço pras músicas progredirem. É um
daqueles discos que crescem em você se você tiver tempo
e saco. Pena que tudo acaba bruscamente, as músicas começam
do nada e terminam sem motivo. Pra quem cansou de estruturas musicais
pode ser interessante. Se o Neubauten
se preocupasse menos em ser sexy e mais em fazer dissonâncias,
talvez ele fosse como o Matthew Bower, mentor do Skullflower. Ouvi
dizer que insetos adoram esse tipo de som pra acasalar (importado
- Crucial
Blast Records).

Hype underground: uma das minhas novas bandas favoritas, o The
Bug lança em breve um disco novo chamado Killing Sound
(fonte).
Na última edição da revista XLR8R
tem uma entrevista com o dono do projeto, Kevin Martin (ex-God,
também toca no Techno Animal). Alguém me arrume uma
senha de assinante pra eu ler o que ele fala.

Hype por inércia: alguém ouviu o último disco
do Damian “Jr. Gong” Marley, Welcome
to Jamrock? Supostamente é bonzão. Ouvi uma
participação dele no
último do Cypress Hill, e é uma das melhores músicas.
Não saberia dizer se o estilo dele é grime
ou raggamuffin, mas fiquei curioso. Se alguém souber
algo a respeito, me
mande um e-mail e eu publico o comentário.

O hype dos que não foram: estranhíssimos os 30
mais de 2005 do Sukrilius. Eu não conheço metade
pra opinar, mas muito do que eu conheço ali não me
desce. Mas aproveito a menção ao System
of a Down (os dois últimos deles encabeçam a lista)
pra falar sobre o Serart, disco solo do vocalista do SOAD,
Serj Tankian, com o multiinstrumentista Arto Tuncboyaciyan (ele
faz alguns vocais em “Science”, do Toxicity,
e toca na música escondida no fim daquele álbum).
Tem coisas mais legais que os Izes do SOAD, mas é
preciso analisar o disco em outro contexto, já que as idéias
e concepções de som são diferentes. São
outros focos, apesar de a música do Oriente Médio
continuar presente. Serart é mais experimental e
não há aquela encanação de soar pesado
ou acessível, talvez porque quem lançou o álbum
tenha sido o selo criado pelo próprio Tankian, Serjical
Strike (obs: quem distribui os discos do selo é a BMG,
que se juntou com a Sony. Manja a Deck
Disc e o esquema “assim até eu”? Então.).
Em se tratando de um álbum solo de um vocalista, é
mais bem-acabado, por exemplo, que os dois solos do Mike Patton
(e isso vindo de um fã semifervoroso do Patton), embora o
Serart seja mais pretensioso. Sobre este álbum,
o Indiegesto diz que “tem muito Carlinhos Brown” e é
verdade, mas algumas coisas se salvam. É o cúmulo
quando o projeto paralelo fica melhor que a banda, mas se isso animar
o SOAD a cortar as asas do guitarrista ou levar alguns fãs
de Disturbed a enveredarem pelo experimentalismo, servirá
pra alguma coisa.
Por ora, é isso.
|