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Beagá, 13 de fevereiro de 2006 d.C.
 
Nossos hypes e os “deles”
Por John Gracinha
 

Os últimos dias têm sido corridos, e blá blá blá. Eu teria escrevido antes, mas ficaria inconsistente. Não que este texto esteja um primor nem nada, mas tem algumas coisas interessantes, mesmo eu escrevendo mal. Como eu não tenho muitas idéias, a coluna de hoje é só sobre um assunto, que vocês vão descobrir logo abaixo.

Em tempo: bati meu recorde de feedback com a resenha do Corrupted. Duas pessoas comentaram a respeito, nenhuma delas de forma elogiosa. O que seria desse site sem incentivo, huh?

Todo mundo gosta de se divertir, inclusive os masoquistas. O Hedonismo prega que, por princípio, o prazer é buscado de formas que variam de pessoa pra pessoa: música, livros, boa conversa, sexo. Existe uma espécie, que é a dos críticos de música, que se sente bem tentando adivinhar qual é a próxima grande onda - aquilo que hoje, em português cult, convencionou-se chamar hype.

Tentativas de compreender esse povo à parte, alguém já comparou os hypes de fora com os daqui? É esquisita a relação de perenidade entre nós e “eles”, porque nada dura muito tempo lá. Certos hypes ficam mortos com uma velocidade de deixar com inveja a peste negra que varreu a Europa do século 14. Alguém é capaz de dizer quem são Andrew W.K. ou Hoobastank hoje? Você sabe que eles existem, e tal, mas não se ouve mais falar nesses caras.

Já aqui não raro as bandas hypadas de outrora continuam atuantes até hoje. Ou então, mesmo que as bandas passem, o estilo continua. Acho que eu vou morrer e ainda vai se falar em sertanejo - que até hoje, aliás, continua focado nas mesmas famílias, que têm o mesmo holofote de antes por parte da “mídia”, oh a mídia, a malfeitora culpada de tudo. No Brasil, ao contrário dos gringos, as bandas hypadas não só não ficam totalmente de lado como conseguem seguir carreira, lançam vários discos e volta e meia aparecem num desses programas de auditório que tocam playback. Bondade do showbiz daqui ou falta de visão de mercado das majors locais? Os ossos de Dana de Teffé pra quem souber a resposta.

Só frisando que o hype é algo absolutamente normal, goste-se ou odeie-se. Neste espaço mesmo há alguns (dos quais SunnO))) e Paranóia Oeste são os mais visíveis), e em outros há outros. Talvez seja pior ainda que o hype aqueles que jogam uma banda ou um estilo pro alto ou pra baixo por conta dele. Descartar algo de cara pode mostrar que você tem personalidade na mesa de bar, mas é impossível dizer quando você perde algo grande e que - gasp! - mereceu ser hypado. Não sei se existe uma solução pro problema do hype injustificado, mas não acho que reclamar com colunistas que vivem disso ajude muito - em sua maioria, críticos, até pelo nome, costumam se fortalecer desse tipo de feedback negativo. É uma verdade absoluta. Pergunte ao APJ.

Neste exato momento no Reino Unido, o grime é o novo hype. Até a Folha percebeu isso e fez uma matéria a respeito (não vamos recomeçar a discussão do papel da mídia nesse imbróglio; agradeçam à FSP por mostrar pra vocês o que é quente, seus ingratos). O texto que eu li tinha uma entrevista com uma menina chamada Lady Sovereign, que alguém definiu como “Feminem”. A partir daí, acho que dá pra se ter uma idéia do tipo de som.

O hype do grime não surgiu com ela, de qualquer forma. Começou com Dizzee Rascal, que ajudou a trazer o estilo pro mainstream com um disco chamado Boy in da Corner, de 2004. Outros manos que contribuíram pra bombar o gênero foram a M.I.A., que até conseguiu bastante atenção do Pitchfork Media quando surgiu. Pra quem não conhece, o PM é mais ou menos uma das bíblias dos hypeiros de lá... Por algum motivo, esse episódio em particular me lembra o NoMínimo com a Bruna Surfistinha.

Por sinal, pra quem ainda se lembra da M.I.A., ela assinou um contrato com a Honda pra que a companhia utilizasse 30 segundos de uma música dela (“Galang”) em um comercial. Os blogueiros ficaram divididos a respeito (esqueci de dizer que a pirataria digital e os blogs ajudaram bastante na popularização do grime. Por aqui, isso acontece em menor escala). Quando até o DJ /rupture se mostra ligeiramente encanado com o nível de popularidade do estilo (“O grime é o novo rap do Reino Unido? Uma paródia de si mesmo?”), você só pode imaginar o que vem por aí.

“Mas do que este idiota está falando? Que merda é essa, afinal?”, você se pergunta? Se eu fosse passar uma noção de grime para iniciantes, diria que soa como alguém fazendo raggamuffin em cima de uma batida que parece trilha de um jogo de corrida de Playstation 2. Como se vê, eu não sou referência, mas pra quem se animou, baixe Gold Teeth Thief, estréia do /rupture. Ajuda a entender.

Hype reverso: todos os fãs de Therapy? do Brasil (os oito) vão gostar de saber que a banda está desde janeiro gravando disco novo, o décimo primeiro. Pra quem espera Troublegum pt. 2, eu não sei o que dizer, talvez desistam ou vão procurar outra coisa, sei lá.

O produtor do novo disco tem nome de brasileiro (Pedro Ferreira), mas é português, segundo este site. De oficial, sabe-se que ele já produziu o Permission to Land, do The Darkness (coincidência eles aparecerem num texto sobre hype) e Tokyo Dragons (quem?).

Por sinal, o disco anterior do Therapy? saiu aqui, prova da tal falta de visão ou bondade das majors locais.

Alguns álbuns e artistas que era pra eu ter hypado no ano passado, mas não o fiz por falta de elementos ou competência pra escrever algo decente:

Emerald Vulture, do Sourvein: sludge de cartilha, mas os caras são bons. Todas as músicas começam com o mesmo feedback de guitarra e se parecem, mas os caras são bons. Sludge é Black Sabbath com vocal e atitude punk que virou clichê com o tempo, mas os caras são bons. Este EP (cinco músicas) é o primeiro, lançado no fim do ano passado, e neste ano sairão mais dois. Não é melhor que as primeiras coisas do Eyehategod (um dos pais do estilo, que apareceu com a parada ao tentar soar como Melvins e Grief), mas os caras são bons. Não vai sair por aqui e dificilmente haverá um milhão de pessoas pra ver eles no Brasil, mas os caras são bons (importado / This Dark Reign Records).

Xô Governo, do RHD: a volta do crossover (thrash+hardcore)? Fazia tempo que não saía algo desse estilo que não fosse chato. O RHD (Raça Humana Destrói) começou como um projeto paralelo de três caras do Presto? (hardcore/grindcore), mas periga virar a banda principal porque o Presto? acabou de novo. Pois é. Este cd tem os melhores riffs de guitarra que eu já ouvi em muito, muito tempo, mas não acredite no hype, em algum lugar da internet tem as músicas pra baixar (tentei pelo site, mas não consegui). A capa é tão horrorosa quanto o nome do disco e parece feita em uma impressora fuleira, mas não deixe que esse tipo de coisa afugente. Eu provavelmente ajudo mais os caras não colocando a imagem da capa, mas quem quiser conferir a horripilância, cheque o post do dia 27/10 (nacional / Cospe Fogo Gravações e Travolta Discos).

Discografia 1994-2004, do Gritos: hardcore rápido bacana, com influências variadas (primário no começo da carreira e mais elaborado nas coisas recentes). A banda se chamava Gritos de Ódio, mas aboliu a segunda parte do nome. Entenda-se. Ainda como Gritos de ódio, eles lançaram em 2004 o cd Profundo Inconsciente, que é fodão e está inteiro nessa compilação. Era pra ter uma música nova pra download na página oficial dos caras, mas o link pede senha. Burros (nacional - Läjä Rëkord’s, Chain Recordings e Estopim).

Orange Canyon Mind, do Skullflower: esquisitão. Eu odiei isso quando ouvi porque achava o álbum anterior - Exquisite Fucking Boredom - muito mais legal, mas decidi reescutar quando descobri que a banda tem mais de vinte anos de existência e li em algum lugar sobre a conexão deles com o Godflesh - um dos álbuns mais pesados do SF, Infinityland, foi lançado pelo selo dum mano do GF, e supostamente o Skullflower disse em uma entrevista que influenciou bastante o Godflesh (modéstia é artigo de luxo no mundo da música). Salvo a música “Annihilating Angel”, não ouvi muito do tal elo com o Godflesh em OCM, mas os caras têm lá seus méritos próprios. Este disco novo em particular é mais suave que outras coisas deles, uma mistura de drone (quando é que eu vou parar com isso, meu Deus?) com sons ambientes e eletrônicos. A guitarra predomina menos, mas dá mais espaço pras músicas progredirem. É um daqueles discos que crescem em você se você tiver tempo e saco. Pena que tudo acaba bruscamente, as músicas começam do nada e terminam sem motivo. Pra quem cansou de estruturas musicais pode ser interessante. Se o Neubauten se preocupasse menos em ser sexy e mais em fazer dissonâncias, talvez ele fosse como o Matthew Bower, mentor do Skullflower. Ouvi dizer que insetos adoram esse tipo de som pra acasalar (importado - Crucial Blast Records).

Hype underground: uma das minhas novas bandas favoritas, o The Bug lança em breve um disco novo chamado Killing Sound (fonte). Na última edição da revista XLR8R tem uma entrevista com o dono do projeto, Kevin Martin (ex-God, também toca no Techno Animal). Alguém me arrume uma senha de assinante pra eu ler o que ele fala.

Hype por inércia: alguém ouviu o último disco do Damian “Jr. Gong” Marley, Welcome to Jamrock? Supostamente é bonzão. Ouvi uma participação dele no último do Cypress Hill, e é uma das melhores músicas. Não saberia dizer se o estilo dele é grime ou raggamuffin, mas fiquei curioso. Se alguém souber algo a respeito, me mande um e-mail e eu publico o comentário.

O hype dos que não foram: estranhíssimos os 30 mais de 2005 do Sukrilius. Eu não conheço metade pra opinar, mas muito do que eu conheço ali não me desce. Mas aproveito a menção ao System of a Down (os dois últimos deles encabeçam a lista) pra falar sobre o Serart, disco solo do vocalista do SOAD, Serj Tankian, com o multiinstrumentista Arto Tuncboyaciyan (ele faz alguns vocais em “Science”, do Toxicity, e toca na música escondida no fim daquele álbum).

Tem coisas mais legais que os Izes do SOAD, mas é preciso analisar o disco em outro contexto, já que as idéias e concepções de som são diferentes. São outros focos, apesar de a música do Oriente Médio continuar presente. Serart é mais experimental e não há aquela encanação de soar pesado ou acessível, talvez porque quem lançou o álbum tenha sido o selo criado pelo próprio Tankian, Serjical Strike (obs: quem distribui os discos do selo é a BMG, que se juntou com a Sony. Manja a Deck Disc e o esquema “assim até eu”? Então.).

Em se tratando de um álbum solo de um vocalista, é mais bem-acabado, por exemplo, que os dois solos do Mike Patton (e isso vindo de um fã semifervoroso do Patton), embora o Serart seja mais pretensioso. Sobre este álbum, o Indiegesto diz que “tem muito Carlinhos Brown” e é verdade, mas algumas coisas se salvam. É o cúmulo quando o projeto paralelo fica melhor que a banda, mas se isso animar o SOAD a cortar as asas do guitarrista ou levar alguns fãs de Disturbed a enveredarem pelo experimentalismo, servirá pra alguma coisa.

Por ora, é isso.

 
John Gracinha é correspondente voluntário do Abacaxi e louco pra ser aceito na cena glam paulistana. E-mail: johngracinha@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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