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Beagá, 02 de janeiro de 2006 d.C.
 
Enfim, o fim
Por John Gracinha
 

O ano foi terrível, ainda bem que acabou. Todo ano acaba parecendo pior que o anterior, mas acho que 2005 foi o auge das expectativas frustradas e confianças não-correspondidas. Foi o ano em que eu mais perdi gente próxima a mim (metafórica e literalmente falando) e vi amigos perderem familiares e se ferrarem de vários jeitos. Pra acrescentar falência à miséria espiritual, veio a falta de grana e o seqüestro no Imposto de Renda. Pior é difícil.

Estranhamente, a aura de azar que normalmente suga tudo à minha volta como um buraco negro pareceu perder força em 2005. Noves fora os dramas pessoais, eu consegui ficar bêbado e rir de gente/acontecimentos tanto quanto gostaria neste ano. Em retrospecto, poderia ter sido melhor, mas eu não teria saco nem memória pra recapitular o que rolou em 2005 que daria pra melhorar em 2006 – e quem se importa? Nada muda mesmo.

Se cada ano que termina fosse bom, as pessoas não desejariam Feliz Ano Novo às outras.

A música em 2005 foi um saco: dá pra contar nos dedos os álbuns legais que saíram. Entre os que eu me lembro de cabeça agora, tem o disco homônimo do Jesu, o EP/mCD do The Bug, os novos do Lightning Bolt e Orthrelm, Earth e SunnO))) e ....hm....é só o que eu me lembro agora. O novo do Queens of the Stone Age é até legal, mas como eu sou viúva do Kyuss, continuo a guardar luto pela banda e não consigo simpatizar muito com QotSA. Apesar da minha teimosia, a música que tem cowbell (“Little sister”?) é o hit do ano.

Ahhh, e um disco de banda nacional que eu ouvi tardiamente e achei legal é o do Movéis Coloniais de Acaju. À primeira ouvida é constrangedor, espécie de Secret Chiefs 3/Mr.Bungle da época das demos de ska com um vocal que me lembra Los Hermanos. Com o tempo, eu consegui gostar, mas as letras românticas são piores que o nome da banda.

Os dois últimos do System of a Down e o novo do Mars Volta são bacanas por pouco tempo e horríveis a longo prazo.

Acho que só pra mim o Claro que é Rock foi um saco. Tinha prometido escrever sobre isso logo depois que rolou o festival, mas eu menti. Como o editor me pressionou, tenho que escrever minhas impressões sobre o CQER. Basicamente, não senti nada de especial por nenhum show daquela noite.

A exceção talvez seja o Fantômas, única banda que me deixou mais esperançoso. Eles destroçaram minhas expectativas de uma maneira cruel. Há seis anos eu sonhava com o dia em que veria a banda ao vivo, e o show dos caras foi brochante. Tudo bem que o mano lá do Frank Zappa não deve ter tido tempo de ensaiar direito, mas não foi só isso. Ao invés do caos habitual dos álbuns de estúdio, o set dos caras foi cirúrgico, sem emoção, frio. E chato. E isso vindo de um daqueles fãs mais cegos do Mike Patton, que ouve Adult Themes for Voice e acha o máximo. Tudo bem que Delìrivm Còrdia é soporífero, mas por alguma razão eu pensava que seria diferente... a caçada foi melhor que a caça. Deve ter sido melhor que o Suicidal Tendencies reformado que iria tocar no CQER originalmente, de qualquer forma.

Os outros shows foram apenas ok pra mim. Flaming Lips fez um set curto e tentou trazer o clima de circo/arena-rock pro show. Imagino como seria a vibe de uma turnê deles com o Boredoms. No CQER, não rolou ânimo, mas nos cd’s que eu ouvi o FL já não decola mesmo (em tempo: vendo meu Yoshimi Battles the Pink Robots por 25 paus, a quem interessar). Eles tocaram dois covers, “War Pigs” e “Bohemian Rhapsody” com direito a coro da platéia, e a sensação era de incômodo - você não sabia se ria dos caras ou se ficava constrangido por compactuar com aquilo. Me pergunto se na época do Freddie Mercury as pessoas encanavam com isso ou iam aos shows do Queen só pra fazer piadas sobre o bigode do cara. Enfim, o Flaming Lips lembra aquela mina feia que tenta compensar sendo inteligente, só que no caso da banda eles compensam a falta de graça com um monte de artifícios, inclusive fogos de artifício.

Sonic Youth e Iggy and The Stooges também foram normais, sendo o Iggy um pouco mais legal. Acho que uma parte do público que detestou o Fantômas achou o set do SY outra porcaria, porque em essência os sets foram parecidos na falta de melodia e sobra de barulho, mas no dia seguinte ninguém se atreveu a falar nada a respeito... eu culpo o hype. Sabe como é, não se fala mal de Sonic Youth. O último crítico que fez isso está hoje em Nashvillle e resenha cd’s dos clones do Garth Brooks e Hank Williams.

Nine Inch Nails foi bom e tocaram quase todos os hits que eu conhecia. Eu realmente não gosto muito dessa banda e seria o menos indicado pra comentar sobre eles por uma questão de indiferença. Achei que os fãs góticos/pseudo-intelectuais dos caras fossem dar chilique e encher o saco como os posers fariam num show do Guns’n’roses, mas não teve disso. Era engraçado ver o Trent Reznor cantando aquelas músicas pra se tomar ácido e ecstasy com um visual à la Henry Rollins (marombado de cabelo curto). Em compensação, a tal história de que eles trouxeram um avião cheio de equipamento só pode ser jogada de marketing, porque não fez diferença alguma no som deles em comparação com as outras bandas. A não ser que o avião estivesse carregado de lâmpadas e holofotes, mas nesse caso não sairia mais barato alugar alguma coisa por aqui? Entenda-se esses ravers...

Saí do CQER contente, no sentido de contentado, mas isso não é muita coisa. Todos os shows foram legais como eu esperava, mas nada além disso. Não rolou química nem com as bandas e nem com a cerveja do lugar, que era cara pra burro. Sempre achei que um show ruim se salva com álcool, mas nem a isso deu pra recorrer. Deu no que deu.

Só não escrevo que o show do Jurassic 5 superou o CQER porque os abacaxinautas vão achar que os parágrafos acima não passam da visão de um rapper sobre um festival de rock, e não é por aí. O show do J5 foi legal, e tal, e eu gosto tanto de rap quanto de rock (apesar que na hierarquia do rap eu não passaria nem no vestibular pra avião de boca de fumo). Além do mais, uma comparação entre o CQER e o J5 ficaria meio descabida, eu acho.

Em tempo: o show do Jurassic 5 superou o CQER!

Das bandas que eu vi até agora escaladas pra vir pra cá, nada me animou. Felizmente, tudo indica que menos grana será gasta com shows em 2006.

A política também foi uma merda, mas o Lula que escreva a respeito aqui, se quiser e desde que pague o dízimo cobrado pelo Cajabis. Se 1968 foi o ano que não acabou, 2005 foi o ano que acabou mais cedo. Não sei quanto a quem lê isso, mas eu não suporto mais ouvir falar em Valerioduto, mensalão, José Dirceu e Roberto Jefferson. Os capítulos da novela são muito repetitivos, os paredões das CPIs demoram pra acontecer e os atores são canastrões demais até pra quem está acostumado ao padrão mexicano de qualidade.

Pra piorar, as tais fotos da festa no apê promovida pela Jeany Mary Corner não vazaram até agora (pelo menos, eu ainda não vi). A crise só vai ter valido de alguma coisa se alguma outra assessora bacana posar nua, porque até agora, em termos de putaria na política, só caiu palha na minha mão (Fernanda Karina Somaggio, a funcionária do Ministério da Agricultura que apareceu em fotos de sexo explícito, etc).

Por ora, é isso.

 
John Gracinha é correspondente voluntário do Abacaxi e louco pra ser aceito na cena glam paulistana. E-mail: johngracinha@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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