
O ano foi terrível, ainda bem que acabou. Todo ano acaba
parecendo pior que o anterior, mas acho que 2005 foi o auge das
expectativas frustradas e confianças não-correspondidas.
Foi o ano em que eu mais perdi gente próxima a mim (metafórica
e literalmente falando) e vi amigos perderem familiares e se ferrarem
de vários jeitos. Pra acrescentar falência à
miséria espiritual, veio a falta de grana e o seqüestro
no Imposto de Renda. Pior é difícil.
Estranhamente, a aura de azar que normalmente suga tudo à
minha volta como um buraco negro pareceu perder força em
2005. Noves fora os dramas pessoais, eu consegui ficar bêbado
e rir de gente/acontecimentos tanto quanto gostaria neste ano. Em
retrospecto, poderia ter sido melhor, mas eu não teria saco
nem memória pra recapitular o que rolou em 2005 que daria
pra melhorar em 2006 – e quem se importa? Nada muda mesmo.
Se cada ano que termina fosse bom, as pessoas não desejariam
Feliz Ano Novo às outras.

A música em 2005 foi um saco: dá pra contar nos dedos
os álbuns legais que saíram. Entre os que eu me lembro
de cabeça agora, tem o disco homônimo do Jesu,
o EP/mCD do The
Bug, os novos do Lightning
Bolt e Orthrelm,
Earth
e SunnO)))
e ....hm....é só o que eu me lembro agora. O novo
do Queens of the Stone Age é até legal, mas como
eu sou viúva do Kyuss,
continuo a guardar luto pela banda e não consigo simpatizar
muito com QotSA. Apesar da minha teimosia, a música que tem
cowbell (“Little sister”?) é o hit do ano.
Ahhh, e um disco de banda nacional que eu ouvi tardiamente e achei
legal é o do Movéis
Coloniais de Acaju. À primeira ouvida é constrangedor,
espécie de Secret
Chiefs 3/Mr.Bungle da época das demos
de ska com um vocal que me lembra Los Hermanos. Com o tempo,
eu consegui gostar, mas as letras românticas são piores
que o nome da banda.
Os dois
últimos do System of a Down e o novo do Mars
Volta são bacanas por pouco tempo e horríveis
a longo prazo.

Acho que só pra mim o Claro que é Rock foi um saco.
Tinha prometido escrever sobre isso logo depois que rolou o festival,
mas eu menti. Como o editor me pressionou, tenho que escrever minhas
impressões sobre o CQER. Basicamente, não senti nada
de especial por nenhum show daquela noite.
A exceção talvez seja o Fantômas,
única banda que me deixou mais esperançoso. Eles destroçaram
minhas expectativas de uma maneira cruel. Há seis anos eu
sonhava com o dia em que veria a banda ao vivo, e o show dos caras
foi brochante. Tudo bem que o mano lá do Frank Zappa não
deve ter tido tempo de ensaiar direito, mas não foi só
isso. Ao invés do caos habitual dos álbuns de estúdio,
o set dos caras foi cirúrgico, sem emoção,
frio. E chato. E isso vindo de um daqueles fãs mais cegos
do Mike Patton, que ouve Adult
Themes for Voice e acha o máximo. Tudo bem que Delìrivm
Còrdia é soporífero, mas por alguma
razão eu pensava que seria diferente... a caçada foi
melhor que a caça. Deve ter sido melhor que o Suicidal
Tendencies reformado que iria tocar no CQER originalmente, de
qualquer forma.
Os outros shows foram apenas ok pra mim. Flaming
Lips fez um set curto e tentou trazer o clima de circo/arena-rock
pro show. Imagino como seria a vibe de uma turnê
deles com o Boredoms. No CQER, não rolou ânimo, mas
nos cd’s que eu ouvi o FL já não decola mesmo
(em tempo: vendo meu Yoshimi
Battles the Pink Robots por 25 paus, a quem interessar).
Eles tocaram dois covers, “War Pigs” e “Bohemian
Rhapsody” com direito a coro da platéia, e a sensação
era de incômodo - você não sabia se ria dos caras
ou se ficava constrangido por compactuar com aquilo. Me pergunto
se na época do Freddie Mercury as pessoas encanavam com isso
ou iam aos shows do Queen só pra fazer piadas sobre o bigode
do cara. Enfim, o Flaming Lips lembra aquela mina feia que tenta
compensar sendo inteligente, só que no caso da banda eles
compensam a falta de graça com um monte de artifícios,
inclusive fogos de artifício.
Sonic Youth
e Iggy
and The Stooges também foram normais, sendo o Iggy um
pouco mais legal. Acho que uma parte do público que detestou
o Fantômas achou o set do SY outra porcaria, porque em essência
os sets foram parecidos na falta de melodia e sobra de barulho,
mas no dia seguinte ninguém se atreveu a falar nada a respeito...
eu culpo o hype. Sabe como é, não se fala
mal de Sonic Youth. O último crítico que fez isso
está hoje em Nashvillle e resenha cd’s dos clones do
Garth Brooks e Hank Williams.
Nine Inch Nails
foi bom e tocaram quase todos os hits que eu conhecia. Eu realmente
não gosto muito dessa banda e seria o menos indicado pra
comentar sobre eles por uma questão de indiferença.
Achei que os fãs góticos/pseudo-intelectuais dos caras
fossem dar chilique e encher o saco como os posers fariam num show
do Guns’n’roses, mas não teve disso. Era engraçado
ver o Trent Reznor cantando aquelas músicas pra se tomar
ácido e ecstasy com um visual à la Henry
Rollins (marombado de cabelo curto). Em compensação,
a tal história de que eles trouxeram um avião cheio
de equipamento só pode ser jogada de marketing,
porque não fez diferença alguma no som deles em comparação
com as outras bandas. A não ser que o avião estivesse
carregado de lâmpadas e holofotes, mas nesse caso não
sairia mais barato alugar alguma coisa por aqui? Entenda-se esses
ravers...
Saí do CQER contente, no sentido de contentado, mas isso
não é muita coisa. Todos os shows foram legais como
eu esperava, mas nada além disso. Não rolou química
nem com as bandas e nem com a cerveja do lugar, que era cara pra
burro. Sempre achei que um show ruim se salva com álcool,
mas nem a isso deu pra recorrer. Deu no que deu.

Só não escrevo que o show do Jurassic
5 superou o CQER porque os abacaxinautas vão achar que
os parágrafos acima não passam da visão de
um rapper sobre um festival de rock, e não é
por aí. O show do J5 foi legal, e tal, e eu gosto tanto de
rap quanto de rock (apesar que na hierarquia do rap eu não
passaria nem no vestibular pra avião de boca de fumo). Além
do mais, uma comparação entre o CQER e o J5 ficaria
meio descabida, eu acho.
Em tempo: o show do Jurassic 5 superou o CQER!

Das bandas que eu vi até agora escaladas pra vir pra cá,
nada me animou. Felizmente, tudo indica que menos grana será
gasta com shows em 2006.

A política também foi uma merda, mas o Lula que escreva
a respeito aqui, se quiser e desde que pague o dízimo cobrado
pelo Cajabis. Se 1968
foi o ano que não acabou, 2005 foi o ano que acabou mais
cedo. Não sei quanto a quem lê isso, mas eu não
suporto mais ouvir falar em Valerioduto, mensalão, José
Dirceu e Roberto Jefferson. Os capítulos da novela são
muito repetitivos, os paredões das CPIs demoram pra acontecer
e os atores são canastrões demais até pra quem
está acostumado ao padrão mexicano de qualidade.
Pra piorar, as tais fotos da festa no apê promovida pela
Jeany
Mary Corner não vazaram até agora (pelo menos,
eu ainda não vi). A crise só vai ter valido de alguma
coisa se alguma outra assessora bacana posar nua, porque até
agora, em termos de putaria na política, só caiu palha
na minha mão (Fernanda
Karina Somaggio, a funcionária
do Ministério da Agricultura que apareceu em fotos de
sexo explícito, etc).
Por ora, é isso.
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