Talvez eu seja um velho besta, mas fiquei com um pé atrás com a história do VH1 no Brasil. Nem tanto pela chegada da emissora em si - parei de ver TV há alguns anos -, mas pela lógica de que o VH1 é o substituto natural da MTV quando quem vê aquele canal "cresce" e passa a querer algo mais. No "amadurecimento", esse público pararia de assistir os videoclipes/ shows/ premiações/ programas de comportamento/ talk-shows da MTV e passaria pro VH1, que tem uma programação voltada não só pra clipes, mas também, segundo o UOL, "documentários, filmes e programas de entrevistas que ressaltam o universo musical e a cultura pop".
Alguém que assista televisão mais assiduamente que eu terá de me ajudar aqui, mas é tão diferente assim? Não tenho hábito de acompanhar a MTV, mas até onde eu me lembro, salvo filmes, eles já cuidam dessa parte de documentários e programas extra-musicais. E até acrescentaria que eles (MTV) fazem um trabalho de lobotomia que eu até chamaria de competente, a julgar pela parcela de amigos e conhecidos meus que acompanham a emissora. A diferença é que um canal serviria pra quem é novo e o outro pros de conhecimento musical mais avançado? E eu que pensava que não viveria pra ver a TV Educativa implantada no Brasil...
No fundo, não muda muita coisa. Salvo casos isolados, não acho que a TV vá algum dia mudar qualquer coisa, e nem tem tanto a ver com aquele lance de que a revolução não será televisionada. O lance é que é difícil fazer um programa que seja instrutivo de maneira didática sem ser chato. Pra pegar o gancho dos canais de música, é tão difícil quanto escrever uma letra de música em português sem soar piegas. Imagino que seja por isso que surge o círculo vicioso de perda de interesse por programas “inteligentes”. De nada adianta uma suposta qualidade baseada em programas que são um pé nas bolas.
P.S.: Espero que o VH1 não demore pra passar o documentário sobre o Anthrax. Lá fora, esse documentário deu um puta rolo entre gente de fora da banda (mais especificamente, Dan Lilker) digno de Some Kind of Monster, em que o Dave Mustaine (Megadeth) reclamou de não ter sido consultado sobre ter o depoimento dele incluído no DVD (não achei um link pra essa história, vocês vão ter que confiar em mim quando eu escrevo isso).

A pior atitude de uma prostituta é se vender por dinheiro ou por ambição? Lá atrás uma certa banda de rap perguntou isso, e foi a primeira coisa que me veio à cabeça quando começaram a pipocar notícias sobre o livro de Bruna Surfistinha, a prostituta que virou celebridade. A segunda foi que o mundo está mesmo doido, coisa que eu já desconfiava quando escrevi sobre a tomada de parte do mainstream pelo noise e estilos de música heterodoxos.
Pode-se discutir a validade da fama dela: efeito Darlene? Sorte? Destino? Esquema grandioso de marketing por trás (sem duplo sentido)? Hype do Nomínimo que vingou? Bons contatos (também sem duplo sentido, ou talvez não)? Mas é fato que a menina puxou uma galera junto pro alto quando subiu. No Estadão já saiu alguma coisa sobre garotas de programa que não têm mais medo de mostrar a cara, recentemente começaram a sair matérias sobre as patricinhas que adotam o estilo "mulher de malandro" pra dançar em casas noturnas... e, claro, América, a novela da Globo que mostrava libertinagem e gente migrando pros EUA ilegalmente para, em alguns casos, tentar a sorte como garota da vida - apenas ressaltando que eu concordo com esse mano quando ele diz que novela não deve ter função de ensinar porra alguma. A discussão aqui é mais sobre o efeito.
Me lembra uma frase do Lobão, de todas as pessoas, em uma entrevista que ele deu à Trip. Disse o Sr. Boicote às majors que "hoje, o bandido quer sair da marginalidade e o playboy quer ser bandido porque acha charmoso". Pra mim a prostituição não é nem de longe a mesma coisa que o crime, até porque acho que ninguém associa crime a sexo anal (o Vaticano não conta). Porém, pode-se perfeitamente trocar "bandido" por "prostituta" e "playboy" por "patricinha" na frase acima sem prejuízo algum.
Se os dois estilos de vida estão em alta hoje, o motivo é o mesmo: a falência da própria sociedade. Não chega a ser novidade*. Um dos melhores livros que eu já li sobre o PCC, Cobras & Lagartos, explica melhor isso. Hoje, tenho sérias dúvidas se isso aqui
"A mais velha profissão do mundo terá vida eterna, porém a sociedade nunca enxergará o ofício com naturalidade. A comercialização da prática sexual em troca de vantagens monetárias pode ser um caminho mais curto, mas segundo Bruna, não é o correto, (sic) ela afirma que se arrepende."
ainda vale, tanto da parte da Bruna Surfistinha quanto no que diz respeito a encarar algumas práticas até então condenadas com naturalidade.
Acho que há um lado bom e outro ruim nisso, só não sei ainda se um dos dois é predominante no curto e médio prazo. Não consigo prever os resultados do auê em torno desse estilo bandido de vida (nada a ver com o Lobão agora), mas eu vejo muito pouca coisa interessante saindo dessa glamourização do crime. Pra quem quiser se lançar como marginal, não cabe a mim impedir, mas um rapper gringo politicamente engajado chamado Immortal Technique tem uma frase sobre isso que eu acho ducarai: "A prisão não é o ritual de passagem que torna você um homem. (...) Quando eu voltei pra casa (da prisão) e pus dinheiro no bolso da minha mãe pra ajudar minha família, foi o que fez de mim um verdadeiro nigga." Na minha opinião de outsider sobre o assunto, a fala do mano é quente. Pra quem quiser ler o artigo inteiro, do qual essas declarações foram surrupiadas, o link é esse.
Chega de filosofia barata ou o Cajabis vai me dar um esculacho. Em tempo, torço pro livro da BS não cair nas mãos de quem fez a revisão do livro de contos eróticos da Syang. Porra, Nomínimos, dêem uma força pra ela também, diacho!

Pior que a música mainstream dos últimos tempos, só a música underground. Em muitos aspectos, não vejo perspectiva de mudança. Ainda assim, volta e meia rolam espasmos de vida inteligente no underground - que é uns 80% composto de merda - que, se não servem pra retomar a fé na lavoura, garantem a sobrevivência de parte da safra atual mesmo com as condições desfavoráveis de clima.
Até recentemente, minha fé no underground andava meio sumida. Tanta banda ruim ou derivativa e tantos problemas de ego ou caráter (meus e, por que não?, dos outros também) me fizeram tomar distância. Toda vez que eu tinha uma recaída e saía era um saco. Se é pra ver neuróticos excitados com a possibilidade de um contrato ou barganhando uma troca de fluidos corpóreos com o sexo oposto, eu realmente prefiro me enfurnar em casa e decorar os filmes da Hammer.
O show do último sábado, 20 de novembro, foi diferente. De longe a volta do Paranóia Oeste é um dos eventos musicais mais animadores em um bom tempo. Além deles, tocaram o Hutt e o No Body, que são totalmente diferentes entre si e comparados ao P.O., mas a salada desceu redondo. O show foi armado pelo Indiegesto - que não me pediu pra escrever nada - e a grana serviu pra bancar o tratamento de um dos manos do No Body, que se recupera de uma cirurgia (não tenho conhecimento nem intimidade pra entrar em detalhes). Ou seja, nem todo show beneficente precisa ser piegas ou contar com a participação do Renato Aragão.
O show do Paranóia foi o ponto alto, mas quem acompanha este site sabe que o culto aos caras é tão novo quanto a sentação de lenha no Chorão e no Caê, então não vou pormenorizar a surrealidade da experiência que é a banda ao vivo. O Hutt, que abriu a noite, fez uma das apresentações mais legais que eu vi deles, tanto em termos de setlist quanto de duração. Com o Mick Harris experimentando com hip hop e o Dave Lombardo tentando se firmar como artista solo (ele já lançou dois álbuns como Dave Lombardo, um acompanhando uma miniorquestra em versões de músicas do Vivaldi e outro com o DJ Spooky), não me surpreenderia o baterista do Hutt, Marcelo, assumir o posto de melhor do estilo. Em tempo: em janeiro, eles devem entrar em estúdio. O pouco que eu vi do No Body também foi legal, e isso porque eu ainda enfrento dificuldades pra gostar deles.
Pra quem achar que esse trecho do texto é movido a jabá e que somos meros hypadores com um texto pseudo-erudito, em breve devem aparecer vídeos do show e eu posto o link aqui. Não sou eu quem cuido disso, portanto não me cobrem se der alguma zica. O show foi onde era antes um puteiro e não havia luz, mas o áudio estava perfeito na hora (não é piada). Veremos o que sai disso.

A pedidos, segue um breve relato dos shows do Hopesfall e Slipknot em São Paulo.
Slipknot: do que eu me lembro, foi legal. Eu devo ser um dos únicos que continuou a curtir os caras depois que o certo era falar mal deles, mas achei o show bacana. Confesso que esperava algo mais caótico, mas o controle que eles tinham da platéia era algo absurdo. Eu fiquei embasbacado quando vi geral abaixando ao comando do vocalista em determinada música (salvo engano, "Spit It Out"). Parece que tem isso no DVD deles também, mas ainda assim não tira o impacto de ver a patacoada in loco. Fiquei imaginado o que aconteceria se ele tivesse dito àquele povo pra baixar as calças e mandar um protesto austríaco. A banda pode até ser armação de gravadora, mas o show é empolgante, bem tocado e pesadão. E o vocal é bem menos fraco do que no show que eu ouvi e fiquei com má impressão há alguns anos.
Com o Hopesfall foi diferente, porque eu não esperava muita coisa deles. Pra dizer a verdade, imaginei que fosse ser um troço mais genérico que tudo. Eu já havia escutado um disco deles, No Wings to Speak Of, e achava comum a ponto de não me lembrar de nada quando fui ao show. Não ouvi o último disco deles (A Types, lançado aqui pela Artery Music) e não sei dizer se o show teve muitas músicas novas ou velhas, mas foi melhor do que eu esperava. Nenhuma das músicas vai mudar sua vida de maneira significativa, mas a banda é competente ao vivo. Do palco, onde eu trampei como roadie não-remunerado, deu pra ver que o público se matou. Não que eu esperasse que eles fossem tocar pra uma platéia japonesa, mas o entusiasmo do público talvez tenha me instigado. Eu tinha decidido ouvir o último pra ver se eles correspondiam ao hype, mas esqueci. O Hopesfall é aquele tipo de banda que você esquece que é legal até ouvir de novo. Pelo menos ao vivo.

Um dos sites de música "difícil" mais legal que eu conheço, o Ren-Ga, foi atualizado neste mês. A novidade é um EP de pouco mais de 20 minutos do SedCo., projeto de hip hop minimalista com algo de ambient. Pra quem curte Scorn e Mick Harrismos afins, o site é um prato cheio. Além dos mp3's, dá pra baixar também a arte do cd.
Falar em minimalismo, olha só o que um broda gringo me escreveu quando eu disse que a escalação do Claro que é Rock ficou pequena depois que anunciaram a troca do Suicidal Tendencies pelo Fantômas:
"Eu vi Fantômas não tem muito tempo e foi uma merda. Todas as músicas tinham o mesmo riff e eles foram destruídos pelo Guapo.
Só pra você saber."
É sempre bom poder contar com os amigos pra dar aquela injeção de ânimo.
Por ora, é isso.
*Pra quem quiser ler mais a esse respeito, esse texto do Gilberto Kujawski, de 2004, é bastante esclarecedor. |