Talvez eu esteja cometendo a maior viagem da minha vida, mas outro dia me ocorreu o seguinte fragmento de raciocínio: o metal é tucano. Elaborando mais sobre o tema, cheguei ao seguinte aforismo: o metal pode até não ser tucano, mas é decididamente conservador. Como eu avisei, pode ser uma viagem, mas quem sabe eu consiga fazer algum sentido com isso.
Antes de tudo, cabe dizer que por metal eu não me refiro especificamente a uma ramificação só do gênero. Por limitações de conhecimento profundo de muitos estilos, minha argumentação meio que abrange a coisa toda. Portanto, onde se lê “o metal”, leia-se “do Iron Maiden ao Thursday passando pelo Isis e o Posion the well”.
O lance é: o metal, com seus clichês e características, virou um troço conservador pra burro. O que começou como ato de rebeldia é a norma e a chave pra se entender o marketing de hoje. Não existe nada mais comum no metal que deixar o cabelo crescer e usar couro (pra um fã “true”) ou franja e um blog/fotolog (pra um emo). A tão satanizada indústria da música - mas não só ela - conseguiu transformar tattoos em algo comum, o que pra mim é quase tão incrível como tornar o Bill Cosby engraçado.
O discurso foi unificado também. Todos contra um inimigo em comum numa época em que o cerceamento à liberdade de expressão, se não sumiu, anda meio cabisbaixo. Não que eu seja a favor de censura (embora em princípio veja com entusiasmo a idéia de proibir um monte de bandas), mas, no fundo, dá na mesma o engajamento de um System of a Down, os traumas do Korn, a escatologia de um Cannibal Corpse e o sarcasmo de um Green Day. São bandas que defendem as bandeiras de um público que espera aquilo mas não está ouvindo. Em parte, isso serviria para explicar o fenômeno Massacration, que começou como uma piada, acaba de lançar um disco de zoeira, conta com o apoio da MTV e tem tanta moral quanto alguns medalhões do estilo que definham por aí.
Não cabe a mim dizer se me falta senso de humor ou se a piada se voltou contra seus criadores, mas isso tem a ver com a minha idéia de conservadorização do metal. É mais profundo que a divisão esquerda-direita, porque se trata de não haver o outro lado e ninguém achar ruim. Em tempos de ídolos de barro como Roberto Jefferson e Michael Moore, é até esperado esse tipo de postura - a não ser pra quem acha que o gosto em música não reflete uma ideologia -, mas a aceitação ao discurso contrário é mais difícil, simplesmente porque aos poucos o discurso contrário sumiu. Claro que existem exceções, como o Faith no More escrevendo sobre felação homossexual e o Ministry pós-Twitch, mas em geral a dissidência nunca foi a norma. O próprio Ministry, aliás, fez como a maioria e sentou a lenha no Bush no último disco, mas eles têm como atenuante o fato de serem reincidentes, por conta do Psalm 69.
Embora o showbiz tenha lá sua parcela de culpa no estrago de tudo, não acho que os fãs de metal estejam isentos de responsabilidade, principalmente porque parte deles não tem o hábito de buscar aquele algo fora da fórmula. E, como pregaria aquele outdoor de puteiro em época de corrida, você só descobre o que acontece depois da fórmula visitando aquele lugar e fuçando alguns buracos novos.
Não é difícil apontar a raiz do problema. A mistura de estilos que é até normal no pop e no rap é vista com estranhamento dentro do metal. Trocando em miúdos, aquela banda conhecida por tocar um estilo “x” pode até mudar o som, mas não é de jeito algum garantido que mantenha o (mesmo) público. Se a mudança funciona? Lógico, e o Metallica está aí para provar. Mas o ponto não é esse.
Variação é algo condenável no metal. A maioria dos fãs prefere que a banda lance quinhentas vezes o mesmo disco a mudar de estilo a cada álbum. Pra quem não gosta de riscos, é mais cômodo comprar algo na confiança do que ter de escutar o disco com atenção pra saber se presta. Está criado, assim, o círculo vicioso que as bandas percorrem até eventualmente cair de tontura.
Há dois séculos, um político chamado Holanda Cavalcanti disse que não há nada mais conservador que um liberal no poder. Constatar isso no atual estado de coisas da política atual é moleza, mas eu gostaria de adaptar a frase ao metal e dizer que “nada mais seguro que o seu filho te encher o saco pra comprar ingresso pro show do Pearl Jam”.

A propósito de clichês e pseudo-rebeldia, há umas duas edições o New York Press publicou uma reportagem muito foda sobre o Suicide Girls. Para quem não é do ramo, trata-se de uma página supostamente criada e mantida por uma garota com aparência de raver e mentalidade de riot grrrl pra exibir sua nudez e seus pontos de vista sobre qualquer coisa do ponto de vista feminino, que foi juntando outras garotas com a mesma mentalidade. O NY Press mostrou que não é bem assim, pelo menos no que diz respeito às intenções e a equipe por trás do site.
Por sinal, no Brasil existia uma espécie de SG tupiniquim (pelo menos, em termos de imagem) chamado Acid Girls, que também reunia as tais “garotas rebeldes” em fotos sensuais. No Google, não consegui encontrar o link pro site, mas não é difícil que existam outros genéricos do SG por aqui. Me pergunto o que diriam as feministas...

A Unicef fez uma peça publicitária bizarra para uma campanha de conscientização dos malefícios das crianças da guerra. Tem um screenshot dele aqui e o vídeo está aqui. Quem quiser ver o filme em melhor qualidade, procure por “Bomb the smurfs” no Google ou em outra ferramenta de busca. Por ora, não tem em inglês, mas não é realmente necessário pra se entender o que rola. Lá fora, a repercussão foi boa, e os caras tomaram todos os cuidados pra que a propaganda não fosse exibida em um horário em que crianças pudessem assistir. Por aqui, não li nada sobre essa peça publicitária ainda (até hoje, segunda-feira à noite).

Pra não dizer que não falei bem de música: foi incrível o último show do Vincebuz no Crow bar. Eles abriram com uma música longa, experimental e barulhenta, que é bem diferente das outras coisas deles, e eu precisaria ouvir de novo pra formar uma opinião. As músicas tradicionais foram como sempre e, como sempre, foi uma performance animadora, com direito ao vocalista da banda se pendurar no go-go (aquele poste aonde a Demi Moore rebola em Proposta Indecente) do lugar. Eu não vi, mas me disseram que ele demonstrou um domínio do mastro tão preciso quanto o capitão Ahab se dissessem pra ele que a Moby Dick ressuscitou.
De resto, a festa não-oficial do ABACAXI ATÔMICO foi típica: não foi quase ninguém, o encarregado da discotecagem não sabia que um cd é redondo e o Moldest, a “banda do Sukrilius” (não vou explicar isso, mas perguntem pra ele, é muito engraçado), não tocou. Sugiro que pra próxima festa tirem o ABACAXI ATÔMICO do nome. Periga bombar.
O Teledubgnosis, banda de dub e música eletrônica que tem o baterista Ted Parsons (Prong, Swans, Godflesh), o produtor Jason Wolford (de quem eu nunca ouvi falar) e o multiinstrumentista Gregory Grinnell (The Toasters, Unity 2), terminou neste mês a masterização do split com um tal de N.I.C.. Segundo a parte de notícias do site, o vinil sai no fim do outono (de lá), e o cd, “no 1º do ano”, o que eu imagino que signifique começo de 2006.
O Minibosses, a melhor e única banda de músicas de Super Nintendo que eu conheço, gravou um split com o Penny Winblood, já lançado. A inspiração pra capa dá pra ver aqui (no pé da página) e mp3’s do PW podem ser baixados aqui. Na página do Minibosses, também tem sons pra quem quiser conhecer, mas nada do split.
Por ora, é isso. |