
De tempos em tempos, eu tenho umas crises sociais que me derrubam totalmente. Chega uma época em que tudo fica um saco, e tudo que eu quero é me isolar completamente do convívio humano por algum tempo. Na semana passada, quando eu calculava que já havia coisas me incomodando o suficiente pra compor dois discos do Anal Cunt, senti que precisava dar uma quebrada na rotina. Por alguma razão, me ocorreu que a praia de Ilhabela seria uma boa idéia. E por uns dois dias, foi.
Não vou descrever minuciosamente meu trajeto à praia, então vamos cortar direto pra cena em que eu chego à cidade e procuro um lugar pra ficar e descubro que quase nenhum estabelecimento trabalha com cartão eletrônico; isso voltaria a me atormentar mais adiante. O único lugar decente que aceitou meu dinheiro virtual foi uma pousada por onde - descobri depois de me hospedar - também passaram Almir Sater, Regina Duarte e a filha dela, Elba Ramalho, Teodoro e Sampaio e, em pelo menos três ocasiões, o Guia Quatro Rodas. Eu tentava me isolar e acabava achando a Vila Madalena do litoral norte. Minha sorte era bizarra.
(Era também uma espécie de sinal de que, por mais distante que se esteja, a mesma merda acontece em diferentes lugares: não vou entregar o nome do lugar porque não recebo nada pra fazer propaganda deles, mas em uma das paredes fica pendurado o decreto Executivo de agosto de 1999, assinado pela prefeita da época, que dá à rua o nome da proprietária da tal pousada. Imagino que o lobby litorâneo não difira muito do urbano.)
Caminhando pela praia e contemplando os bares e quiosques construídos na areia, eu me pegava pensando em como tudo aquilo era tão frágil quanto castelos de areia e que não sobraria ninguém se Netuno ficasse de saco cheio e resolvesse despachar aquele pedaço de terra do mapa. Imaginei que não era uma possibilidade tão remota assim - eu já havia visto isso antes com o Katrina e o Rita, e mesmo em filmes meia-boca como O Dia Depois de Amanhã. Ademais, uma ilha é mais fácil de se deletar que um estado, eu acho.
O céu estava fechado, mas não choveu realmente até o último dia. Estava ótimo pra mim, que sou inimigo do Sol. Mas eu tenho motivos - o Indiegesto até hoje ri só de lembrar da última vez em que eu fiquei exposto ao mormaço. Talvez por conta do mau tempo, não houvesse tanta gente na ilha, e deu pra ficar um bom tempo só olhando o mar. As ondas quebrando na areia têm um efeito tranqüilizador do caralho, com toda aquela lentidão/repetição. É quase como um disco do Earth, só que sem um release pra hypar.
Andando a pé pelo entorno da praia, deu pra notar que palmeiras dividiam espaço com postes de energia e orelhões. Comecei a pensar em como aquilo era errado, mas abandonei o raciocínio quando vi uns manos tirando uma espécie de racha de motos à luz do dia. Ilhabela é conhecida como a capital da vela, mas tem bastante motocicletas também. Acho que alguns manos entediados de pegar onda e vento resolveram partir pra outra. Se me lembro bem, o skate começou mais ou menos assim também, na Califórnia.
Vi também uma pedra gigante em um ponto da praia com uma cruz de madeira presa nela com cimento. Como aquilo não me pareceu nenhum tipo de homenagem - o santuário da pedra desconhecida -, soou mais como mau agouro. Tentei parar um mano pra perguntar quem morreu ali, sem sucesso. Tem algo nessas cidades do litoral que é decididamente diferente do interior. Apesar da baixa densidade demográfica, é como na cidade grande, em que ninguém te cumprimenta na rua. O lado bom é manter o anonimato.
No segundo dia, resolvi conhecer de carro a Pedra da Feiticeira e outros pontos turísticos. A ilha tem várias praias com nomes diferentes, interligadas, e todas são perto uma da outra. De carro, dá pra visitar todas em um dia.
Alguém me recomendou ir à tal Vila, e o lugar é tipo uma mini-Salvador sem os riscos que isso traz, como trombar a Carla Perez ou aparecer no clipe do Timbalada. Vi um prédio com sinais de desgaste que me pareceu ser uma igreja, mas as portas estavam fechadas. Dava a impressão de que tinha sido abandonado ou interditado e podia desabar a qualquer momento. Ao lado, tinha uma igreja cujo design também me pareceu surrupiado da Bahia. Tinha uma escada de vários lances e era pintada de azul e branco, com anjos esculpidos em mármore cinza desgastados. Parecia que a qualquer momento o José Mayer ia sair de lá de dentro com uma cruz nas costas e alguém ia gritar “Gravando”, mas não aconteceu.
A igreja do Pelô estava vazia quando eu entrei pra dar uma sacada, e o lugar me pareceu meio comum. Só o que eu achei curioso foi encontrar num dos cantos uma caixa de madeira de tamanho médio fechada, onde se lia na tampa “descubra quem é o responsável pela manutenção dessa comunidade”. Eu esperava encontrar uma foto de Jesus com cara séria ou do santo protetor daquela ilha - ilha tem santo? - , por isso foi difícil conter o riso quando abri a parada e vi um espelho onde se lia “VOCÊ! Junte-se a nós, seja dizimista”. Foi suficiente pra eu lembrar o que me incomoda tanto nas religiões organizadas e sair dali.
Embora eu não pudesse negar que havia algo de místico naquele lugar. Fazendo um reconhecimento da ilha ao som de “Jah Work”, do Ben Harper, era fácil concordar com alguém que dissesse que tudo aquilo era obra de alguém superior.
Meu embasbacamento com a Providência divina não deve ter durado muito mais que aquele momento. Se me lembro direito, ele começou a sumir quando, ao passar por uma das praias, pude notar que um grupo de uns cinco garotos me olhava de cara feia, ou vai ver foi como eu interpretei aqueles olhares. Afinal de contas, eu era o turista ali, o cara que estava invadindo a terra deles. Não precisava ir à Jamaica pra sacar que os caiçaras eram os rude boys locais. Tentei segurar minha onda e fui adiante, mas, por coincidência ou sacanagem do destino, cheguei a um ponto aonde o carro não conseguia subir. Eu já havia me desvencilhado dos caiçaras que me fulminavam com ar de reprovação. O cenário agora era eu tentando manobrar o carro lutando ridiculamente com a gravidade sob a vista de uns três caras mais velhos que provavelmente mal se agüentavam de rir por dentro com a cena.
Concluí que a Mãe Natureza já tinha me dado dois toques no melhor estilo “pedala, Robinho” em um curto espaço de tempo e que seria burrice tentar arrancar algum tipo de divertimento praqueles lados. Então, eu manobrei o batmóvel e fui pro outro canto da ilha, e dei risada ao me ligar que os nomes dos dois sons do Ben Harper que rolaram entre o entrevero com os manos inóspitos e a minha decisão de sair de lá foram “Ready” e “The Will to Live”. Eu tirei aquele cd e troquei pelo primeiro que vi na frente.
Quando consegui parar em uma praia com vista bacana, notei que tinha gente demais ali. Além disso, um alto falante instalado em algum ponto entre as pedras rolava um som tipo Julio Iglesias enquanto garçons de sunga levavam cerveja e porções de camarão para famílias instaladas em mesas no meio da areia. Como seria meio difícil praticar minha meditação existencial naquele lugar, tentei seguir adiante e ver se descolava algo melhor, mas o número de pessoas aumentava e a vista pro mar rareava à medida que eu ia mais fundo daquele lado da ilha.
Eventualmente, eu acabei desencanando daquele programa por achar hippie demais e decidi voltar e descolar um rango. Pra minha surpresa, nenhum lugar da ilha trabalhava com meu cartão. Concluí que já tinha tido bastante agitação por um dia e resolvi passar na única loja de conveniência daquele lugar que trabalhava com cartão de débito pra comprar uns salgadinhos e duas caixas de cerveja. Já que era domingo e a cidade estava deserta, achei que me enfurnar no meu quarto de hotel caro e encher a cara fosse me animar, e funcionou: Piranha, de Joe Dante, e Os Doze Condenados, com Charles Bronson, nunca foram mais divertidos, mesmo eu tendo que parar pra vomitar entre um e outro.
Meu último dia na ilha começou com chuva e vento, o que me desanimou a pegar a estrada. Como eu não queria ter de pagar três dias de diária, fechei minha conta logo cedo antes que vencesse meu prazo. Não quero nem escrever exatamente em quanto ficou a hospedagem, mas me recordo claramente de pensar que ser perfurado no peito por uma lança teria me abatido menos.
Apesar do clima agitado, com atraso a balsa saiu rumo a São Sebastião, mas por algum tempo isso não quis dizer muita coisa. No meio do caminho a embarcação parou, e por alguns instantes tive a nítida impressão de que estávamos voltando ao porto da ilha. O mar agitou a balsa com mais força do que eu estava acostumado pelo que penso ter sido cerca de uma hora. Se eu era o único ali preocupado por não saber nadar, ouvindo a conversa de terceiros vi que não estava sozinho em achar que os operadores daquele mamute de meia tonelada estavam pouco se fodendo se aquilo afundaria levando três dúzias de carros - provavelmente, ganhariam o dia de folga. Acho que ajudou pouco eu ligar em casa pra avisar da minha localização e ouvir um “volte vivo” do outro lado da linha. De repente, tive um insight de que Ilhabela era a Koh-ring da minha linha de sombra. A mente tem um jeito engraçado de te torturar às vezes.
Chegamos do outro lado, afinal, e o custo foi deixar meu estômago pra trás. Não me pareceu um negócio tão mau, dadas as opções. A chuva ficou mais forte, como se a Mãe Natureza estivesse querendo me foder uma última vez de alguma maneira, por tudo que eu havia aproveitado. Eu sabia quando estava sendo enxotado de algum lugar, e me amaldiçoei por não ter mijado no mar quando tive a oportunidade. Nem sempre dá pra ganhar, mas eu não saía de todo derrotado. Apesar de minha experiência com a praia estar mais pra The Mollusk que pra Oceanic, foi divertido.
Mesmo com São Pedro botando pilha, eu consegui chegar em casa sem grandes dificuldades, somente pra descobrir que meu irmão teve o carro apreendido a caminho do show do Weezer e precisava que eu fosse com ele a uma cidade de merda no meio do caminho entre São Paulo e Curitiba retirar o automóvel. Chegando lá, o vigilante rodoviário resolveu praticar um pouco de arrogância policial e disse que o carro só seria liberado com a autorização do inspetor-chefe, que àquela hora já tinha saído fora. Na volta pra casa, abro meu e-mail e vejo que uma ex-namorada neurótica do nada resolveu voltar a me escrever. Meu primeiro dia de volta à humanidade, e eu já estava mais de volta do que pretendia.

Na coluna da próxima semana eu retomo os textos sobre música. Tinha algumas coisas pra essa coluna que eu decidi jogar pra outra, porque estava de saco cheio de falar sobre música.
Por ora, é isso. |