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Beagá, 19 de setembro de 2005 d.C.
 
Tédio ululante
Por John Gracinha
 

O título desta coluna já diz bastante coisa sobre o texto da semana. Estou de saco cheio de política, música, cinema e, em linhas gerais, de todo o resto. Em vez de me sentir deprimido e escrever doze canções de screamo, vou jogar a culpa em Hollywood e na indústria fonográfica, que não apareceram com nada que prestasse nos últimos meses. O lado bom de se estar de saco cheio é que você raramente precisa de motivos palatáveis pra achar algo ruim - as coisas simplesmente são uma bosta. É como acordar e descobrir que você virou o caixeiro d’A metamorfose do Kafka um dia antes da transformação - não bastasse a falta de perspectivas, você ainda tem que sair pra trabalhar.

As neuroses do mundo civilizado têm me enchido também. Se por um lado eu gosto da sensação de anonimato que vem com o conceito de “cidade grande”, ultimamente ando considerando jogar tudo pro alto. Penso em me refugiar no meio do mato à la Eduardo Suplicy na busca pelo meu eixo, que aparentemente sumiu em algum lugar entre os jogos de aparência do dia-a-dia e os rolês desesperançosos dos fins de semana. Como eu não sou o Jerônimo Pseudônimo nem o Cajabis, não vou tentar esmiuçar a minha encheção - o que torna esses dois parágrafos introdutórios completamente inúteis -, mas é sempre mais atraente começar um texto reclamando de algo.

Se fosse pra elogiar, quem leria?

A fogueira das vaidades do rock costumava crepitar por coisas menos capengas, mas vá lá. A notícia de que a Sharon Osbourne sabotou o show do Iron é velha, mas é legal registrar a réplica da bruaca, que mais deixou dúvidas no ar que esclareceu. Não sei o que é que só a Sharon ouviu do Bruce Dickinson, assim como também não sei o que tem a ver uma coisa (o lado profissional de se tocar em um festival) com a outra (o Bruce supostamente ter zoado a família do Ozzy). Longe de mim tomar lados nessa pendenga - eu faria isso se o Ozzy ou o Iron tivessem composto algo que prestasse nos últimos tempos, mas eles desaprenderam música há pelo menos vinte anos. Minha avaliação disso tudo é que isso cada dia mais se parece com isso.

Olha um vídeo do Beatallica aí. Não sei se é novidade ou não, mas eu só vi isso quando fui caçar algo sobre o que escrever essa semana. A propósito, se alguém tem curiosidade em saber como são os manos dessa banda, tem uma foto logo na abertura do site. Agora que os caras resolveram se revelar, a parte de biografias tem entrevistas e links pras bandas reais dos caras. Ouvi uma música do tal Tinkers, e era rock de tiozinho. Deve ser moda entre metaleiros velhos fazer um som mais na manha.

O Hopesfall vem aí. O Napalm Death também, pela segunda vez em pouco mais de um ano. O lugar do show do Napalm não foi divulgado, mas o que se diz por aí é que vai ser no Hangar, o que significa uma chance real de se ouvir algo inteligível, ao contrário da apresentação deles na Led Slay em maio do ano passado. Não sei quem deve abrir pro Napalm aqui, mas pro Hopesfall vai ter uma caralhada de bandas. Maiores informações e a escalação completa aqui.

Quem não vem nunca é o Meshuggah, mas pelo menos há um consolo: o selo da Rock Brigade lançou aqui o novo da banda, Catch Thirty-three. Ainda não escutei, mas pelo que eu li está estranhíssimo e totalmente diferente das outras coisas dos caras. Só espero que não seja um Delìrivm Còrdia.

Ainda sobre bandas que jamais tocarão no Brasil, o novo álbum do Today is the Day já tem título, Axis of Eden. O disco vai ser gravado em Massachusetts e as sessões vão ser filmadas pra posterior lançamento. Não sei de onde as bandas tiraram esse costume de gravar as gravações de um álbum, mas eu gostaria de rir do cara que teve essa idéia primeiro e não patenteou ela.

Morreu de câncer no cólon no último dia 26 o guitarrista do Vöivod, Denis D’Amour, conhecido como Piggy. Ele já teve um tumor há alguns anos, parece que dessa vez a doença foi diagnosticada num dia e no outro ele já entrou em coma. Apesar disso ser uma merda completa, ele deixou demos pro próximo disco do Vöivod (em que o Jason Newsted entrou, por sinal), e a banda deve retomar as gravações em breve. Quem também foi solar no outro plano é Doc, ex-baterista do Vader. Parece que a morte dele teve a ver com bebida. Não ouvi oVader com ele, mas sempre achei Vöivod legalzão. O metal formiga perdeu um representante. Os caras do Holocausto (atual PexbaA), de Minas, devem estar tristes também.

O primeiro disco do Lamb of God, de quando os caras ainda se chamavam Burn the Priest, foi relançado com comentários no encarte de Steve Austin, guitarrista/vocalista do TiTD (parágrafo anterior), que produziu o disco. Até onde eu me lembro, a gravação ficou horrível. Eu já achava que as últimas coisas do LoG queriam soar como Pantera, e passei a ter certeza das intenções deles quando vi o “Pure American Metal” no cabeçalho da página dos caras. Acho que, com a morte do Dimebag Darrell, o Phil Anselmo (vocal do Pantera, atualmente no Superjoint Ritual) também deve estar mais preocupado em encontrar o eixo que acusar os caras de plágio.

O Autechre vai tocar em São Paulo!!!! Por esse preço, eu não vou.

O pesadelo do ar-condicionado: sai dia 20 desse mês Hex: or Printing in the Infernal Method, quinto disco do Earth, banda que inventou o gênero drone (basicamente, repetir um riff ad exaustum por baixo de uma montanha de feedback de amplificadores sem vocal ou acompanhamento percussivo). Quem vai lançar o álbum é a Southern Lord, cujo donos tocam no SunnO))), que surgiu como uma banda-tributo ao Earth. É uma idéia boa: roube as idéias dos caras e se ofereça pra bancar o disco deles depois. Ninguém se fode. Não acho que o Dylan Carlson (mentor do Earth, mas mais semi-conhecido por ter vendido ao Kurt Cobain a arma que explodiu os miolos dele e ressoou em todo o grunge) tenha ficado chateado. SunnO))) é mais legal que Earth, de qualquer forma.

Eu sempre escrevo sobre essas bandas aqui... porque só eu gosto, acho. É difícil de acreditar, mas lá fora eles são algo. Eu não recomendaria pra qualquer um.

Política enviesada: achei bem bom esse texto sobre a Veja. Antes que o mano de Curitiba me acuse de ser petista (o texto está no site do diretório de Santo André do partido), leia o bagulho. É praticamente o Cajabis justificando o porquê de usar aquelas roupas e te convencendo, tal o nível de fundamento do artigo.

Alguém acompanhou os últimos depoimentos das CPIs? Está sendo difícil pra mim distinguir o que é importante do que é nada. Alguém já disse que “quando tudo é prioridade, nada é prioridade” e, tanto na prática quanto na teoria, é o que virou a crise pra mim. Talvez a solução seja todo mundo migrar pro PI?

Tem uma promoção relativamente boa nos dois livros do Freak Brothers, pra casos de grana sobrando. Cinqüenta e cinco paus não é barato, mas não é caro se visto pelo lado do custo-benefício. Pra quem for comprar pelo site, recomendo pedir por Sedex, que curiosamente sai alguns reais mais barato que a encomenda normal.

Se você não conhece Freak Brothers, basta dizer que os caras ridicularizavam todo o movimento flower power e o american way of life na época em que a coisa bombava. Hoje é tranqüilo pra qualquer Saturday Night Live fazer isso, mas na época - fim da década de 60 até a de 80 - era mais ou menos o tipo de perseguição que o Pasquim sofria aqui. Pra ajudar na compreensão do conceito, o criador dos Freak Brothers, Gilbert Sheldon, segue a linha do Robert Crumb, tão ou mais ácido. Se nem isso ajudou a sacar a dos caras, peçam ajuda à menina que escreve sobre quadrinhos aqui no site (agora me foge o nome dela... não foi por maldade) ou então esqueçam.

Nota do editor: é a Katchiannya, e a seção dela é esta aqui.

Alguém monte uma força-tarefa pra me livrar de São Paulo! Se eu passar mais um mês de convivência entre José Serra, Geraldo Alckmin e canteiros de obras, vou acabar tomando medidas drásticas, como fazer campanha pro Tasso Jereissati ou inventar um tipo novo e mais forte de dependência alcoólica. Quem puder sugerir algum lugar decente e bacana pra eu visitar, meu e-mail está no pé da página.

O link pro show do Godflesh que eu pus na coluna da semana passada estava fora do ar, mas voltou de novo. A pessoa que colocou o show no site tirou de lá e recolocou alguns dias depois. Apesar de eu não ter recebido nenhum e-mail falando sobre isso, o show ainda está lá pra quem quiser, por não sei quanto tempo.

Seguem os mp3’s de um show do Jesu, projeto do Justin Broadrick (guitarrista do Godflesh, Techno Animal, Final), de agosto de 2004:
1. “Intro”
2. “Messiah” (cover do Godflesh)
3. “Friends are Evil”
4. “Tired of Me”
5. “Guardian Angel”

O próprio Broadrick acha esses shows uma bosta. É da época das primeiras apresentações do Jesu, quando eles ainda não tinham arrumado um baterista (usavam bateria eletrônica). “Tired of Me” ficou bizarra, mas a original de estúdio é animal.

A Beautiful Machine
Home (Embryo Recordings)

Não sei definir o som dessa banda. Eu diria que é shoegazer ou space rock pra repetir o que alguém já falou, mas nunca entendi o que esses rótulos querem dizer. De qualquer jeito, o álbum é bom. Na definição do guitarrista, ele “leva as obsessões com o espaço profundo e o oceano a fronteiras mais sombrias e mais profundas”. Ok...

As faixas:

1. “Home”
2. “Empty Space, Points of Light”
3. “Attack Ships on Fire Off the Shoulder of Orion”
4. “Whats on your mind”
5. “Crowded skies”
6. “Six Point Two Billion Light Years”
Capa do cd em alta resolução

A versão em cd tem um bônus, que é um cover deles pra “Set the Controls for the Heart of the Sun”, do Pink Floyd - nota mental: se um dia a Sonja Cristina voltar a escrever aqui, perguntar a ela porque todas as bandas cult fazem cover desse som. Além do ABM, o Psychic TV toca essa música, e outra banda também. Por acaso eles são bons demais pra tirar “Paranoid” como todos os outros idiotas?

Não tem pra download no site o cover, mas se alguém quiser, encha o saco do Cajabis pra ele hospedar o arquivo e eu dou um jeito de enviar.

Por ora, é isso.

 
John Gracinha é correspondente voluntário do Abacaxi e louco pra ser aceito na cena glam paulistana. E-mail: johngracinha@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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