
Provavelmente já se falou bastante
mal do tal Black
Eyed Peas, trio famosão de hip hop. Decerto os puristas
do rap que acham que tudo que é bom tem que ficar no underground desceram
a lenha nos caras e acusaram a banda de ser uma armação.
De certo modo, é normal e até esperado esse tipo
de comentário quando algo que começou restrito a
um nicho específico alcança o mainstream.
Acusações de que a banda se vendeu à parte,
caiu na minha mão há uns dois fins de semana o disco
novo dos caras, Monkey
Business. Apesar de não ter conseguido escutar
inteiro, tem umas coisas massa nesse cd, principalmente quando
os caras se apropriam de samples de
gente como Dick
Dale e Sting (o
próprio Sting participa na música que tem partes
de um som da carreira solo dele). Não é uma banda
que eu tomaria conhecimento por conta própria (sem ouvir
e só de ver um clipe eu já acharia armação),
mas a vantagem de se ter um irmão que curte pop é a
de sempre estar, se não a par, pelo menos em dia com as últimas
tendências.
O ponto de toda essa escrevinhação é discutir
a música ruim. Por mais que não haja consenso a respeito
disso, existe uma espécie de senso comum sobre algumas coisas.
Pra pegar um exemplo desse site, o esporte favorito de meio mundo é maldizer
o gosto do Sukrilius, mas há outros. No Brasil, alguns estilos
de música são totalmente queimados. De brincadeira,
uma vez eu comentei sobre uma banda que eu, o Indiegesto e mais
um amigo assistíamos: “o som dos caras é nacional”.
Ou seja, existe um semiconsenso do que é ruim.
Mesmo assim, tem-se um problema: qual a definição
de música ruim em primeiro lugar? É algo barulhento
ou desagradável aos ouvidos à primeira audição? É algo
que soa como banda do Brasil? É algo que o Sukrilius gosta?
Não arrisco uma resposta, mas sobre música ruim
ser algo que desagrada aos tímpanos, o Masami
Akita tem uma frase legal sobre esse conceito. Ele diz que “se
barulho (noise) significa sons desconfortáveis, então
música pop é barulho pra mim” (OBS: nesse caso,
o “noise” em questão serve mais para definir
o estilo de música do Merzbow, e não tem a função
de substantivo). Aproveitando que o John
Cage foi citado neste site na semana passada pra também
surrupiar uma declaração dele sobre música
incômoda: “a primeira pergunta que eu me faço
quando algo não (me) parece bonito é porque eu penso
que não é. Rapidamente você descobre que não
há razão”.
Longe de mim querer dizer o que presta e o que não presta
nem tenho problema algum em reconhecer que escuto coisas que, pro
olho coletivo, podem ser consideradas intragáveis - eu gosto
de Bon Jovi e Boredoms!!! -, mas se dá pra apreender algo
de tudo isso, é que nada é ruim se você gosta,
mas existe a possibilidade de você passar a não gostar
por conta da pressão (alheia, da mídia ou de terceiros).
Claro que ninguém em sã consciência admitiria
que deixou de gostar de algo por conta do que um amigo disse ou
pela crítica que leu em determinado lugar, mas não é difícil
achar alguém que admita o contrário (por exemplo,
que comprou tal cd baseado no número de estrelas que o jornal
deu e no que foi escrito sobre a banda). É mentalidade de
rebanho, mas isso em si é algo ruim? Muito do que eu escuto
não me caiu no colo e nem eu corri atrás antes de
ler algo a respeito comparando com esse ou aquele artista. O próprio
AA tem uma seção destinada
a recomendar bandas pra quem estiver interessado em ouvi-las.
Quando eu era mais novo, costumava fazer um exercício de
ler o que alguém escrevia sobre determinado disco e pegava
ele e tentava “ver” em que lugares da crítica
o cara falou coisas nada a ver. Não acho que tivesse consciência
disso na época. Na minha cabeça de moleque de 15-16
anos devia ser uma espécie de desafio, e de certa forma
até hoje eu faço isso. A diferença é que
hoje em dia eu não tenho mais essa vontade do tipo “vou
pegar o disco pra escutar só pra provar que esse cara escreveu
merda”, mas inconscientemente eu “procuro” onde
está o que eu li em determinada resenha.
Acho que a conclusão é algo entre uma lição
de moral do tipo “pense sozinho” e o “não
desqualifique de cara uma banda, mas também não engula
qualquer coisa que te mostrarem”. Senso crítico é sempre
bom na hora de filtrar o que se ouve, e a opinião de alguém
em cujo gosto musical você confie não é ruim,
sabendo como usar.

A propósito de gostos duvidosos, saiu aqui o Still
Hungry, remake do Stay
Hungry do Twisted
Sister. Já comentei esse disco no blog, dizendo
que achei a idéia ruim, mas devo adquirir porque fã é burro
mesmo.

Ainda sobre remakes e aproveitando que a Lucie
Multiplex esclareceu minha dúvida, alguém além
de mim está curioso pra assistir o remake d‘O
Homem de Palha (The Wicker Man, no original em
inglês)? Vai ser bizarro, porque o filme original já é uma
aberração. Não vou explicar pra não
estragar a história, mas pra quem gostou de A Vila,
esse filme tem o mesmo esquema de reviravoltas no enredo.
Confesso que não estou animado. A idéia de refazerem
o filme não me agrada, até porque o original era
uma mistura de filme de arte com musical (em tempo: as músicas
são muito foda, principalmente pra quem gosta de coisas
mais tranqüilas, como os discos solo do Stephen
Brodsky, vocalista do Cave
In, ou de PG
Six). Será que Róliúdi vai ter a manha
de fazer músicas tão legais quanto as do original
ou vem aí uma trilha sonora com Chemical Brothers, Slipknot,
Sevendust e Marylin Manson?
Apesar do medo, não é de todo ruim a idéia
do Nicolas Cage no papel do policial que é católico
fervoroso e se sente perturbado pela boazuda do bar. Só espero
que não chamem uma biatch dessas que atuaram na refilmagem
d’O Massacre da Serra Elétrica pro papel
da Britt
Eckland (a supracitada boazuda do bar). Quem sabe, o próprio
Christopher Lee (dono da ilha, no Wicker Man original)
podia participar do remake como um velho tarado que manda
brasa na mina! Até caberia no conceito do filme.
O jeito é esperar. Se não demorar mais de 20 anos
pra sair como o
original demorou, já é alguma coisa. Pra quem
quiser assistir, o Wicker Man de 1972 foi relançado
em DVD, não deve ser difícil encontrar. É um
daqueles filmes “cult”, pouco conhecido e, apesar de
ter um toque decididamente cabeça, nada impede alguém
que não seja estudante de cinema ou aluno do terceiro ano
de artes plásticas de gostar. Não precisa ser escolado
em Godard pra sacar o enredo do filme, e, em se tratando desse
tipo de cinema, só isso já é um baita mérito. |