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Beagá, 29 de agosto de 2005 d.C.
 
Sobre música ruim
Por John Gracinha
 

Provavelmente já se falou bastante mal do tal Black Eyed Peas, trio famosão de hip hop. Decerto os puristas do rap que acham que tudo que é bom tem que ficar no underground desceram a lenha nos caras e acusaram a banda de ser uma armação. De certo modo, é normal e até esperado esse tipo de comentário quando algo que começou restrito a um nicho específico alcança o mainstream.

Acusações de que a banda se vendeu à parte, caiu na minha mão há uns dois fins de semana o disco novo dos caras, Monkey Business. Apesar de não ter conseguido escutar inteiro, tem umas coisas massa nesse cd, principalmente quando os caras se apropriam de samples de gente como Dick Dale e Sting (o próprio Sting participa na música que tem partes de um som da carreira solo dele). Não é uma banda que eu tomaria conhecimento por conta própria (sem ouvir e só de ver um clipe eu já acharia armação), mas a vantagem de se ter um irmão que curte pop é a de sempre estar, se não a par, pelo menos em dia com as últimas tendências.

O ponto de toda essa escrevinhação é discutir a música ruim. Por mais que não haja consenso a respeito disso, existe uma espécie de senso comum sobre algumas coisas. Pra pegar um exemplo desse site, o esporte favorito de meio mundo é maldizer o gosto do Sukrilius, mas há outros. No Brasil, alguns estilos de música são totalmente queimados. De brincadeira, uma vez eu comentei sobre uma banda que eu, o Indiegesto e mais um amigo assistíamos: “o som dos caras é nacional”. Ou seja, existe um semiconsenso do que é ruim.

Mesmo assim, tem-se um problema: qual a definição de música ruim em primeiro lugar? É algo barulhento ou desagradável aos ouvidos à primeira audição? É algo que soa como banda do Brasil? É algo que o Sukrilius gosta?

Não arrisco uma resposta, mas sobre música ruim ser algo que desagrada aos tímpanos, o Masami Akita tem uma frase legal sobre esse conceito. Ele diz que “se barulho (noise) significa sons desconfortáveis, então música pop é barulho pra mim” (OBS: nesse caso, o “noise” em questão serve mais para definir o estilo de música do Merzbow, e não tem a função de substantivo). Aproveitando que o John Cage foi citado neste site na semana passada pra também surrupiar uma declaração dele sobre música incômoda: “a primeira pergunta que eu me faço quando algo não (me) parece bonito é porque eu penso que não é. Rapidamente você descobre que não há razão”.

Longe de mim querer dizer o que presta e o que não presta nem tenho problema algum em reconhecer que escuto coisas que, pro olho coletivo, podem ser consideradas intragáveis - eu gosto de Bon Jovi e Boredoms!!! -, mas se dá pra apreender algo de tudo isso, é que nada é ruim se você gosta, mas existe a possibilidade de você passar a não gostar por conta da pressão (alheia, da mídia ou de terceiros).

Claro que ninguém em sã consciência admitiria que deixou de gostar de algo por conta do que um amigo disse ou pela crítica que leu em determinado lugar, mas não é difícil achar alguém que admita o contrário (por exemplo, que comprou tal cd baseado no número de estrelas que o jornal deu e no que foi escrito sobre a banda). É mentalidade de rebanho, mas isso em si é algo ruim? Muito do que eu escuto não me caiu no colo e nem eu corri atrás antes de ler algo a respeito comparando com esse ou aquele artista. O próprio AA tem uma seção destinada a recomendar bandas pra quem estiver interessado em ouvi-las.

Quando eu era mais novo, costumava fazer um exercício de ler o que alguém escrevia sobre determinado disco e pegava ele e tentava “ver” em que lugares da crítica o cara falou coisas nada a ver. Não acho que tivesse consciência disso na época. Na minha cabeça de moleque de 15-16 anos devia ser uma espécie de desafio, e de certa forma até hoje eu faço isso. A diferença é que hoje em dia eu não tenho mais essa vontade do tipo “vou pegar o disco pra escutar só pra provar que esse cara escreveu merda”, mas inconscientemente eu “procuro” onde está o que eu li em determinada resenha.

Acho que a conclusão é algo entre uma lição de moral do tipo “pense sozinho” e o “não desqualifique de cara uma banda, mas também não engula qualquer coisa que te mostrarem”. Senso crítico é sempre bom na hora de filtrar o que se ouve, e a opinião de alguém em cujo gosto musical você confie não é ruim, sabendo como usar.

A propósito de gostos duvidosos, saiu aqui o Still Hungry, remake do Stay Hungry do Twisted Sister. Já comentei esse disco no blog, dizendo que achei a idéia ruim, mas devo adquirir porque fã é burro mesmo.

Ainda sobre remakes e aproveitando que a Lucie Multiplex esclareceu minha dúvida, alguém além de mim está curioso pra assistir o remake d‘O Homem de Palha (The Wicker Man, no original em inglês)? Vai ser bizarro, porque o filme original já é uma aberração. Não vou explicar pra não estragar a história, mas pra quem gostou de A Vila, esse filme tem o mesmo esquema de reviravoltas no enredo.

Confesso que não estou animado. A idéia de refazerem o filme não me agrada, até porque o original era uma mistura de filme de arte com musical (em tempo: as músicas são muito foda, principalmente pra quem gosta de coisas mais tranqüilas, como os discos solo do Stephen Brodsky, vocalista do Cave In, ou de PG Six). Será que Róliúdi vai ter a manha de fazer músicas tão legais quanto as do original ou vem aí uma trilha sonora com Chemical Brothers, Slipknot, Sevendust e Marylin Manson?

Apesar do medo, não é de todo ruim a idéia do Nicolas Cage no papel do policial que é católico fervoroso e se sente perturbado pela boazuda do bar. Só espero que não chamem uma biatch dessas que atuaram na refilmagem d’O Massacre da Serra Elétrica pro papel da Britt Eckland (a supracitada boazuda do bar). Quem sabe, o próprio Christopher Lee (dono da ilha, no Wicker Man original) podia participar do remake como um velho tarado que manda brasa na mina! Até caberia no conceito do filme.

O jeito é esperar. Se não demorar mais de 20 anos pra sair como o original demorou, já é alguma coisa. Pra quem quiser assistir, o Wicker Man de 1972 foi relançado em DVD, não deve ser difícil encontrar. É um daqueles filmes “cult”, pouco conhecido e, apesar de ter um toque decididamente cabeça, nada impede alguém que não seja estudante de cinema ou aluno do terceiro ano de artes plásticas de gostar. Não precisa ser escolado em Godard pra sacar o enredo do filme, e, em se tratando desse tipo de cinema, só isso já é um baita mérito.

 
John Gracinha é correspondente voluntário do Abacaxi e louco pra ser aceito na cena glam paulistana. E-mail: johngracinha@abacaxiatomico.com.br.

 

 

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